ESG - A QUESTÃO AMBIENTAL: PARTE 004

 


Salário digno envolve engajamento de fornecedores

Preço pago pela fabricante de chocolate Dengo a produtores de cacau pode chegar a 145% acima do mercado

Na adoção de política de salário decente, o caminho natural das empresas é começar com os funcionários e depois estender o benefício aos fornecedores. O caso da fabricante de chocolates Dengo foi o inverso.
— Nascemos como um negócio de impacto com o compromisso de gerar renda digna para os pequenos produtores de cacau da Bahia. É nosso motivo de existência — conta Estevan Sartoreli, cofundador da companhia ao lado de Guilherme Leal, um dos principais acionistas da Natura.
A cadeia do cacau, assim como outras agroindústrias, já foi alvo de denúncias de baixa remuneração, trabalho infantil, desrespeito a leis trabalhistas, entre outras. Há estudos que mostram, segundo Sartoreli, que o cacau exportado pela África — cujos países estão entre os maiores produtores da fruta — remunera os trabalhadores em 50 centavos de dólar por dia, enquanto o salário necessário para uma vida digna por lá está em torno de US$ 2,1 a US$ 2,6 por dia.
— Só existe cacau sustentável se conseguirmos promover renda digna para os produtores. Não dá para ter uma empresa com lucro alto e miséria na cadeia — defende o executivo.
Segundo ele, a Dengo paga pelo cacau 92% acima do preço médio do mercado a seus 150 trabalhadores no campo. Mas, ainda assim, há desafios: em 2022, apenas 38% desses parceiros eram remunerados com valores acima do salário digno estabelecido pela empresa (em 2021 o índice era maior, 45%).
Sartoreli explica que a queda se deve a dois fatores principais: diminuição do preço médio do cacau no período e menor fornecimento por produtor em 2022, devido principalmente às mudanças climáticas. A expectativa é chegar a 75% de produtores com salário maior que o digno até 2025 e atingir 100% em 2030.
Pesquisa no Brasil
Já entre os mais de 400 funcionários, 99% já ganham acima do salário digno calculado pelo Anker Research Institute (só estagiários que estão no 1% restante).
O valor pago não é revelado pela empresa, mas apuração do Prática ESG mostra que a remuneração decente para atividades similares é de cerca de R$ 2,5 mil, quase o dobro do salário mínimo no Brasil.
O que a empresa tem feito é levar incentivos aos produtores com boas práticas de cultivo e qualidade superior do produto. O preço pago pode variar de 70% a 145% acima da prática de mercado, dependendo da qualidade, se é orgânico ou não, por exemplo.
Segundo o executivo, entre os efeitos da estratégia estão a maior preservação florestal, a redução da rotatividade nas lojas e satisfação dos fornecedores. Indiretamente, completa, remunerar melhor pode ajudar a enfrentar problemas sociais, como violência.
A indústria do café é outra que precisa melhorar seus parâmetros se quiser continuar competitiva no mercado internacional. O salário digno estimado para os produtores é estimado em R$ 3.200 para os mineiros e R$ 3.500 para paulistas, segundo Ana Moraes Coelho, coordenadora no Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGVces).
A pesquisadora está envolvida em uma pesquisa de campo para identificar como as práticas exigidas pela certificadora internacional de agricultura sustentável Rainforest Alliance estão sendo aplicadas no setor cafeeiro no Brasil e se elas contribuem para a melhora de renda dos produtores.
A organização incluiu salário digno entre suas normas obrigatórias em 2021 e deu um tempo até de adaptação. Ano passado, lançou um edital, ganho pelo The Institute of Development Studies (IDS), do Reino Unido, para desenvolver um diagnóstico e avaliar sua aplicação na prática. Estão sendo estudadas as indústrias do café no Brasil, café e chá no Quênia e na Indonésia, e a banana na Colômbia. Para isso, contratou parceiros locais — aqui, é o FGVces.
Matéria publicada no jornal O Globo

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