HISTÓRIA DO BRASIL - ANO MMXXIII DO QUADRIÊNIO DA ESPERANÇA, VOZES DO BOM SENSO: VENILTON TADINI
Executivo defende mudanças na taxa TLP e no aumento da participação do BNDES nos financiamentos de infraestrutura
O
presidente da Associação
Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Venilton Tadini,
sempre foi um crítico da ausência de Estado na infraestrutura. Na avaliação
dele, não é possível ter avanço do setor sem que haja investimento público.
Isso porque alguns projetos não são viáveis economicamente apenas com a
iniciativa privada.
Nessa
linha, também é um crítico ao teto de gastos que foi implementado nos últimos
anos e puniu o investimento do governo. “É o ajuste mais perverso que existe
numa economia, porque você está acabando com seu capital fixo para o potencial
de crescimento futuro.” O executivo diz estar otimista com a nova proposta de controle
de gasto público apresentado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Segundo ele, apesar da preocupação com a responsabilidade fiscal, será possível
voltar a investir.
Outro
ponto importante é a retomada da participação do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no
financiamento do setor. Para isso, no entanto, será necessário rever a taxa
TLP, adotada nos últimos anos, diz Tadini. “Isso é um equívoco. Ela não permite
que uma agência de fomento, como é o BNDES, tenha um papel anticíclico em
momentos de dificuldades, de período de recessão na economia.”
A
partir de amanhã, 12/04/23, a Abdib vai discutir esse e outros assunto no Fórum
2023 - Avanços na Infraestrutura e Reindustrialização. O evento terá a presença
de vários representantes do governo e também da iniciativa privada. Veja a
seguir trechos a entrevista com o executivo.
Como
o sr. avalia os primeiros dias do governo em infraestrutura?
Vemos
algumas questões positivas. Primeiro é a clareza da forma como é tratada a
questão da responsabilidade fiscal, mas sem perder de vista a questão do
investimento que havia sido perdido. A gente nunca teve uma queda tão
substantiva do investimento público como teve nos últimos cinco anos.
Investimento tem de ter caráter de flexibilidade para ser usado como ação
anticíclica. E o que nós tínhamos antes era justamente o contrário. Havia um
teto onde o investimento era um gasto discricionário e as demais despesas
avançavam, corrigida pela inflação, e o
investimento era cortado. É o ajuste mais perverso que existe numa economia,
porque você tá acabando com seu capital fixo para o potencial de crescimento
futuro. Então essa equipe econômica tem a clareza de que investimento é
absolutamente fundamental para a infraestrutura e, consequentemente, para a retomada
do crescimento.
E
o que se pode esperar?
Há
uma série de questões que estão sendo avaliadas, principalmente o programa de
apoio à transição energética ligada ao processo de reindustrialização. Isso
está sendo discutido dentro do BNDES, no Ministério de Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior, no Ministério da Fazenda e no Ministério do
Planejamento. O Brasil vai ser um player importante na transição energética,
com fontes renováveis e com hidrogênio verde. Isso vai bater na indústria com
um novo ciclo de substituição de importações. A Abdib sempre foi a favor de não
ter apenas incentivos horizontais para indústria, mas ter incentivos
específicos para setores e para produtos. Aliás, nos Estados Unidos, toda parte
de eólica e solar está atrelada ao desenvolvimento e industrialização de várias
cidades no país, com produtos definidos, como painéis solares. Os Estados
Unidos não querem depender da China para ter painéis solares nem da Coreia e
Taiwan para ter semicondutores. Política industrial não se faz só pela
orientação dos vetores de mercado, principalmente o conceito de indústria
nascente, de concorrência internacional. Você tem de ter na partida apoios
importantes para desenvolver sua indústria.
O
desenho dessa política está em andamento?
Em
todas as reuniões em que eu participei com o vice-presidente, que é o ministro
de Indústria e Comércio (Geraldo Alckmin), na Fiesp e em todas as reuniões em
que eu participei com o presidente do BNDES, isso está absolutamente claro, que
essa articulação tem de ser feita. O próprio acordo operacional entre o MDIC e
o Ministério de Minas e Energia. Isso está em pleno andamento. Essa leitura da
importância de indução do Estado para a articulação de políticas públicas é um
resgate fantástico que está sendo feito.
Que
infraestrutura esse governo herdou?
Temos
coisas e segmentos distintos. No transporte e logística, tivemos um avanço
fantástico no programa de participação privada nas estradas federais
pavimentada. Só que isso chegou a 20% da malha e dificilmente vai passar de
30%. O que aconteceu com o restante da malha que não foi colocado de forma
transparente? É que a malha rodoviária federal pavimentada está depauperada. Se
você pegar os dados da CNT sobre qualidade, vai ver que o nível é muito ruim.
