O CAPITALISMO BRASILEIRO É UM AMOR, É OU NÃO É? - CAPÍTULO - XXVIII
Precarização fragiliza efeitos do aumento da ocupação
Mais prejudicados, mulheres e negros precisam de ações
específicas
Diante das manchetes positivas e generalistas de parte dos
meios de comunicação festejando a melhora do mercado de trabalho, é fundamental
não esquecer a perversa desigualdade que estrutura nossa sociedade. Ainda que
as estatísticas indiquem um aumento na ocupação da população economicamente ativa, não é possível falar que o
mercado de trabalho está prosperando, já que a alta precariedade se mantém
persistente.
Um indicador utilizado pelo Radar Ceert, por exemplo,
comprova a enorme precarização do trabalho, que, assim como a taxa de desocupação,
afeta principalmente as mulheres e as pessoas negras e explicita que o racismo
é uma das principais causas das desigualdades no país, destacando-se aí as
precárias condições de trabalho em que vivem os negros brasileiros.
Relacionada com baixos salários, insuficiência de horas
trabalhadas, informalidade, intermitência, falta de estabilidade e não garantia
de direitos, a taxa de precariedade do trabalho alcançou 51,6% no último
trimestre de 2022, apontando um crescimento relativo de 9,8% desde o último
trimestre de 2015 (Pnad Contínua).
Essa análise revela o outro lado da história contada pelos
indicadores que apontam uma melhora nas condições do mercado de trabalho, como
a redução de 9,1% para 7,9% na taxa de desocupação, além de um aumento no número
de ocupados em cerca de 7 milhões de pessoas entre 2015 e 2022.
O outro lado dessa história é que cresceu também em 7,9
milhões o número de pessoas em trabalhos precários, superando o aumento no
total de pessoas ocupadas, e, dessa forma, as condições de milhares de
ocupações estão mais fragilizadas e deterioradas.
A
juventude brasileira, hoje majoritariamente negra (61%), se encontra cada vez
mais atingida por um trabalho instável e precarizado, tendo como única forma de
sustento trabalhos em aplicativos de entrega e transporte.
Podemos
constatar essa realidade olhando para o perfil dos entregadores ciclistas:
homem, jovem, negro, entre 18 e 22 anos de idade e com ensino médio completo,
que estava desempregado e agora trabalha todos os dias da semana, sem proteção
social e em jornadas exaustivas, segundo pesquisa da Aliança Bike (2019). Ou
seja, é urgente construirmos o processo de regulação e regulamentação para
trabalhadores e trabalhadoras das plataformas de aplicativos.
É
certo que a elevação da taxa de precariedade atinge todos os grupos
populacionais, porém os mais afetados são as mulheres e as pessoas negras, com
proporções de 54,4% e 59,7% das pessoas ocupadas em condição de precariedade,
ante os 49,5% e os 41,7% dos homens e das pessoas brancas, conforme dados do
quarto trimestre de 2022.
As
mulheres negras em ocupações precárias representam 63,1%, e os homens brancos
na mesma condição são 39,3% dessas vagas. De outro lado, elas são minoria na
área tecnológica, pois, embora representem 28% da sociedade brasileira, 11%
trabalham em empresas de tecnologia e apenas 3% frequentam cursos de engenharia
da computação (Report 2022
– PretaLab).
Nesses
tempos de renovação que estamos vivendo, urgem a concertação e a implementação
de políticas públicas, privadas e sindicais para o enfrentamento dessa
desigualdade de gênero e raça, que vão da valorização do salário mínimo à
retomada e ao fortalecimento das redes de proteção social, da negociação
coletiva e das instâncias de representação de pessoas trabalhadoras.
Acima de tudo, trata-se de um outro conceito de crescimento e desenvolvimento econômico orientado pelos cuidados socioambientais e pela equidade como pressuposto para investimentos no mercado de trabalho, nos processos de geração de empregos de qualidade e nas inovações que precisam ser implementadas.
Autora: Cida Bento
Conselheira do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), é doutora em psicologia pela USP
Publicado
originalmente na Folha de São Paulo
