AS TRÊS ECONOMIAS POLÍTICAS DO WALFARE STATE - V

 



A CLASSE SOCIAL ENQUANTO AGENTE POLÍTICO

Afirmamos que o argumento em favor da tese da mobilização de classe deriva da economia política social-democrata. Distingüe-se da análise estruturalista e da abordagem institucional por sua ênfase nas classes sociais como os principais agentes de mudança e por sua afirmação de que o equilíbrio do poder das classes determina a distribuição de renda. Enfatizar a mobilização ativa das classes não implica necessariamente negar a importância do poder estruturado ou hegemônico (Korpi, 1983). Mas se afirma que os parlamentos são, em princípio, instituições efetivas para a tradução de poder mobilizado em reformas e políticas desejadas. De acordo com isso, a política parlamentar é capaz de sobrepor-se ao poder hegemônico e pode ser levada a servir interesses antagônicos aos do capital. Além disso, a teoria da mobilização de classe supõe que os welfare states fazem mais do que simplesmente aliviar os males correntes do sistema: um welfare state "social-democrata" vai estabelecer por si mesmo as fontes de poder cruciais para os assalariados e assim fortalecer os movimentos de trabalhadores. Como Heimann (1929) afirmou originalmente, os direitos sociais podem fazer as fronteiras do poder capitalista retrocederem.

Saber se o welfare state é em si uma fonte de poder é vital para a aplicabilidade da teoria. A resposta é que os assalariados estão inerentemente atomizados e estratificados no mercado - obrigados a competir, inseguros e dependentes de decisões e forças fora de seu controle. Isso limita sua capacidade de mobilização e solidariedade coletiva. Os direitos sociais, seguro-desemprego, igualdade e erradicação da pobreza que um welfare stateuniversalista busca são pré-requisitos necessários para a força e unidade exigidas para a mobilização coletiva de poder (Esping-Andersen 1985a).

O problema mais difícil dessa tese é especificar as condições para a mobilização de poder. O poder depende de fontes que variam do número de eleitores à negociação coletiva. A mobilização de poder, por sua vez, depende do nível de organização dos sindicatos, do número de votos e das cadeiras no parlamento e no governo obtidas por partidos trabalhistas ou de esquerda. Mas o poder de um agente não é indicado apenas por seus próprios recursos: depende dos recursos das forças conflitantes, da durabilidade histórica de sua mobilização e da configuração das alianças de poder.

Há diversas objeções válidas à tese da mobilização de classe. Três em particular são fundamentais. Uma é a de que o locus onde se situa o poder e onde se toma decisões pode mudar do parlamento para instituições neo-corporativistas de mediação dos interesses (Schonfield, 1965; Schmitter e Lembruch, 1979). Uma segunda crítica é a de que a capacidade dos partidos trabalhistas influenciarem o desenvolvimento do welfare state é limitada pela estrutura do poder partidário da direita. Castles (1978; 1982) afirma que o grau de unidade entre os partidos conservadores é mais importante que o poder ativado da esquerda. Outros autores enfatizaram o fato de os partidos religiosos (em geral socialistas católicos) em países como a Holanda, Itália e Alemanha mobilizarem boa parte das classes trabalhadoras e defenderem programas de bem-estar social sem diferenças drásticas com os programas de seus rivais socialistas (Schmidt, 1982; Wilensky, 1981). A tese da mobilização de classe tem sido corretamente criticada por seu "suecocentrismo", isto é, por sua tendência a definir o processo de mobilização de poder muito em função da singularíssima experiência sueca (Shalev, 1984).

Estas objeções indicam a falácia básica nas suposições da teoria quanto à formação da classe: não podemos supor que o socialismo seja a base natural para a mobilização dos assalariados. Na verdade, as condições nas quais os trabalhadores se tornam socialistas ainda não foram adequadamente documentadas. Historicamente, as bases organizativas naturais da mobilização dos trabalhadores foram as comunidades pré-capitalistas, as corporações em particular; mas também a Igreja, a etnia ou a língua contam. Uma referência trivial à falsa consciência não explica porque os trabalhadores holandeses, italianos ou americanos continuam se mobilizando em torno de princípios que não são socialistas. A predominância do socialismo entre a classe trabalhadora sueca é tão misteriosa quanto a predominância da religiosidade entre os holandeses.

A terceira objeção - e talvez a mais fundamental — relaciona-se com a visão linear do poder neste modelo. É problemático afirmar que um aumento quantitativo de votos, sindicalização ou cadeiras parlamentares se traduzem em ampliação do welfare state. Em primeiro lugar, tanto para os socialistas quanto para os outros partidos, o mágico umbral dos "50%" para maiorias parlamentares é praticamente instransponível (Przeworski, 1985). Segundo, se os partidos socialistas representam as classes trabalhadoras no sentido tradicional, é claro que jamais realizarão seu projeto. Foram muito poucos os casos em que a classe trabalhadora tradicional constituiu-se numericamente em maioria; e seu papel está-se tornando marginal com grande velocidade.6

Talvez a forma mais promissora para resolver tanto o problema da linearidade quanto da classe trabalhadora minoritária se encontre nas aplicações recentes da tese de Barrington Moore - a quebrada coalizão de classe - à transformação do Estado moderno (Weir e Skocpol, 1985; Gourevitch, 1986; Esping-Andersen, 1985a; Esping-Andersen e Friedland, 1982). Desse modo, as origens do compromisso Keynesiano de pleno emprego e do edifício social-democrata do welfare state remontam à capacidade e força (variável) dos movimentos da classe trabalhadora no sentido de formarem uma aliança política com as organizações dos proprietários de terras; além disso, é discutível afirmar que uma democracia social duradoura tenha passado a depender da formação da aliança com a nova classe trabalhadora dos white-collar.

A abordagem das alianças de classe tem outras virtudes. Duas nações, como a Áustria e a Suécia, podem contar com variáveis semelhantes em termos de mobilização da classe trabalhadora e mesmo assim produzirem resultados políticos muito diferentes. Isto pode ser explicado pelas diferenças na história da formação da coalização nos dois países: a penetração da hegemonia social-democrata na Suécia vem de sua capacidade de forjar a famosa aliança "vermelho-verde" com os proprietários de terras; a desvantagem comparativa dos socialistas austríacos consiste no status de "gueto" atribuído a eles em virtude das classes rurais terem sido conquistadas por uma coalização conservadora (Sping-Andersen e Korpi, 1984).

Em síntese, temos de pensar em termos de relações sociais, e não apenas em categorias sociais. Enquanto as explicações de funcionalidade estrutural identificam resultados convergentes do welfare state e os paradigmas da mobilização de classe vêem grandes diferenças, mas distribuídas de forma linear, um modelo interativo como a abordagem da coalizão volta a atenção para regimes distintos de welfare states.

Autor: Gosta Esping-Andersen

Professor do Departamento de Ciências Políticas e Sociais do Instituto Universitário Europeu de Florença

Prossegue em: O QUE É O WELFARE STATE?




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