AS TRÊS ECONOMIAS POLÍTICAS DO WELFARE STATE - IV
A ABORDAGEM INSTITUCIONAL
Os economistas políticos clássicos deixaram claro porque as instituições democráticas deveriam influenciar o desenvolvimento do welfare state. Os liberais temiam que a democracia plena comprometesse os mercados e instaurasse o socialismo. De acordo com sua visão, a liberdade precisava de uma defesa dos mercados contra a intrusão política. Na prática, era isso que o Estado do laissez-faire procurava realizar. Mas foi este divórcio entre política e economia que alimentou muitas análises institucionais. Tendo Polanyi (1944) como seu melhor representante, mas dispondo também de muitos expoentes antidemocráticos da escola histórica, a abordagem institucional insiste em que todo esforço para isolar a economia das instituições sociais e políticas destruirá a sociedade humana. Para sobreviver, a economia tem de incrustar-se nas comunidades sociais. Desse modo, Polanyi vê a política social como pré-condição necessária para a reintegração da economia social.
Uma variante recente e interessante da teoria do alinhamento
institucional afirma que os welfare
states surgem mais
prontamente em economias pequenas e abertas, particularmente vulneráveis aos
mercados internacionais. Conforme Katzenstein (1985) e Cameron (1978) mostram,
há uma tendência maior a administrar os conflitos de distribuição entre as
classes por meio do governo e do acordo de interesses quando tanto as empresas
quanto os trabalhadores estão à mercê de forças que estão fora do controle
doméstico.
O impacto da democracia sobre os welfare
states é discutido desde o
tempo de J. S. Mill e Alexis de Tocqueville. A discussão coloca-se tipicamente
sem referência a qualquer classe ou agente social em particular. É neste
sentido que é institucional. Em sua formulação clássica, a tese afirmava
simplesmente que as maiorias favoreceriam a distribuição social para compensar
a fraqueza ou os riscos do mercado. Se é provável que os assalariados exijam um
salário-desemprego, também é provável que os capitalistas (ou proprietários de
terra) exijam proteção sob a forma de tarifas, monopólio ou subsídios. A
democracia é uma instituição que não pode resistir às demandas da maioria.
A tese da democracia tem muitas variantes em suas formulações
modernas. Uma delas identifica estágios de construção nacional onde a extensão
da cidadania plena tem de incluir também os direitos sociais (Marshall, 1950;
Bendix, 1964; Rokkan, 1970). Uma segunda variante, desenvolvida tanto pela
teoria pluralista quanto pela teoria da escolha pública, afirma que a
democracia alimenta uma intensa competição dos partidos pelo eleitor médio, o
que, por sua vez, estimula gastos públicos crescentes. Tufte (1978), por
exemplo, afirma que ampliações importantes da intervenção pública ocorrem em
eleições, como meio de mobilização do eleitorado.
Esta abordagem também se depara com problemas empíricos
consideráveis (Skocpol e Amenta, 1986). Ao afirmar que quanto mais se ampliem
direitos democráticos maior a probabilidade de se desenvolverem os welfare states,esta tese se
depara com a singularidade histórica de que as primeiras iniciativas
importantes no sentido de umwelfare state ocorreram
antes da democracia e foram poderosamente motivadas pelo desejo de impedir sua
realização. Este com certeza foi o caso da França sob Napoleão III, da Alemanha
sob Bismarck e da Áustria sob von Taaffe. Inversamente, o desenvolvimento do welfare state retardou-se mais onde a democracia
começou cedo, como nos Estados Unidos, Austrália e Suíça. Esta contradição
aparente pode ser explicada, mas só com referências às classes e à estrutura
social: as nações que tiveram democracia mais cedo eram esmagadora-mente
agrárias e dominadas por pequenos proprietários que usavam seus poderes
eleitorais para reduzir os impostos, e não para elevá-los (Dich, 1973). As
classes dirigentes em políticas autoritárias, ao contrário, tinham mais
condições de impor tributos elevados a uma população relutante.
Autor: Gosta Esping-Andersen
Professor do Departamento de Ciências Políticas e Sociais do Instituto Universitário Europeu de Florença
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