HISTÓRIA ECONÔMICA DO CAPITALISMO BRASILEIRO - II

 




Expectativas de inflação e a agiotagem autorizada

A política monetária, tal como é desenhada no Brasil desde o Plano Real, se inclina aos desígnios rentistas. O que a independência do BC causou foi a sacralização da agiotagem como prática autorizada por uma entidade apartada das pressões da sociedade

Das cenas que inspiram tragédia, um banqueiro acuado é a mais cômica. Cômica e terrível, considerando a facilidade com que os arguidores do programa Roda Viva da TV Cultura, exibido no último 13 de fevereiro de 2023, deixaram Campos Neto escorregar no quiabo para fugir do debate sobre a soberba taxa de juros praticada pelo Banco Central.

Capturando as entrelinhas com a missão de traduzir as gírias que atiçam os ouvidos na Faria Lima, não passou despercebida a relevância atribuída por Bob Fields III aos caprichos expectacionais dos agentes financeiros.

No caldeirão do monetarismo, a noção de que os agentes atuantes na alocação de recursos líquidos são capazes de prever os movimentos da economia à frente da massa ordeira de trabalhadores-consumidores deu vida ao esqueleto institucional dos Bancos Centrais Independentes. Basta cortejar as expectativas lançadas pelo mercado para aconchegá-las ao que se entende como um nível razoável de inflação.

Na banda das independências, o sistema de metas de inflação patrocinou o afastamento das políticas de regulação da oferta de bens e serviços essenciais, deixando a política monetária como promotora solitária do combate à inflação. Por seu turno, a inflação é um fenômeno que se origina da expansão da demanda encomendada pelo aumento do gasto público, diria o Bob Fields original no mesmo Roda Viva décadas atrás.

Os antípodas do fiscalismo ainda celebram as amarras impostas ao endividamento público em 2016, com o Teto Gastos, como vitória da razão econômica contra os desfavores irracionais da política. O modelinho que suporta a sabedoria dos deuses-financeiros se fechou no automatismo entre as expectativa de inflação ancoradas no nível de dívida pública e a atuação corretiva dos Bancos Centrais como regulador da má gestão do Estado.

Nas palavras do Presidente do BC, a manutenção da taxa de juros em 13,75% se justifica pelo elevado prêmio de risco exigido pelos agentes financeiros para compatibilizar a inflação esperada com o ocioso exercício de emprestar ao Estado que exibe um nível crescente de endividamento. A tradução mais aceita é a seguinte: ou o governo esquece a expansão fiscal que tem planejado, ou a queda da taxa de juros é inviável.

Campos Neto chegou a citar a relação entre a inflação esperada e o endividamento do governo, atribuindo ao segundo item a razão de ser do primeiro. Entretanto, o dilema, aparentemente solucionado pelo mecanicismo da política monetária (maiores expectativas de inflação provocam aumento da taxa de juros), guarda soluções mais direcionadas pelo componente político-financeiro do que pela aplicação técnica do livrinho de feitiços consultados pelos magos do Conselho de Política Monetária, o Copom.

A política monetária é executada, grosso modo, dispondo da negociação de títulos da dívida pública emitidos pelo Tesouro Nacional. O BC define a taxa básica de juros como uma meta para a taxa de juros corrente praticada pelos bancos. Ao subir os juros, o BC vende títulos aos bancos, prometendo recomprá-los rapidamente, repondo os níveis das reservas bancárias, agora custeadas por uma taxa de juros maior.  Na prática, o Banco Central absorve liquidez e desestimula a expansão do crédito bancário endereçado ao público que consome e investe.

O efeito sobre a dívida pública é imediato: toda dívida adicional é contratada custando mais ao governo, que deverá apertar os cintos para cumprir com maiores encargos financeiros junto aos agentes privados. Portanto, a decisão de elevar os juros, incitada pelos perigos do endividamento público, gera maior endividamento e o canal de transmissão dessa mágica são as expectativas de inflação.

O Copom ao decidir sobre a taxa de juros está olhando para os sinais do mercado sobre a inflação esperada. Ao respeitar a sinalização, a esperança do BC é que a tendência da inflação seja coibida no caso de estar fora da meta, ou reforçada para acertar em cheio o alvo, caso esteja na direção correta.

O aperto no crédito coíbe o consumo e os investimentos, freando a demanda e mudando a tendência entre a inflação observada no presente e aquela imaginada para o futuro. O risco percebido pelos agentes é abafado ao verificar o compromisso do Banco Central em combater as estrepolias inflacionárias da política fiscal.

Trata-se, portanto, de uma reverência à razão imperante nos mercados. Agora, imagine um padeiro que pode fixar o preço do pão quando der na telha, sabendo que todo pão será vendido… É justamente essa a posição dos opinantes sobre as expectativas de inflação, sabendo que ao elevarem suas previsões, o Banco Central, independentemente dos efeitos sobre a população e o orçamento público, elevará a taxa de juros.

O que explica a migração para os títulos públicos que exibem tamanho risco – como confessam as expectativas inflacionárias? Que as posições oferecidas pelos ativos privados estão muito mais arriscadas, deteriorando o valor patrimonial dos balanços financeiros. Os agentes privados demandam moeda, confiando que a expansão monetária do governo os salvará do calote de seus pares. Precisamente o ocorrido durante a pandemia.

Não espanta que, na lógica da agiotagem, sucumbir à tentação de explicar o aumento da inflação como decorrência do endividamento estatal seja tão atrativo para Campos Neto e para os assinantes do Boletim Focus. Os usurários arrepiam as barbas ao destacar suas preocupações com a inflação, encapando seus motivos pela gritaria “jornalesca” que pede por uma nova âncora fiscal.

O agiota não faz negócio sem seguro e, se o BC é independente, que a morte venha do orçamento público! Gritou a alma acuada de Campos Neto diante da banca avaliativa do mercado.

A política monetária, tal como é desenhada no Brasil desde o Plano Real, se inclina aos desígnios rentistas. O que a independência do BC causou foi a sacralização da agiotagem como prática autorizada por uma entidade apartada das pressões da sociedade. Não demora, o endividamento das famílias explode e a falta de investimentos frustra a tentativa do governo de fazer o país voltar a crescer.

O desemprego puxa o descrédito do Presidente da República, enquanto a piora das contas públicas exorta os grileiros da finança ao patrocínio midiático da austeridade. Algo como um “vale a pena ver de novo” do levante mercadista contra Dilma entre 2014-16.

Os agiotas separam a liquidez doada durante a pandemia para ancorar seus balanços nos títulos públicos. Insatisfeitos com a remuneração oferecida pelo Estado, balançam a estrelinha de funcionário do mês para Campos Neto que, embalado pela memória do vovô, não se contém de satisfação. As independências têm dessas: se a servidão a dois senhores confunde a alma, aquele que paga melhor leva a reverência do caboclo e seus descendentes.

Autor: Nathan CaixetaÉ economista pela FACAMP, mestrando em Desenvolvimento Econômico pelo IE/Unicamp e pesquisador do Núcleo de Estudos de Conjuntura da FACAMP (NEC/FACAMP)

Publicado originalmente no aite Brasil Debate

Postagens mais visitadas deste blog

ÍNDICE DE GINI

KEYNESIANISMO

TEOREMA DE STOLPER - SAMUELSON - 1