PRÁTICA ESG - Nº 001
‘Sigla ESG ainda é incompleta, mas útil para evitar riscos’, diz especialista e estratégia de negócios
Para Frederik Dahlmann, professor da Universidade de Warwick, o acrônimo
vai ganhar mais letras e novos significados no futuro próximo
O conceito de ESG (sigla em inglês para se referir a ações ambientais, sociais e de governança nas empresas) gera confusão entre executivos e investidores e ainda não reflete as grandes demandas de sustentabilidade global, segundo o alemão Frederik Dahlmann, professor de estratégia e sustentabilidade da Business School da Universidade de Warwick, na Inglaterra.
Em
entrevista ao Prática ESG, ele afirma que o acrônimo, em alta no universo
corporativo, deve ganhar novas letras e significados no futuro. E as novas
gerações de investidores, empregados e consumidores devem ter papel fundamental
neste processo, comenta o acadêmico, responsável pelo recrutamento de alunos na
universidade.
Para
ele, o ESG é como um check-up médico. É bom para monitorar indicadores, mas não
significa que o paciente esteja saudável ou livre de riscos. É só parte da
questão reputacional das empresas.
OS EFEITOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS PELO MUNDO
O ESG tem sido usado como métrica importante nos mercados e há quem diga que será requisito básico no futuro. Qual a sua importância hoje?
O
debate sobre ESG está cada vez mais amplo, acalorado e com fortes contornos
políticos, sobretudo nos EUA. Há discussão sobre o que é, para que serve, por
que devemos usar, quem deve usar e suas consequências.
Sou especializado em
estratégias de negócios e sustentabilidade e, nessa ampla discussão, o ESG é
apenas um conceito entre vários.
Que tipo de
conhecimento o termo agrega na sua opinião?
Ele foi desenvolvido
pela comunidade de investidores para ampliar o nível de conhecimento e
entendimento sobre as empresas para além das finanças, com dados sobre
temas-chave e críticos em aspectos ambientais, sociais e de governança, que têm
impacto financeiro. Num primeiro momento, servia para entender os riscos a que
estavam expostos ao investir em determinada empresa ou indústria, se faziam o
possível para minimizá-los e se adaptar a mudanças de legislação e outros
problemas.
É o que os dados das
empresas dizem. Para que isso faça sentido, é preciso saber usá-los. Há uma
indústria de rating e rankings de ESG, intermediários que coletam, agregam e
organizam as informações.
Isso não é bom?
É prudente
e bem intencionado em boa medida. Descobre-se como a empresa trata da mudança
do clima, política de remuneração de empregados ou de igualdade e acesso, quem
são os membros da direção, se há conselheiros independentes. É um processo de
gestão e controle de riscos. Mantida a relação do investidor com a empresa, ele
pode fazê-la melhorar, mudar certas práticas. Era a ideia inicial, mas virou
algo muito maior.
Agora, há
estratégias de investimento baseadas exclusivamente na ideia de só se colocar
dinheiro em empresas com bom desempenho financeiro que cumpram quesitos ESG. O
argumento é que isso oferece um investimento
mais seguro e confiável. Esse mercado cresceu consideravelmente nos últimos
anos, mas também criou certa confusão.
Por exemplo?
Algumas
vezes as pessoas acreditam que uma companhia com bom desempenho em práticas ESG
é sempre boa, sustentável. Não necessariamente. Você pode estar em segmentos
como o de armas, petróleo e gás, jogos de azar, álcool ou cigarros e ter um bom
desempenho ESG porque adota boas práticas, gerencia bem riscos, tem estratégia
e disponibiliza informações.
Com a guerra na Ucrânia, vimos quem achasse que o conceito de ESG
poderia ser mais flexível para o caso de se investir em combustíveis fósseis ou
armas.
Sim.
Pode-se argumentar que europeus precisam investir em armas para criar um
sistema de defesa ou em energia suja para diminuir dependência de gás. É outra
confusão. A empresa pode ter boas práticas e resultado financeiro, mas não
necessariamente produzir algo desejável do ponto de vista social ou ambiental.
Há ainda empresas com estratégia ESG ‘para inglês ver’, o chamado
‘greenwashing’...
Esse é outro desafio. Agências de classificação de risco têm metodologias, considerações, definições, suposições, escalas. Mas muitas não têm bons dados porque, no final das contas, pode pedir para a companhia dizer o que faz. E ela decide quanto deve dizer e em que bases. Ou simplesmente
não dizer nada. A falta de conhecimento não necessariamente é pior,
tampouco melhor. O problema é que há muitos enfoques diferentes, definições e
suposições sobre o que é ESG.
