AS TRÊS ECONOMIAS POLÍTICAS DO WALFARE STATE - VI

 

O QUE É O WELFARE STATE?

Todo o modelo teórico precisa definir de algum modo o welfare state. Como saber se - e quando - um welfare state responde funcionalmente às necessidades da indústria ou à reprodução e legitimação do capitalismo? E como identificar o welfare state que corresponda às demandas que teria uma classe trabalhadora mobilizada? Não podemos testar argumentos conflitantes a não ser que tenhamos um conceito de uso geral do fenômeno a ser explicado.

Um atributo notável de toda a literatura é sua falta de interesse genuíno pelo welfare state enquanto tal. Os estudos sobre ele têm sido motivados por interesses teóricos por outros fenômenos, como poder, industrialização ou contradições capitalistas; o welfare state em si em geral tem recebido muito pouca atenção conceitual. Se os welfare states diferem entre si, quais são essas diferenças? E quando, na verdade, um Estado é um welfare state? Isso volta nossa atenção diretamente para a questão original: o que é o welfare state?

Uma definição comum nos manuais é a de que ele envolve responsabilidade estatal no sentido de garantir o bem-estar básico dos cidadãos. Esta definição passa ao largo da questão de saber se as políticas sociais são emancipadoras ou não; se ajudam a legitimação do sistema ou não; se contradizem ou ajudam o mercado; e o que realmente significa "básico"? Não seria mais apropriado exigir de um welfare state que satisfaça mais que nossas necessidades básicas ou mínimas?

A primeira geração de estudos comparativos começou com esse tipo de conceituação. Supunham, sem muita reflexão, que o nível de despesas sociais espelha adequadamente a existência de um welfare state. A intenção teórica não era de chegar realmente à compreensão do fenômeno, mas sim de testar a validade de modelos teóricos conflitantes da economia política. Ao classificar as nações de acordo com a urbanização, o nível de desenvolvimento econômico e a proporção de velhos na estrutura demográfica, acreditava-se que os traços essenciais da modernização industrial estavam devidamente considerados. Por outro lado, as teorias interessadas no poder comparavam as nações de acordo com a força dos partidos de esquerda ou da mobilização de poder da classe trabalhadora.

É difícil avaliar as descobertas da primeira geração de comparativistas, pois não há demonstrações convincentes de qualquer teoria em particular. A escassez de nações para se fazer comparações estatísticas restringe o número de variáveis que podem ser testadas ao mesmo tempo. Desse modo, quando Cutright (1965) ou Wilensky (1975) acham que o nível econômico, com seus correlatos demográficos e burocráticos, explica a maioria das variações do welfare state nos "países ricos", medidas relevantes de mobilização da classe trabalhadora ou abertura econômica não estão incluídas. Suas conclusões em favor da "lógica do industrialismo" são por isso postas em dúvida. E quando Hewitt (1977), Stephens (1979), Korpi (1983), Myles (1984a) e Esping-Andersen (1985b) argumentam em favor da tese da mobilização da classe trabalhadora, ou quando Schmidt (1982; 1983) defende o neo-corporativismo e Cameron defende a abertura econômica apresentam suas idéias sem testá-las realmente com explicações alternativas plausíveis.7

A maioria desses estudos pretende explicar o welfare state. Mas o foco nos gastos pode ser enganoso. Os gastos são epifenomenais em relação à substância teórica dos welfare states. Além disso, a abordagem quantitativa linear (mais ou menos poder, democracia ou despesas) contradiz a noção sociológica de que o poder, a democracia ou o bem-estar social são fenômenos relacionais e estruturais. Ao classificar os welfare state de acordo com os gastos, estamos supondo que todos eles contam igualmente. Mas alguns welfare states, o austríaco, por exemplo, destinam uma grande parte dos gastos a benefícios usufruídos por funcionários públicos privilegiados. Em geral, não é isso que consideraríamos uma compromisso com a solidariedade e cidadania social. Outros gastam desproporcionalmente com assistência social aos pobres. Poucos analistas contemporâneos concordariam em que uma tradição reformista de ajuda aos pobres qualifica um welfare state. Algumas nações gastam somas enormes em benefícios fiscais sob a forma de privilégios tributários a planos privados de previdência que favorecem principalmente as classes médias. Mas essas despesas tributárias não aparecem na contabilidade. Na Grã-Bretanha, a despesa social total aumentou durante o período do govenro Thatcher, mas trata-se quase que exclusivamente de um aumento ocorrido em função de uma taxa muito elevada de desemprego. Gastos baixos em certos programas podem indicar um welfare state comprometido mais seriamente com o pleno emprego.