Então essa questão é que tem de ficar clara, que por mais que você avance e
principalmente em questão de rodovias e ferrovias, você tem de contar com a
participação do setor público mesmo que seja para induzir PPP. Se você notar, o
governo federal não fez PPP porque precisava de contrapartida de recursos do
Governo Federal para fazer e não queria colocar dinheiro no orçamento. Então o
para fazer PPP você precisa ter recurso do orçamento, você precisa dar a
capacidade para o Estado dar essas garantias e colocar recursos nesse projeto.
Isso
vale para todos os setores?
Tem
alguns segmentos, como saneamento, em que o efeito do novo Marco Regulatório
fez a gente ver (concessões) a Cedae no Rio de Janeiro, Alagoas, Pará, Piauí.
As coisas acabaram avançando de forma significativa. E ainda tem ainda um
grande espaço para o setor privado participar, mas também terá de contar com
recursos públicos daqueles segmentos e daquelas empresas Estaduais que não
forem de fato avançados para a participação privada. No caso de ferrovia, não
dá para fazer projeto estruturante de ferrovia só com setor privado. É um
projeto de 12, 15 anos de caixa negativo.
O
sr. falou de saneamento, mas na semana passada houve mudança no marco
regulatório. Isso não desestimula investimento?
O
que é preciso analisar é a peculiaridade do setor de saneamento. Obviamente não
foi isso que nós negociamos durante quatro anos. Agora vai depender dessa
questão que está sendo regulamentada e da própria iniciativa de governadores
estaduais. Alguns governadores independentemente do que ficar estabelecido vão
continuar com a participação privada, como Minas e São Paulo. Quando olhar para
os índices de qualidade vai ficar fácil comparar. A participação da iniciativa
saiu de 6% para 24% e tá chegando a 25%. Vai ficar mais fácil comparar questão
de eficiência, índices de perdas, nível de investimento por habitante, nível de
coleta e tratamento. Aí é esperar que o bom senso prevaleça.
Hoje
o setor tem problemas para contratar empreiteiras?
Tem
tido mais problema de engenharia do que de construção. Em construção, mesmo nas
grandes empresas, sempre havia o fatiamento e subcontratação das obras. Agora
não tenha dúvida de que houve um baque muito grande. Nós tínhamos um segmento
com uma inserção internacional forte, que era ponta de lança para exportação de
outros bens produzidos aqui no Brasil e isso de fato sofreu. As empresas
tiveram realmente muitos problemas e ainda estão tendo. Isso foi um retrocesso
na capacidade de inserção internacional dessas empresas. Isso por causa da
forma como foram tratadas na Lava Jato. Não houve uma maneira adequada no
processo rápido e renegociação, a exemplo do que teve no subprime nos Estados
Unidos, onde o Estado entrou e renegociou rapidamente. Lá tem o Chapter 11
(equivalente à recuperação judicial) em que a empresa continua funcionando.
Aqui teve um tratamento muito inadequado com o processo produtivo, contra as
empresas. Os executivos e acionistas, sem dúvida nenhuma, tinham de ser
punidos. Agora a empresa, um patrimônio daquela grandeza, jamais poderia ser
prejudicada.
E
podemos ter um reflexo disso numa retomada de investimentos?
Eu
não vejo tanto isso do ponto de vista de construção, porque as empresas tinham
até estruturas internacionais que tiveram de ser desativadas. E, logicamente,
há aqui no Brasil outras construtoras que foram se readequando e absorvendo
nichos que antes estavam na mão das grande. Então eu acho mais difícil ter
impactos na construção. Mas, em função da quantidade de projetos que foram
licitados nos Estados, municípios e no governo federal, começa a ter um
problema em relação a mão de obra na parte de engenharia do projeto.
Haverá
mudanças na participação do BNDES nos projetos?
A
primeira coisa é a TLP como indexador geral do BNDES. Isso é um equívoco. Ela
não permite que uma agência de fomento, como é o BNDES, tenha um papel
anticíclico em momentos de dificuldades, de período de recessão na economia. O
Nelson Barbosa tem feito declarações e está atuando no sentido de permitir um
leque de indexadores que dê condições de tratamento adequado para projetos de
longo prazo e para inovação tecnológica, etc. Para isso, ele está atuando
logicamente no segmento de infraestrutura, na reindustrialização. Certamente, vai
ter de reduzir a participação no atendimento ao setor agrícola e vai ter de
fazer novas captações de recursos para que aumente a participação do banco.
Acreditamos que o BNDES deveria, pelo menos, dobrar o tamanho que tem hoje. Ele
encolheu demais e essa encolhida realmente não foi boa. Isso é parte do reflexo
da própria recessão e parte do reflexo da taxa de juros que a TLP colocou para
o banco praticar.
Essa
mudança ainda é incipiente?
