HISTÓRIA DO BRASIL: MMXVIII/MMXIX/MMXX/MMXXI/MMXXII, O QUADRIÊNIO DA DESGRAÇA ECONÔMICA - XXII
Prévia do Censo tira recursos de 863 municípios e gera batalha contra dados do IBGE
Números mostram população menor em alguns locais, o que reduz
repasses a cidades, e STF dá liminar para manter valores anteriores
A perda
repentina de recursos afetou 863 municípios que viram suas
estatísticas populacionais minguarem de um dia para outro, segundo levantamento
da CNM (Confederação Nacional dos Municípios). Na tarde desta segunda-feira
(23/11/23), o ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo
Tribunal Federal), concedeu uma liminar restabelecendo a divisão anterior
dos recursos.
O FPM é um fundo abastecido com 25,5% da arrecadação
com Imposto de Renda e IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e seus
recursos auxiliam os municípios no financiamento de políticas. Um dos critérios
para determinar quanto a prefeitura receberá é justamente o número de
habitantes.
Prevista inicialmente para durar três meses, a coleta de dados esbarrou em uma série de dificuldades e já dura o dobro do
tempo. O Censo percorreu 85,1% das localidades a
serem recenseadas, mas outros
14,1% ainda estão em andamento, e em 0,8% a pesquisa nem sequer começou.
Para cumprir a obrigação legal, o IBGE adotou um
expediente inusual: consolidou os dados populacionais a partir da coleta
disponível, que cobria 83,9% dos setores, e estimou os 16,1% restantes. Assim,
chegou à conclusão de que a população brasileira é de 207,8 milhões —abaixo dos
215 milhões esperados pelo próprio órgão.
O TCU recebeu as informações e, em 28 de dezembro
de 2022, proferiu uma decisão normativa que fixou os novos coeficientes dos
municípios —que indicam qual será a fatia deles no FPM. A partir daí, a
confusão se instaurou.
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Especialistas passaram a questionar o dado do IBGE.
Os municípios também criticaram a decisão do órgão de atualizar a estatística
populacional antes de obter a fotografia definitiva do Censo.
O IBGE diz em nota que "não procedem as
contestações de municípios que defendem a utilização dos dados populacionais
desatualizados". Segundo o órgão, a metodologia da estimativa apresentada
foi aprovada pelo conselho consultivo do Censo, formado por economistas,
demógrafos e estatísticos como representantes da sociedade civil.
"A prévia encaminhada representa um esforço
conjunto —do IBGE e do TCU— para entregar os dados populacionais devidamente
atualizados dentro da melhor técnica estatística disponível com maior precisão
e confiabilidade", diz o IBGE.
Mesmo assim, centenas de prefeituras ingressaram
com ações judiciais na primeira instância para manter os coeficientes
anteriores —muitas já haviam sido bem-sucedidas.
Em São Paulo, 97 municípios ficaram com
coeficientes menores, e cada cota subtraída significa uma perda de R$ 5,1
milhões. O problema afeta cidades maiores, como Poá e Mogi Mirim, e menores,
como Lavínia e Porangaba.
Na última quarta-feira (18), o presidente do
TCU, ministro
Bruno Dantas, tratou do assunto em sessão com os demais integrantes da corte
e deu uma dimensão da repercussão política do caso.
"Desde o dia 2 de janeiro tenho recebido uma
enxurrada de telefonemas de parlamentares, de ministros de Estado, de
governadores. Recebi aqui nos primeiros dias do ano o governador [Carlos]
Brandão, do Maranhão, o senador Renan Calheiros, de Alagoas. Recebi o contato
do ministro da Casa Civil, Rui Costa, que foi governador da Bahia e no dia 2 de
janeiro havia deixado de ser governador havia um dia, apenas", disse.
"Virou um pandemônio", resume o
presidente da CNM, Paulo Ziulkoski. Segundo ele, a cada nova liminar judicial,
os valores do fundo precisam ser recalculados, afetando os demais municípios.
Para ele, tanto IBGE quanto TCU atropelaram ao mudar os dados no apagar das
luzes de 2022.
"É lógico que esses municípios perderam
população e vão perder arrecadação, mas tem uma lei dizendo que é para manter
[o coeficiente] congelado", diz Ziulkoski.
A lei citada pelo presidente do CNM foi aprovada no
fim de 2018, diante da perspectiva de atraso
no Censo por falta de recursos federais. Na prática, a medida congelou os
coeficientes de repartição do fundo de participação até que houvesse
atualização "com base em novo censo demográfico".
Ao entregar um dado parcial, o IBGE forneceu uma
informação "com base" no Censo, mas os municípios entendem que isso
não é suficiente. As ações judiciais pedem a manutenção dos coeficientes
anteriores até que o Censo seja, de fato, concluído.
"Há um frenesi de deputados e prefeitos em
busca de solução", afirma Ziulkoski. Segundo ele, a liminar do Supremo dá
uma saída temporária para 702 municípios que seriam alcançados pelo
congelamento previsto na lei de 2018. Mas a entidade busca também uma solução
mais perene.
Devido à defasagem dos dados, a previsão é que um
grande número de prefeituras perca recursos. A sugestão da CNM é diluir os
efeitos da mudança ao longo de dez anos, criando uma espécie de transição entre
o coeficiente maior e o menor. Isso daria tempo para os municípios ajustarem
suas despesas à nova previsão de receitas.
O
impasse em torno do FPM está sendo acompanhado pelo Executivo federal por meio
da AGU (Advocacia-Geral da União), da Casa Civil e
da Secretaria de Relações Institucionais —que tem como uma de suas atribuições
a articulação com estados e municípios.
A SRI
informou que recebeu a demanda pelas entidades que representam os municípios e
repassou o tema ao Ministério do Planejamento, ao qual o IBGE é
vinculado, "para a tomada de uma decisão técnica". O Planejamento,
que havia sido extinto no governo Jair Bolsonaro (PL) e foi recriado no início
do ano, não se manifestou.
Integrantes
do novo governo afirmam, de forma reservada, que as decisões que desaguaram na
polêmica em torno do FPM foram tomadas no apagar das luzes de 2022, ainda sob a
gestão Bolsonaro. A nova administração não vê problemas em fazer uma espécie de
auditoria nos dados para verificar sua solidez, uma vez que mesmo um Censo
ocorrido em prazos normais está sujeito a ajustes.
A Casa
Civil disse que o encaminhamento sugerido pelo ministro "é de que os
prefeitos busquem diálogo com o Tribunal de Contas da União e demais órgãos
envolvidos". O TCU falou sobre o tema durante o discurso do presidente da
corte na última quarta. A AGU não respondeu.
A confusão em torno do FPM reacendeu a discussão em torno da qualidade do Censo Demográfico em meio a cortes de verba, dificuldades operacionais e sucessivos atrasos na coleta de dados.
Em
alguns casos, municípios apareceram com números populacionais abaixo dos
registrados no Censo de 2010. É o caso de Porto Alegre (RS), que tinha 1,409
milhão de habitantes em 2010, 1,493 milhão na estimativa de 2021 e ficou com
1,404 milhão na prévia da nova pesquisa.
A crise é tamanha que o novo governo ainda não tem um nome para presidir o IBGE, que está sob o comando interino do diretor de pesquisas, Cimar Azeredo. Segundo interlocutores, a ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB), entende ser apropriado manter a gestão atual pelo menos até a conclusão da pesquisa, para garantir continuidade nos trabalhos.
Folha de São Paulo
