ESG - A QUESTÃO AMBIENTAL: PARTE 001
Finanças e biodiversidade:
tornando visível o essencial
Annelise Vendramini
explica neste artigo sobre como o declínio da biodiversidade traz também
questões práticas e econômicas
Por Annelise Vendramini
Em “O Pequeno Príncipe”, belo livro de Antoine de Saint- Exupéry, em um diálogo que se tornou clássico, sua amiga raposa diz ao principezinho: “O essencial é invisível aos olhos”. Se na vida, nos diz a raposa, não enxergamos o que é realmente essencial, também assim é, muitas vezes, nas decisões econômicas e financeiras. Aspectos muito importantes para o bem-estar humano associados à natureza, como existência e acesso à água potável, boa qualidade do ar, existência de abelhas ou de jequitibás estão distantes das decisões cotidianas no âmbito econômico e financeiro.
Isso acontece, entre outros motivos, porque são externos ao sistema de preços e mercado e, por isso, requerem técnicas de valoração e análise sofisticadas, diferentes da lógica intuitiva de “preço vezes quantidade” que é utilizada para os produtos e serviços transacionados no mercado.
Porém, essa opacidade da natureza está levando à uma grave crise. O relatório do Intergovernmental Science Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES) aponta que a biodioversidade está declinando mais rápido do que em qualquer outro momento da história. Os impulsionadores diretos desse declínio têm sido mudanças no uso da terra e do mar; exploração de organismos; mudanças do clima; poluição; e invasão de espécies exóticas.
Esses impactos são causados e sustentados pelos padrões de produção e consumo, dinâmica e tendências demográficas, comércio e inovações tecnológicas. Esse declínio da biodiversidade nos apresenta questões éticas fundamentais, como o direito de existência dessas espécies (que direito temos de extingui-las?). Mas traz também questões práticas e econômicas importantes porque há uma relação entre natureza e economia. Não só porque a economia depende da natureza, mas também porque nossos modelos de produção e consumo causam impactos severos sobre a natureza.
Alarmados por essa perda contínua de biodiversidade e a ameaça que isso representa para a natureza e o bem-estar humano foi publicado como resultado da COP15 de Montreal em dezembro de 2022 o Kunming-Montreal Global Biodiversity Framework (GBF), que deve ser adotado por mais de 180 países signatários. Trata-se de framework para monitoramento global da biodiversidade, buscando catalisar ações por parte de governos nacionais, subnacionais e locais, reorientando políticas públicas e fluxos financeiros.
Possui 23 metas a serem atingidas até 2030 distribuídas em torno de macro objetivos que envolvem reduzir as ameaças à biodiversidade (incluindo assegurar que, até 2030, pelo menos 30% das áreas degradadas de ecossistemas terrestres e aquáticos estejam sob restauração efetiva), atender às necessidades humanas por meio do uso sustentável e partição de benefícios e desenvolver ferramentas e soluções para implementação e disseminação dos impactos de atividades econômicas sobre a biodiversidade. Envolve também a mobilização de pelo menos US$ 200 bilhões por ano de fontes públicas e privadas para usos relacionados à biodiversidade.
Entre outros objetivos, o GBF visa tornar a biodiversidade mais visível para a economia. E nesse sentido, não está sozinho. Há outras iniciativas importantes em andamento no âmbito da economia e das finanças. Dois exemplos são a Taxonomia da União Europeia e a Taskforce on Nature-related Financial Disclosure (TNFD).
Em 2020, foi publicada na União Europeia um conjunto de regulações envolvendo empresas e o sistema financeiro com base em um sistema de classificação de atividades consideradas sustentáveis, chamado de “Taxonomia da União Europeia”. Esse sistema de classificação considera seis objetivos ambientais: mitigação e adaptação às mudanças climáticas, uso sustentável e a proteção da água e dos recursos marinhos, a transição para uma economia circular, prevenção e controle da poluição, proteção e restauração da biodiversidade e dos ecossistemas. Esse conjunto de regulações está movimentando todo o sistema financeiro europeu, incluindo a reclassificação de fundos de investimentos com base nos critérios estabelecidos na Taxonomia do que é ou não sustentável.
Ao contrário da regulação na União Europeia que é obrigatória, a Taskforce on Nature-related Financial Disclosure (TNFD) é voluntária. Reconhecendo que impactos na natureza representam riscos para os negócios, enquanto investimentos em proteção e restauração podem oferecer oportunidades também de ganho financeiro, o TNFD desenvolveu um framework para gestão e relato de riscos associados à natureza. No canal do FGVces no YouTube temos dois vídeos explicando as duas iniciativas e suas implicações para as empresas e o mercado financeiro.
Como a natureza sustenta as atividades econômicas, sua degradação atual e futura se traduz em riscos para os negócios. Assim, o setor financeiro e a esfera política reconhecem cada vez mais a urgência desse tema. Estamos vendo um maior esforço para aproximar a natureza e biodiversidade do mundo econômico e financeiro. Para o Brasil e os negócios que aqui operam, esse tema é de fundamental importância, porque somos o país com a maior diversidade biológica do mundo, abrigando dois hotspots de biodiversidade, seis biomas terrestres e três grandes ecossistemas marinhos. Aliás, nosso relatório sobre o “Panorama do Financiamento da Biodiversidade no Brasil” apresenta os recursos atualmente disponíveis para financiamento da biodiversidade, políticas públicas envolvendo o tema e os desafios relacionados à biodiversidade para a soja e a pecuária.
Em tempo: junto com algumas espécies de orangotangos, rinocerontes e tartarugas, a raposa de Sierra Nevada, um dos mais raros mamíferos da América do Norte, está ameaçada de extinção.
Sobre a autora
Annelise Vendramini é coordenadora do Programa de Pesquisa Finanças Sustentáveis no Centro de Estudos em Sustentabilidade associado à Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGVces). Possui graduação em Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, MBA em Finanças pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, IBMEC, SP, Mestrado e Doutorado em Administração de Empresas pelo PPGA da FEA/USP.
