ESG - A QUESTÃO SOCIAL: PARTE 002
Além do mínimo:
empresas aderem ao salário digno para funcionários
Remuneração inclui até dinheiro para imprevistos, como o conserto de um carro. Falta de padronização do cálculo e dificuldade para engajar fornecedores são desafios para implementação
Por Naiara Bertão — São Paulo
As
recentes revelações de casos de trabalho análogo à escravidão no
Brasil evidenciam que as empresas precisam cuidar melhor de suas políticas
trabalhistas, fazendo não apenas o que a legislação exige, mas indo além para
prover qualidade de vida aos funcionários, próprios e terceirizados.
Em
linha com o avanço das pautas de direitos humanos e para atender políticas mais
rígidas de gestão de risco (reputacional, financeiro, litigioso), algumas
companhias começam a adotar estratégias de melhoria do salário para seus
empregados e a cobrar o mesmo de fornecedores. É o movimento pelo salário
digno.
Segundo
a Organização Mundial do Trabalho (OIT), o salário digno leva em consideração
em seu cálculo quanto aquela população em determinada região precisa de
dinheiro para morar com algum conforto, fazer várias refeições ao dia, garantir
o acesso à água potável, educação e saúde.
O
cálculo também inclui os recursos necessários para conseguir pagar as contas de
energia e gás, ter vestimentas e meios de locomoção e algum dinheiro para
imprevistos. Na conta, são incluídos o trabalhador e seus dependentes. É
diferente de salário mínimo, que tem um escopo bem mais limitado.
Organizações
como a Global Living Wage Coalition, a Fair Wage Network e a Living Wage
Foundation estão entre as que procuram disseminar a importância da prática de
um “salário de bem-estar”. No Brasil, por exemplo, a estimativa é que o salário
digno seja de cerca de R$ 3 mil, bem acima o mínimo nacional (R$ 1,3 mil).
O
salário digno deve levar em consideração ainda diferentes níveis de educação,
experiência profissional e desempenho das pessoas, explica Jorge Cavalcanti
Boucinhas Filho, professor de Direito Trabalhista da FGV e diretor na Academia
Brasileira de Direito do Trabalho, em material recém-lançado sobre o assunto.
‘Negociações
sindicais'
A
OIT estima que, no mundo, apenas 19% de todos os trabalhadores assalariados com
vínculo formal recebam o suficiente apenas para garantir sua subsistência ou
menos, ou seja, sem assegurar uma vida digna. Estudo da FGV aponta que o número
de brasileiros com renda familiar per capita de até R$ 497 por mês chegou a
62,9 milhões em 2021. Ou seja, 29,6% da população vivem na pobreza, a maior
taxa já registrada.
—
É um tema complexo e naturalmente espinhoso, por envolver custos maiores,
negociações sindicais e sem contar com uma padronização de cálculo sobre o que
pode ser considerado na conta do salário digno. Vale transporte e plano de
saúde entram, por exemplo? — aponta Carlo Pereira, CEO do Pacto Global da ONU
no Brasil.
Com
o entendimento cada vez mais internalizado de que as empresas têm um papel
fundamental no enfrentamento das desigualdades, algumas saem na frente e passam
a adotar o conceito de salário digno. É o caso da multinacional de produtos de
beleza L’Oreal, a fabricante de chocolates Dengo e outras 24 companhias que
aderiram no último ano ao Movimento Salário Digno do Pacto Global da ONU no
Brasil.
Quem
entra assume o compromisso de garantir 100% de salário digno para funcionários,
incluindo operações, contratados e/ou terceirizados, além de promover e engajar
a cadeia de suprimentos.
—
Grandes empresas têm os meios e o dever de aproveitarem sua força para gerar
emprego e renda — diz Helen Pedroso, diretora de Responsabilidade Corporativa e
Direitos Humanos da L'Oréal Brasil. — Reduzir desigualdades é bom para o país e
para termos mais consumidores com poder de compra, não é filantropia.
A
executiva, que já foi diretora no Pacto Global, conta que ter 100% de
colaboradores com salário digno é um compromisso global da L'Oréal, e que a
política passou a valer para todas as subsidiárias a partir de julho de 2022.
São 88 mil funcionários no mundo , 3 mil no Brasil.
No
processo de implementação do salário digno, o primeiro passo é definir o valor
da remuneração digna. A L'Oréal usa o cálculo da Fair Wage Network para cada
região do mundo em que está e se vale dos serviços da ONG Shift para pôr em
prática o plano.
A
metodologia foi adaptada para os fornecedores, o elo mais desafiador quando o
assunto é salário digno, que recebem treinamento.
—
Se, a longo prazo, não estiver alinhado, perde o contrato — afirma.
O
estudo “The case for living wages: how paying living wages improves business
performance and tackles poverty” ( O caso dos salários de bem-estar: como o
pagamento de salários de bem-estar melhora o desempenho do negócio e faz frente
à pobreza, em tradução livre), divulgado em maio de 2022 pelo movimento
Business Fights Poverty, pelo University of Cambridge Institute for
Sustainability Leadership e pela Shift, mostra alguns resultados das políticas
de salário digno.
Menor
rotatividade de pessoal é um deles, o que reduz os custos de recrutamento e
treinamento; reduz o absenteísmo e eleva a produtividade, uma vez que é vista
melhora na saúde e segurança econômica das pessoas.
Caso
da paypall
Um
caso usado como argumento por quem defende o assunto é
o
da empresa de pagamentos PayPal. Em 2019, o CEO, Dan Schulman, creditou parte
dos dois anos de sucesso da empresa à iniciativa de aumento de salário dos
empregados que ganhavam menos.
A
decisão veio após a empresa apurar que 60% dos funcionários tinham uma renda
disponível líquida de apenas 4% a 6% de seu salário, insuficiente para custear
imprevistos, como o conserto do carro ou um tratamento médico. Muitos também
atrasavam as contas.
A
empresa aumentou o percentual para 16% e elevou a contribuição para os custos de
assistência médica. O salário em si subiu 7%, em média. A empresa também
ofereceu educação financeira para os funcionários aprenderem a administrar seu
dinheiro e fazer o pé de meia. Resultado? A receita subiu 15% e o lucro, 28%,
entre 2018 e 2019.
—
Há três anos, as empresas tinham uma leitura monocromática do que é direitos
humanos. Vemos agora maior compreensão de quão relevante isso é para o negócio
— diz Rafael Benke, fundador e CEO da consultoria de direitos humanos Proactiva
Results.
Publicado originalmente no jornal O Globo
