PRÁ QUE TECNOLOGIA?

 


Com a palavra, um economista: Paulo Gala
"A lógica de produção de uma multinacional é obter lucro, como a de qualquer outra empresa. O que fazem as multinacionais ao redor do mundo? Constroem suas bases produtivas perto dos mercados consumidores e em bases exportadoras com mão de obra barata; uma lógica econômica quase pura. Os centros de pesquisa e desenvolvimento de produtos, marcas, conteúdo tecnológico, etc… (centros de inovação) ficam em geral nas bases principais dessas empresas, na matriz em países ricos. Nesses locais estão os melhores cérebros, as melhores capacidades produtivas e o grosso do capital humano/ patentes/conhecimento acumulado por essas empresas (o centro nervoso). A parte produtiva high tech/serviços fica nos países ricos. Por que as bases produtivas em outros países? Por conta dos custos de transporte para alcançar mais mercados ou de mão de obra super barata para construir bases de exportação. A parte “nobre” da rede produtiva e de inovação fica sempre no país mãe, em geral por questões meramente econômicas mesmo. Uma base instalada de multinacionais num país emergente leva ao desenvolvimento econômico (a riqueza de uma nação). Tá aí o Brasil, América Latina, Africa e Ásia pobre para mostrar isso! O grosso do capital humano mundial está acumulado nos países ricos. Serviços e produtos high tech são concebidos e produzidos nessas bases. TECLA SAP: as multinacionais não produzem o “filet mignon” em países mais pobres! Onde se aglomeram os melhores cérebros de uma empresa? O core tecnológico sempre fica no país mãe!"
Parte das pessoas que migra para as cidades não consegue empregos na manufatura e vai para o setor de serviços não sofisticados, atuando no varejo, como garçons ou atendentes, etc. Mas se o processo de desenvolvimento avança, novos empregos são criados em indústrias de média e alta tecnologia (finanças, advocacia, marketing, TI, design, entre outros). O crescimento das vagas nesses setores puxa para cima também os salários de outras áreas.
Alguns países, porém, não conseguem chegar a esse estágio e ficam presos no meio do caminho. Os economistas chamam esse fenômeno de armadilha da renda média, situação em que o país desenvolve apenas indústrias de mineração, de baixa intensidade tecnológica e serviços de baixa sofisticação. É o caso do Brasil. Até mesmo países que são potências agrícolas empregam não mais do que 5% de sua força de trabalho nessa atividade, como a Espanha, a França e os Estados Unidos. Os grandes contingentes de empregados na agricultura mundo afora estão em países ainda relativamente pobres nas culturas de subsistência, como Indonésia, Índia, China e Brasil. As chamadas “potências agrícolas” empregam seus trabalhadores nos serviços sofisticados, na indústria e na agroindústria.
Como bem lembra Adam Smith, a causa da riqueza das nações é a divisão do trabalho que depende do tamanho do mercado abastecido por tal nação. A causa da divisão do trabalho é o processo fabril de produção, o famoso exemplo da fábrica de alfinetes. A causa do enriquecimento é o processo de industrialização, chamado em economia de produtividade.
Para tornar essa discussão de Smith mais atual poderíamos dizer que a industrialização causa um aumento de complexidade produtiva de uma economia e uma sofisticação do setor de serviços (serviços originalmente ligados à indústria que, depois, podem ficar autônomos). Países que enriquecem conseguem avançar na produção dos chamados bens e serviços intangíveis: indústrias de alto complexidade tecnológica e serviços empresariais.

Essas características do setor industrial de alta produtividade, economia de escala e inovação não são encontradas na agricultura. As sementes modificadas vêm de processos genéticos fabris. As máquinas e drones agrícolas são produtos de ponta da indústria. Os fertilizantes e defensivos dependem de uma indústria química hiper avançada. O que há de mais moderno no agro não é agro. Por isso, países ricos e com agro potente são também grandes produtores de agroindústria, como EUA, Canadá, Holanda e França, por exemplo.
O Brasil deveria buscar um modelo semelhante ao desses países. Usar suas vantagens agro para catapultar sua agroindústria. Tentar avançar nessas frentes não desmerece nossos avanços no setor do agro, fruto de anos de pesquisas e investimentos, especialmente do setor público por meio da Embrapa.
Mas a agroindústria hoje no Brasil é muito dependente de multinacionais. Todos os insumos de alta tecnologia usados no agro são importados ou produzidos por uma multinacional. Precisamos de empresas brasileiras neste setor para gerar bons empregos aqui e não em suas matrizes, especialmente na área de pesquisa e desenvolvimento de produtos. Temos de conseguir gerar nossa própria tecnologia. Mas a competição com as multinacionais é muito violenta e sem apoio do governo com fortes subsídios à inovação, financiamento e compras públicas não chegaremos longe na sofisticação produtiva que abastece o agronegócio. Esse é o nosso desafio.
“Um país rico é aquele que domina alguns nichos de indústrias altamente sofisticadas e serviços também altamente sofisticados que caminham de mãos dadas com as com as indústrias high tech”
"Na armadilha de renda média um país atinge o ponto de Lewis e esgota seu estoque ocioso de mão de obra antes de atingir um estágio de sofisticação produtiva minimamente decente. Vale dizer, ocupa seus trabalhadores em atividades de baixa produtividade (especialmente serviços não sofisticados) graças à baixa complexidade de seu sistema produtivo (digamos um ECI entre 0 e 0,5). No caso brasileiro nos especializamos em construir lojas, shoppings e prédios comerciais e residências. Agora que a bolha imobiliária e do varejo passou estão os prédios e shoppings vazios e a mão de obra ficará desempregada". 
 "Todos os paises hoje ricos passaram por fases bem definidas de crescimento econômico. Num primeiro momento, as economias pobres empregam a maioria de seus trabalhadores na agricultura e no setor de mineração. O progresso se dá num segundo estágio pela industrialização, quando trabalhadores são transferidos dos setores agrícolas de subsistência para manufaturas com produtividade mais elevada.
Gráfico: Paulo Gala
"O problema não esta na produção de commodities per se, a questão chave é se o país é capaz de caminhar downstream ou upstream na cadeia das commodities para aprender a fazer produtos mais sofisticados. O desenvolvimento econômico e nível de renda per capita dependem fortemente das capacidades produtivas locais e da habilidade de produzir bens complexos. Ficar só em commodities não da. Países que tiveram sucesso nessa tarefa: EUA, Noruega, Finlândia, Malásia, Tailândia e Canada".


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