Como resolver essa equação? Ir além do que o ESG abrange?
Investidores,
individualmente ou coletivamente (via fundos), têm de fazer escolhas. Investir
em companhias que se saem bem em temas que lhes pareçam importantes, mas não
estão tão bem financeiramente? Teve um momento na pandemia em que empresas que
se saíam bem em ESG sofriam menos em termos financeiros.
Isso
deu vantagens comparativas aos investidores. Mas é preciso ter visão clara
sobre o que importa mais e menos, quanto precisa abrir mão em benefícios
financeiros para garantir mais empregos, oportunidades iguais e projetos de
energia renovável. Isso é particularmente importante para os mais jovens, que
afetam o debate.
Como?
Estamos
vendo uma importante transferência de riqueza de investidores mais velhos, que
fizeram muito dinheiro no passado e se aposentam, para os filhos. Muitos dizem
que não é suficiente investir só para fazer dinheiro. Querem que as empresas
acrescentem algo positivo ao mundo. Isso impõe uma dinâmica muito diferente nos
mercados de investimentos. Em algumas vezes vão decidir com base nos critérios
ESG para avaliar se vale o investimento, em outras vão ter sua própria métrica.
É
um campo minado de acrônimos, convenções, padrões. E, nos EUA, isso está se
tornando muito político. Investir em companhias a partir de ESG pode ser visto
como algo de esquerda ou direita, o que é bizarro, porque é mais uma estratégia
de evitar risco. Mas alguns fazem leituras políticas.
O raciocínio se aplica só a jovens investidores?
Não.
O pensamento surge na hora de procurar emprego. Há gerações se graduando nas
universidades que não querem atuar em empresas que se não façam isso ou aquilo.
Muitas empresas estão trabalhando duro para recebeê-los. Eles estão prontos,
mais conscientes e vão demandar posicionamentos. Para quem contrata, é uma
preocupação genuína. Há também os consumidores, que podem ter visões
diferentes, entre eles os mais jovens.
Não são muitas vozes a ouvir?
É
muito confuso para todos. Se você é executivo, esse debate sobre ESG vai te
forçar a pensar: quem eu tenho que escutar? ESG é importante mesmo ou estou
mais preocupado com lucro? Quero uma companhia bem sucedida. O que é sucesso?
Estou feliz com os produtos que fazemos e com a indústria em que atuamos? Há
muitas questões estratégicas. Por isso evito usar ESG pura e simplesmente.
O conceito precisa ser revisto?
É preciso evitar múltiplas interpretações ou algo que confira
mais poder a companhias com mais meios para atender esses novos padrões. A
maioria das empresas quer melhor consolidação do conceito. Já fazem relatório
financeiro e de sustentabilidade e ainda submetem uma porção de informações
picadas aqui e ali a órgãos. Aí há todo o alfabeto de requisitos. Não por acaso
estão pedindo a auditores, mercados e bancos centrais que liderem esse
movimento. Já há esforços nessa seara.
Qual a importância do ESG para evitar riscos reputacionais?
O
ESG te dá uma lista de itens básicos para além da questão financeira, como se a
diretoria é diversa, a comparação entre o salário do CEO e o do funcionário que
ganha menos, se os colaboradores estão felizes, quanto gera de resíduos etc.
Esses critérios são fáceis de medir e bom ponto de partida. Podem ajudar a evitar
acidentes, incidentes e danos de reputação.
Mas
isso exige liderança e transparência. Muitas empresas não divulgam incidentes,
mas acabam vazando. ESG é uma lista de checagem com um mínimo de itens
críticos. É como um check-up médico: não quer dizer que você está saudável, mas
certamente mostra indicadores que precisam de atenção.
Para o senhor o ESG é apenas parte da solução, certo?
É
uma parte útil. Por isso tem gente que se volta contra, por achar que não
resolve problemas ou considerar de esquerda. O ESG vai continuar? Sim. Talvez
não com esse nome, mas será cada vez mais parte do ambiente de negócios, e não
menos. O acrônimo pode desaparecer e ser substituído por outro termo, porque
estamos acrescentando outras questões. Isso significa que estamos mais
conscientes. Não facilita a vida das empresas, mas reflete uma realidade cada
vez mais complexa.