Therborn (1983) está certo ao afirmar que precisamos começar com um conceito de estrutura do Estado. Que critérios usar para sabermos se - e quando — um Estado é um welfare state? Há três respostas a esta questão. A proposta de Therborn é começar com a transformação histórica das atividades do Estado. No mínimo, num welfare state genuíno, a maioria de suas atividades rotineiras diárias devem estar voltadas para as necessidades de bem-estar de famílias. Este critério tem conseqüências importantes. Quando avaliamos a atividade rotineira simplesmente em termos de despesas e quadro de funcionários, o resultado é que nenhum estado pode ser considerado um verdadeiro welfare state até a década de 70 deste século, e alguns Estados normalmente rotulados como tal não fazem jus a essa classificação porque a maior parte de suas atividades rotineiras dizem respeito à defesa, à lei e à ordem, à administração e coisas do gênero (Therborn, 1983). Os cientistas sociais foram muito precipitados ao aceitar o status de welfare states apregoado pelas próprias nações. Também foram precipitados ao concluir que, se programas sociais de tipo padrão tinham sido introduzidos, o welfare state havia nascido.

A segunda abordagem conceitual deriva da distinção clássica de Richard Titmuss (1958) entre os welfare state residuais e institucionais. No primeiro caso, o Estado só assume a responsabilidade quando a família ou o mercado são insuficientes; procura limitar sua prática a grupos sociais marginais e merecedores. O segundo modelo destina-se a toda a população, é universalista, e personifica um compromisso institucionalizado com o bem-estar social. Em princípio, procura estender os benefícios sociais a todas as áreas de distribuição vital para o bem-estar societário.

A abordagem de Titmuss fecundou uma variedade de novas perspectivas na pesquisa comparativa do welfare state: (Myles, 1984a; Korpi, 1980; Esping-Andersen e Korpi, 1984; 1986; Esping-Andersen, 1985b; 1987b). É uma abordagem que força os pesquisadores a saírem da caixa preta dos gastos para o conteúdo dos welfare state:programas direcionados versus programas universalistas, as condições de elegibilidade, o tipo de benefícios e serviços e, talvez o mais importante, em que medida o nível de emprego e a vida profissional fazem parte da ampliação dos direitos do cidadão. A mudança para tipologias do welfare state torna dificil a defesa de simples classificações lineares do welfare state. Conceitualmente, estamos comparando tipos de Estados radicalmente diferentes.

A terceira abordagem consiste em selecionar teoricamente os critérios com os quais julgar os tipos de welfare state. Isto pode ser feito comparando-se estes últimos com um modelo abstrato e então avaliar programas ou welfare state como um todo (Day, 1978; MyLes, 1984a). Mas isto é a-histórico e não apreende necessariamente os ideais ou intenções que os agentes históricos tentaram realizar com as lutas pelo welfare state. Se o nosso objetivo é testar teorias causais que envolvem agentes, devemos começar com as demandas promovidas realmente pelos atores que consideramos críticos na história do desenvolvimento do welfare state. É difícil imaginar que alguém fosse lutar por gastos per se.

Autor: Gosta Esping-Andersen

Professor do Departamento de Ciências Políticas e Sociais do Instituto Universitário Europeu de Florença

Prossegue em:
UMA RECONCEITUAÇÃO DO WALFARE STATE


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