Não
diria isso. Dentro do governo é uma clareza. O BNDES tem de reforçar sua
capacidade de financiamento. Eles estão pensando em emitir títulos para fazer
essa captação ao mesmo tempo que tem de tornar o custo desses financiamentos
viável. Então são dois caminhos que eles têm clareza que têm de seguido. O
importante é que a gente ouve isso do Ministério da Fazenda, do BNDES e dos
ministérios setoriais. Acho que podemos ter novidade logo. Agora que já
definiram alguns pontos importantes, como a questão do controle do gasto
público e a importância da reforma tributária. As apresentações dos projetos
mostraram que é possível estabelecer condições de flexibilidade, que permita ao
País ter condições de investimento não através de um teto geral, que é uma
política muito difícil de acreditar numa economia, alguém que possa fixar um teto
de gasto independente da composição dele. Nós sancionamos uma estrutura péssima
de gastos e ainda deixamos na carteira cerca de R$ 400 milhões de renúncia
fiscal. Somos a favor que isso ele termine para vários segmentos. Tem de abrir
espaço para investimento novo, para segmentos de atividade que são novos
justamente. E isso junto com essa transição energética.
O
setor reclama da falta de empréstimo ponto? A retomada disso também está no
radar?
Empréstimo
ponte para nós era uma coisa equivocada, porque tinha garantia corporativa.
Projeto de infraestrutura não tem de ter garantia corporativa. Na realidade, o
que a gente tem trabalhado junto com a seguradoras e com o próprio BNDES é para
sindicalizar os projetos em que o BNDES entra com a parcela dentro do seu
ritmo, mas que se faça a projet finance em que a garantia seja a própria
receita derivada do projeto e não garantia corporativa. Essa história de
empréstimo ponte é uma questão absolutamente irrelevante. O que é importante é
você aprovar o financiamento de longo prazo para o projeto e não deixar o
investidor na agonia que aprovar um ponte com garantia corporativa e depois ele
não conseguir fazer o longo prazo como ocorreu no ciclo anterior. Eu acho que
essa parte tá ultrapassada. Nesse aspecto também houve um avanço grande no
tratamento do seguro garantia, na mudança da lei de licitações.
Já
tivemos project finance puro no Brasil?
O
BNDES já fez dois. E estamos discutindo com eles o avanço disso para que venha
a ganhar corpo dentro do banco, com segurança, mitigando toda a estrutura de
riscos, aumento da qualidade de avaliação técnica do projeto e isso a gente vem
avançando nos últimos anos.
Quais
setores devem ter maiores investimentos nos próximos anos?
Saneamento
deve continuar em destaque até porque os investimentos das últimas concessões
estão começando agora. Então tem muita coisa pela frente ainda. O mesmo ocorre
com aeroportos transferidos para a iniciativa privada e rodovias federais e
estaduais. A Dutra tem um programa de investimento enorme. Há ainda o programa
ferroviário da renovação das concessões das malhas da Rumo e da Vale.
O
sr. falou de transição energética. Como fazer para não perdermos esse bonde,
sobretudo no hidrogênio verde?
Tem
de fazer como foi feito nos outros países, como Alemanha, Estados Unidos e
China. O Brasil tem nas fontes renováveis uma base importante para o hidrogênio
verde, pois temos energia eólica, solar e biomassa em abundância. Temos de usar
essa vantagem comparativa na produção de hidrogênio, inclusive para exportação.
Temos de entrar no mercado internacional. Com a nossa estrutura de geração de
energia, principalmente elétrica que é mais de 80% renovável, sem dúvida
nenhuma, podemos ser um dos principais players do mundo. Para isso não podemos
depender das estruturas de cadeias de valor que temos hoje. Na minha visão, vai
haver um movimento de recuo no processo de globalização e uma redistribuição
dos novos nichos onde a transição energética vai se cruzar com a
industrialização. Aí precisa ver quais os produtos e equipamentos serão
produzidos aqui. Não podemos ficar dependentes apenas do mercado externo. Se
não vai acontecer o mesmo que ocorreu com a vacina. A gente está na ponta para
a produção da vacina e não tem o insumo para fazer a vacina, dependemos da
China. A mesma coisa com o que aconteceu com a Guerra da Ucrânia e com a
paralisação no porto da China em que faltou componentes essenciais para a
indústria.
O
que é preciso para mudar?
Ter
de ter planejamento, estratégia, desenvolvimento, política pública e tem de ter
clareza. Esse setor será apoiado para desenvolver esse produto. Tem de ter
prazo e metas. O problema que a gente tem no Brasil é que começa um incentivo
no setor, não se cobra nada e vai se renovando. Em função de questões
macroeconômicas, torna-se uma estratégia de assistencialismo para o setor não
sofrer mais. Não uma estratégia de desenvolvimento. Isso a gente precisa mudar.
Quanto tempo a gente não ouve falar de política industrial? A última que teve
foi o PSI, que foi genérica. O conceito da política industrial está certa, a
execução não. E precisa sim de tratamento de conteúdo local. Isso não é
palavrão. Isso é feito na Alemanha, na Ásia, nos Estados Unidos. E tem gente
que acha que essas coisas o mercado resolve com a eficiência da mão invisível.
Não é assim que funciona, principalmente em indústria e setores de alta
tecnologia.
