COMO EXPLICAR A VALORIZAÇÃO DO DÓLAR
Um fator maior subjacente à valorização do dólar está no maior rendimento em termos reais dos ativos norte-americanos em relação a outros. Por exemplo, o diferencial de rendimentos reais entre os EUA e a zona do euro, medido pelos rendimentos de títulos públicos indexados à inflação de cinco anos, emparelha bem com a depreciação do euro em relação ao dólar. Esse diferencial refletiu os movimentos mais rápidos das taxas de juros nos EUA, seguidos pelo convencimento do mercado quanto ao compromisso anti-inflacionário assumido pelo Fed (banco central dos EUA), mais forte em comparação com outros bancos centrais.
Correlações similares podem ser encontradas de forma mais ampla
com os diferenciais de taxas de retorno ajustadas ao risco em outros ativos de
renda fixa. Dadas as alturas já alcançadas pelo dólar, mais surtos de
valorização tenderão a acontecer caso os outros bancos centrais continuem a
defasar na fixação das taxas de juros e/ou se o ritmo de ajuste do Fed acelerar
ainda mais.
O lugar assumido por aplicações líquidas em dólares como
"porto seguro", mesmo com baixo retorno, também aumenta sua demanda
em momentos de percepção de riscos mais altos e menor apetite de investidores
para carregar tais riscos em suas carteiras. No período recente, eventos e
riscos geopolíticos, como os decorrentes da invasão da Ucrânia pela Rússia,
também contribuíram para a demanda por dólares.
Houve também, é claro, eventos pontuais e peculiares. Como a intensa depreciação
da libra esterlina quando o governo britânico fez uma proposta –depois
retirada– de cortes de impostos sem cobertura evidente de financiamento. O
caráter idiossincrático da crise energética europeia e a altíssima
probabilidade de recessão dura também representaram fatores
de compressão sobre o euro.
IMPLICAÇÕES DA VALORIZAÇÃO DO DÓLAR
A forte valorização do dólar americano em relação às demais
moedas, no passado recente, reforçou pressões contracionistas presentes na
economia global. Por um lado, nos EUA, a valorização cambial atuou na direção
de mitigar a inflação local. Contudo, considerando-se o baixo peso relativo do
comércio no PIB dos EUA, nada próximo de deter a inflação doméstica por si só.
Por outro lado, economias já às voltas com inflação doméstica
ascendente tiveram adicionalmente de vivenciar o encarecimento local de
produtos comercializáveis e, portanto, maior exigência de aperto monetário. É
claro que, eventualmente, a desvalorização traz efeitos expansivos sobre saldos
comerciais. Há porém o fenômeno conhecido como o efeito da "curva em
J": uma perda inicial antes de se seguir algum ganho. A balança comercial
de um país piora inicialmente após uma desvalorização de sua moeda, antes de se
recuperar e, em algum momento, superar seu desempenho inicial. Restrições de oferta
–inclusive de energia– tenderam a alongar o fundo dessa "curva em J"
em muitos dos casos de desvalorização perante o dólar. Assistiu-se, portanto, a
uma predominância do efeito contracionista e inflacionário imediato.
A valorização do dólar também traz um efeito compressivo sobre
economias que tenham exposição elevada a passivos denominados naquela moeda. A
subida do dólar foi mais intensa em relação às moedas de outras economias
avançadas. Contudo, mesmo sem passarem por desvalorização tão intensa, economias
emergentes e em desenvolvimento com passivos externos em dólares viram-se mais
vulneráveis. Esse foi o caso de países da América Latina, Caribe e Europa com
dívidas pública e privada em dólares –não do Brasil, onde o governo tem ativos
líquidos positivos em dólar e não há descasamentos significativos de moedas em
balanços privados, além de o país ser exportador líquido de commodities. Mas
foi o de vários outros emergentes e países de baixa renda às voltas com
endividamento externo (Sri Lanka, Zâmbia, Paquistão, Argentina, Turquia e
muitos outros).
Cabe notar também o efeito negativo sobre a rentabilidade de
empresas dos EUA para as quais a renda obtida no exterior tem significância.
Além de prejudicar os lucros das multinacionais norte-americanas no exterior,
bem como os passivos estrangeiros denominados em dólares dos mercados
emergentes, de uma forma ou de outra a valorização do dólar pode levar a
choques inflacionários em outros países e, assim, a políticas monetárias ainda
mais apertadas. Ciclos de feedback de políticas restritivas podem sempre ser
desencadeados por uma valorização drástica e repentina do dólar e a alta deste
evidentemente lembrou tais riscos a todos.
O QUE FAZER DIANTE DA PRESSÃO CAMBIAL
Há um desafio intrínseco à economia globalizada. Cada banco
central olha para o seu próprio país, decidindo as políticas monetárias de
acordo com o que julga necessário em relação ao dilema local entre desemprego e
inflação. Mas, em uma economia tão interdependente, as repercussões das
decisões de qualquer país grande vão muito além de suas fronteiras. E voltam. A
probabilidade de feedback de políticas monetárias restritivas inclusive é maior
quando todas elas respondem a um problema inflacionário comum.
A transmissão via taxas de câmbio se inscreve nessa
interdependência. Juros mais elevados nos EUA acabam impondo aos demais a
escolha entre também elevar juros e/ou deixar ocorrerem saídas de capital e
desvalorização cambial.
Alguns países vêm recorrendo a intervenções diretas nas taxas de
câmbio em vez de elevar taxas de juros domésticas –ou como complemento. O Japão
optou por vender reservas de títulos do Tesouro dos EUA para tentar neutralizar
a desvalorização cambial do iene em relação ao dólar. A Suíça também disse
estar considerando vender moeda estrangeira para apoiar o franco suíço, além de
aumentar as taxas de juros entre as reuniões de seu banco central.
O período após a crise financeira global de 2008-2009 viu
"guerras cambiais", quando os países se acusavam de exportar seus
problemas de desemprego por meio de reduções significativas nas taxas de juros
domésticas e desvalorização de suas moedas. Poderia uma "guerra cambial
reversa" estar surgindo agora, já que a valorização do dólar americano
exporta inflação para outros?
Uma coordenação ampla aconteceu em 1985, quando, como agora, o
dólar ficou supervalorizado. O "Acordo de Plaza", então assinado
entre França, Alemanha Ocidental, Reino Unido, Japão e EUA, teve como
compromisso bem-sucedido a desvalorização do dólar.
Contudo, naquele momento a inflação norte-americana estava já em
declínio depois de um período longo de juros domésticos elevados, enquanto o
atual aperto monetário e de condições financeiras nos EUA ainda está em curso.
O cenário mais provável é o de ausência de acordos equivalentes, com alguns
países se esforçando para evitar ajustes puros de taxas de juros mediante
intervenção direta nos mercados de câmbio. O efeito será limitado se os fatores
subjacentes que levam aos fluxos de capital e pressão cambial não mudarem.
Portanto, o "giro" ou "pivô" do dólar só
ocorrerá quando ocorrer um "giro" ou "pivô" na política
monetária dos EUA. Entrementes, conforme recomendado por Gita Gopinah e
Paul-Olivier Gourrinchas, o Fed deveria reabrir a torneira das linhas
precaucionárias de crédito com os demais bancos centrais –como durante a
pandemia– para evitar os riscos destes serem colocados contra a parede em
situações de súbita iliquidez em termos de dólares.
