BANCO CENTRAL INDEPENDENTE?

 


Além de fragilidades teóricas, não há evidências robustas de que um BC independente seja capaz de gerar melhores resultados econômicos.

No campo econômico, um tema se estendeu do mês de janeiro de 2023 para o mês de fevereiro de 2023: a independência do Banco Central. Desde a década de 1980 os economistas têm debatido o tema através de teorias e evidências. Em 1987, o economista Milton Friedman, expoente da corrente monetarista, argumentou que a política monetária era um instrumento com tamanho poder que não deveria estar concentrado no presidente de um Banco Central. Ele afirmava que é preciso algum nível de controle social para a autoridade monetária.

O economista João Sicsú, expoente da discussão a respeito da economia monetária, vai além e argumenta que a independência do Banco Central tem a sua fragilidade caracterizada pelo comprometimento que ela pode ocasionar em um dos aspectos mais relevantes para  a estabilidade econômica e política de um país, isto é, a coordenação bem sucedida entre as políticas fiscal e monetária.

No mesmo sentido, outro grande pensador dos temas relacionados à condução da política monetária, Fernando Cardim, argumentou que um dos problemas fundamentais existentes na tese de independência do Banco Central reside no seguinte fato: “a noção de um Banco Central independente […] é um resultado muito peculiar de hipóteses muito restritivas”.  A hipótese restritiva apontada por Cardim é a taxa natural de desemprego, tendo como consequência uma suposta neutralidade da moeda e, assim, uma suposta incapacidade que a política monetária teria de afetar variáveis reais (como emprego e PIB).

Além de fragilidades teóricas, não existem evidências empíricas robustas de que um Banco Central independente seja capaz de gerar melhores resultados econômicos. Assim, o que se observa (com mais ênfase no caso brasileiro) é uma lógica de política monetária única (o controle da taxa de juros) tendo como objetivo exclusivo o cumprimento de uma meta de inflação. Nesse sentido, a economia brasileira vem sendo sistematicamente prejudicada, entre outros fatores, por uma política monetária que está centrada em uma hipótese bastante simples: de que é “natural” a existência de desemprego e o governo não pode fazer nada para mudar essa “realidade”. 

Autores: Kleyton da Costa

Economista pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e pesquisador da Rede de Grupos de Pesquisa Pós-Keynesianos do Rio de Janeiro

Andre de Melo Modenesi

Professor do Instituto de Economia da UFRJ. Pesquisador do CNPq e da FAPERJ. Coordenador do Observatório do Banco Central.

Resumo do artigo publicado na revista Carta Capital em 13/02/23: "Janeiro de 2023: a redenção, o caos e a ‘independência’

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