HISTÓRIA DO BRASIL - ANO MMXXIII DO QUADRIÊNIO DA ESPERANÇA: REFORMA TRIBUTÁRIA - l
Reforma Tributária será vitória histórica
Passo é decisivo e o maior que o Brasil deu em
muitos anos
A aprovação da Reforma Tributária no Senado foi
uma grande vitória do governo e do Brasil. Que bom que voltamos a ser um país
em que, pelo menos às vezes, os dois vencem juntos.
Como escrevi na semana passada, as evidências sugerem que a reforma tornará os
impostos brasileiros mais eficientes e mais justos. Aprová-la foi um sonho para
o governo Fernando Henrique Cardoso, para o governo Lula, para o
governo Dilma, para o governo Temer, e só não foi para o Jair porque Guedes
preferia voltar com a CPMF.
Bolsonaro, aliás,
resolveu aparecer no Congresso Nacional para impedir a aprovação da Reforma Tributária. Tentou provar que,
ao contrário de quem dependia dele para comprar vacina durante a pandemia, sua
carreira política não morreu. No que já vem se tornando um hábito, Jair perdeu.
A reforma ainda precisa voltar a ser aprovada na Câmara dos Deputados, pois foi alterada no Senado. É preciso estar vigilante para que o
espírito da reforma seja preservado nos próximos passos —que deve exigir também
a aprovação de algumas leis complementares.
Mas a previsão geral é que a aprovação saia ainda este ano.
Afinal, Arthur Lira também
vê na Reforma Tributária o principal legado de sua presidência.
O ministro Fernando Haddad precisava muito dessa vitória histórica. Nas semanas anteriores,
seu prestígio foi abalado pela confusão dentro do governo sobre a nova meta
fiscal. Há ruídos entre a Fazenda e a Casa Civil, como, aliás, houve em todos
os governos anteriores.
O problema não é a meta ser zero ou 0,5%.A meta de déficit
zero foi um jogo que Haddad propôs ao Congresso: "se vocês aprovarem o
pacote antimutreta de rico que não quer pagar impostos, eu entrego o déficit
zero". Se era necessário mudar essa oferta, o ministro é que deveria ter
convidado o Congresso para outra dança.
O pacote de Haddad para corrigir distorções na arrecadação é
bom. No caso da direita, opor-se a essas medidas é defender os velhos
privilégios patrimoniais que sempre contaminaram o Estado brasileiro. No caso
da esquerda, ser contra o pacote de Haddad é ser pelego: é desistir da luta
difícil, da luta real, contra poderosos reais.
Também vale lembrar que a proposta do governo anterior para
zerar o déficit público era vender todos os imóveis da União (incluindo
quartéis do Exército, áreas de fronteira etc) ao mesmo tempo, no primeiro ano
de governo. O Brasil estava mesmo muito bêbado.
De acordo com as projeções econômicas, o Brasil e o mundo
devem crescer menos no ano que vem do que em 2023. Entendo perfeitamente que
esses números levem gente no governo a temer uma meta fiscal muito rígida. Lula
certamente conta com investimentos públicos para tentar reaquecer a economia.
Mas não é só isso que o governo pode fazer para melhorar
nossas perspectivas econômicas. Se conseguir corrigir as distorções que impedem
nosso crescimento, nossas perspectivas de longo prazo melhorarão, mesmo se o
curto prazo for turbulento. Se os investidores concluírem que daqui a alguns
anos o Brasil crescerá mais, e mais consistentemente, podem começar a investir
agora.
A Reforma Tributária é um passo decisivo nessa direção, o
maior que o Brasil deu em muitos anos. Na semana passada, o mundo viu o Brasil
funcionando como havia muito tempo não funcionava. Temos mesmo que comemorar.
Autor: Celso Rocha de Barros
Um passo gigante para a transparência tributária
No longo prazo, reforma deixará legado de
promoção da cidadania tributária
O Senado aprovou
em segundo turno, no mês de novembro de 2023, o projeto de emenda
constitucional (EC) que unifica os cinco impostos indiretos —ISS, ICMS,
PIS/Cofins e IPI— em um IVA compartilhado entre os municípios, estados e a
União e em um imposto seletivo que incidirá sobre itens que fazem mal à saúde e
ao ambiente, além de armamentos e munição para uso civil.
O
IVA desdobra-se em dois: na CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), da União,
e no IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), compartilhado entre os municípios e
os estados. Como o fato gerador, a base de tributação e os regimes tributários
serão os mesmos, eles funcionam como um único imposto.
Elaborei
com mais detalhe diversos aspectos da Reforma Tributária em
um texto nesta Folha em 5 de julho passado.
Há
29 itens que ficaram com alíquota reduzida ou em um regime tributário próprio a
ser definido por meio de lei complementar. Além dos mais óbvios —educação e
saúde privadas e cesta básica— itens
como turismo, transporte coletivo, inclusive interestadual, produção
artística e científica, clubes de futebol, e insumos de limpeza entraram em
algum regime especial.
Vimos
agir a lógica da ação coletiva de Mancur Olson. Grupos pequenos e organizados
são bem-sucedidos em convencer o Congresso
Nacional a aprovar medidas que os beneficiam, à revelia do interesse
coletivo. Todos nós teremos de pagar uma alíquota maior para financiar os bens
com alíquotas reduzidas. Já aqueles em regime especial não terão tributação
sobre o valor agregado, e manterão todas as características ruins de uma
tributação cumulativa, como a que ocorre hoje.
Apesar
desses desvios, há grande simplificação, e o outro ganho da nova legislação é a
transparência. A reforma tornará o custo do Estado brasileiro transparente para
a sociedade. Penso que esta explicitação estimulará políticas que elevem a
eficiência do gasto público. Deve ser, em associação com os ganhos de
eficiência econômica, o grande legado positivo em longo prazo da reforma: ela
promove a cidadania tributária.
Além
da maior simplicidade, os ganhos de transparência ocorrem porque os setores
contemplados pelos regimes especiais estão claramente explicitados na
Constituição Federal.
Há
na EC aprovada dispositivo
de revisão das exceções acolhido pelo relator, senador do MDB do Amazonas,
Eduardo Braga, por sugestão do TCU (Tribunal de Contas da União). Foi um grande
passo para que nós criemos a prática de avaliação permanente das políticas
públicas. Segundo o texto da EC, "os regimes diferenciados de que tratam
este artigo serão submetidos a avaliação quinquenal de custo-benefício, podendo
a lei fixar regime de transição para a alíquota padrão".
A
reforma estabeleceu um FNDR (Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional) para
compensar os estados por perderem o instrumento da guerra fiscal para atrair
investimento. O fundo cresce em valor ano a ano até que, em 2043, o Tesouro
transferirá anualmente e permanentemente ao FNDR valores a preços de hoje de R$
60 bilhões.
O
critério de repartição dos recursos será de 70% do FPE (Fundo de Participação
dos Estados) e 30% em função da população. Esses critérios concentram muitos
recursos nos estados pequenos na região Norte. Meus colegas Marcos
Mendes e Sérgio Gobetti sugerem uma regra mais equitativa.
Essa é uma reforma que se discute há quase quatro décadas. Houve muito acúmulo para chegarmos até aqui. Vale lembrar que a PEC 45 foi aprovada na Comissão de Constituição de Justiça da Câmara em 2019. Aos trancos e barrancos, e com muita lentidão, vamos andando para a frente. Temos motivos para comemorar.
Autor: Samuel Pessoa

