COMO É FEITA A DEFINIÇÃO DA SELIC?
A Selic é a taxa básica de juros da
economia. Isso significa que ela é um valor referencial para a fixação dos
juros cobrados por instituições financeiras. O valor real não é exatamente o
mesmo do fixado pelo Banco Central, podendo ser maior ou menor.
O seu nome vem da sigla Selic (Sistema Especial de Liquidação
e de Custódia). Esse sistema é uma plataforma do Banco Central onde são realizadas
as operações de compra e venda de títulos públicos federais. A oferta desses
títulos é como se o Estado estivesse pegando empréstimo com investidores (que
podem ser pessoas físicas, empresas ou bancos) para pagar as suas dívidas. A
média dos juros cobrados do governo pelo dinheiro que lhe foi emprestado
corresponde à taxa Selic.
Segundo o BC, essa é sua principal ferramenta de controle da inflação.
Isso porque ela interfere diretamente na tomada de empréstimo ou de uso do
crédito. Se o juro está alto, fica mais caro pegar dinheiro emprestado e, logo,
pressiona-se para uma redução do consumo. Havendo a diminuição da demanda pela
aquisição de bens e serviços, a tendência é que a inflação caia ou entre em
estagnação.
O efeito sobre a inflação, porém, não é imediato. Segundo
Juliana Inhasz, professora e coordenadora da graduação em economia do Insper, e
Joelson Sampaio, professor de economia da FGV EESP, o resultado começa a ser
percebido em um período entre seis a oito meses depois da determinação da nova
meta da Selic. Para este ano, Joelson Sampaio estima que o impacto seja sentido
durante o segundo trimestre. "A taxa [Selic] estava em um nível muito
baixo no ano passado. Os aumentos foram sendo implementados paulatinamente. A
alta significativa se deu nos últimos três meses", explica.
Juliana Inhasz, professora do Insper, destaca que o índice fixado pelo Copom é uma meta. Sendo assim, não é só o anúncio do novo valor que promove a redução da inflação, há outros fatores que são necessários para que isso ocorra: como a reativação da economia, redução do desemprego e a atração de dinheiro para os cofres públicos.
Por
essa transação é cobrada uma taxa de juros diária, que ao ser anualizada
corresponde à taxa Selic. Sendo assim, se a taxa de juros está alta, essas
operações interbancárias também ficam mais caras. "O banco repassa esse
custo ao cliente", diz. "É a mesma relação que rege um fabricante de
bem de consumo, que encarece o preço do seu produto quando os custos para
produzi-lo aumentam", conclui.
A
ideia é que com o juro mais alto, as pessoas sejam desestimuladas a consumir
—porque os empréstimos e crédito estão mais caros. Por outro lado, há um
incentivo para que o consumidor poupe dinheiro, uma vez que a poupança passa
a render mais e a compra de títulos públicos federais também fica mais
vantajosa. Sendo assim, a expectativa é que a redução da demanda pressione pela
queda dos preços e, logo, da inflação. Esse impacto, porém, não é imediato.
Ela diz que atualmente duas questões devem ser observadas: a política fiscal e a estrutura administrativa do Estado. "Repensar a tributação no Brasil é mostrar algum apreço pela condição fiscal. Não há uma fórmula certa, mas há de se discutir como podemos deixar a tributação mais previsível e eficiente. Assim como discutir a reforma administrativa não é necessariamente sair cortando servidor. Há de se pensar na estrutura do Estado, nos gastos do governo, deixá-lo mais transparente. Porque assim é possível atrair mais investidores e mais capital", afirma a professora.
COMO É FEITA A DEFINIÇÃO DA SELIC?
A fixação da taxa Selic é realizada pelo Copom, que é formado
pelo presidente (atualmente, Roberto Campos Neto) e por oito diretores do Banco Central. O comitê se reúne a cada 45
dias para discutir a conjuntura econômica e decidir se altera a taxa Selic
vigente.
Os especialistas ouvidos pela Lupa avaliam que o
fator que mais influencia na fixação da Selic é a inflação. Mas outras questões
interferem na sua definição, como a geração de empregos, produtividade e
atividade econômica. Via de regra, os fatores internos impactam mais no seu
valor do que os externos (valor do dólar, preço do petróleo, etc).
"O BC considera basicamente dois fatores: a atividade
econômica e a inflação. Quando temos uma inflação alta, como a observada em 2021, a taxa de juros é aumentada para tentar arrefecer a
inflação. Esse é o critério", diz Joelson Sampaio, professor de economia
da FGV. "A lógica inversa também acontece: no primeiro ano da pandemia, em
que a gente tinha uma atividade econômica muito baixa e uma inflação
relativamente pequena, o BC diminuiu a taxa Selic para estimular o
consumo", explica.
PORQUE A SELIC ESTÁ AUMENTANDO?
De
acordo com os últimos comunicados feitos pelo BC, a Selic vem sendo elevada
principalmente para combater a inflação doméstica. Além disso, a autoridade
monetária leva em conta outros fatores, como os riscos que a Covid gera para a
atividade econômica e a situação no exterior —os EUA, por exemplo, também vêm
aumentam seus juros, o que impacta o real e, por consequência, os preços
domésticos.
A
TAXA SELIC AFETA AS CONTAS PÚBLICAS BRASILEIRAS? COMO?
Sim.
Os juros pagos pelo governo aos investidores que compraram títulos públicos
federais são fixados pela Selic. A venda desses papéis é como empréstimos
tomados pelo Estado para financiar suas dívidas. Assim como nos empréstimos, a
União deve pagar com correção de juros o dinheiro que tomou emprestado depois
de um período determinado. Dessa forma, se a Selic está alta, o valor devido
aos agentes de mercado fica maior —ou seja, quanto mais alta a taxa, maiores os
juros pagos pelo governo.
Por
outro lado, os títulos públicos passam a ser mais vantajosos para quem investe.
Isso desencadeia a entrada de dinheiro nos cofres públicos. "O investidor
tem duas opções: ele pode ficar aqui ou levar o seu dinheiro para fora. O
aumento da taxa de juros deixa o Brasil mais atrativo como opção de
investimento para o agente de mercado estrangeiro", diz Juliana Inhasz,
professora de economia do Insper. Uma entrada de recursos estrangeiros pode ter
impacto positivo na atividade econômica por seu efeito no câmbio, o que também
afeta as contas públicas.
COMO
ISSO AFETA A VIDA DAS PESSOAS COMUNS?
Para
as pessoas comuns, o efeito imediato acontece sobre o acesso ao crédito e
empréstimo. Em situações em que a Selic está alta, tomar dinheiro emprestado
fica mais caro, porque os juros que os bancos pagam em transações entre si
ficam mais caros —e as instituições financeiras repassam esse aumento ao
consumidor comum.
Sim.
O BC afirmou em seu comunicado mais recente que deve continuar com o ciclo de
aperto monetário, sinalizando uma nova alta da Selic na próxima reunião.
