AS DISFUNÇÕES DO CAPITALISMO - V
3.1 A POLÍTICA MONETÁRIA
À política monetária caberia realizar, por meio da administração da taxa de juros básica da economia, o alinhamento dos preços relativos dos ativos passíveis de investimento. Para Keynes (1964), todos os ativos possuem intrinsecamente uma taxa de juros (de retorno). Pela comparação entre as remunerações factíveis de escolha, os agentes podem destinar seus recursos – caso lhes seja mais vantajoso em termos de liquidez, custo de carregamento e quase-renda – a ativos não suscetíveis de reprodução fabril. Isso ocorrerá, principalmente, quando os investimentos produtivos realizados no passado tornaram-se estoques involuntários e expectativas frustradas. A taxa de juros básica da Autoridade Monetária (AM) deveria ser de pleno conhecimento por parte dos agentes econômicos e estar em um patamar considerado pelos referidos agentes como normal, dentro de suas convenções, pois como aponta Carvalho (1999, p. 275, grifo nosso): “as pessoas formam uma expectativa da taxa de juros normal e esperam que as taxas atuais gravitem ao seu redor”. Todavia, como existe um desconhecimento acerca do futuro, a taxa de juros é sempre alvo de tentativas de antecipação por parte dos agentes econômicos, que a ela se atentam para não incorrerem em elevados custos de oportunidade de investimento. Em seu Treatise on Money (CWJMK, V, 1971) Keynes, seguindo a tradição de Wicksell, segundo a qual há uma taxa de juros natural e uma taxa de juros de empréstimos (mercado), também define a existência de duas taxas de juros, a natural e a de mercado. A primeira é a taxa de juros que mantém a igualdade entre poupança e investimento e se aproxima da taxa de juros normal, esperada pelos agentes econômicos. A segunda é formada pelas taxas dos empréstimos de curto prazo, bank rate, e de longo prazo, bond rate. Além disso, Keynes pressupõe ainda duas esferas de circulação econômica, a industrial e a financeira. Na primeira esfera de circulação, transacionam-se ativos de capital, enquanto que na segunda esfera de circulação ativos monetários e financeiros são transacionados. Assim, quando a taxa de juros de mercado for superior à taxa de juros natural, será mais vantajoso ao investidor migrar da circulação industrial para a financeira, provocando um aumento da poupança em relação ao investimento 15.
15 Cabe salientar que as alterações da taxa de juros de mercado podem depender apenas das expectativas dos agentes no mercado, os quais Keynes estilizou como bulls e bears. Bulls e Bears, a rigor, são os agentes que operam no mercado financeiro, especulando entre as bank rate e bond rate. Assim, a especulação altera a taxa de juros de mercado, influenciando as alocações de moeda entre poupança e investimento.
Nessa situação, a ação do Banco Central propícia à circulação industrial, ou seja, ao investimento produtivo, deve ser a busca pela coincidência entre as taxas natural e de mercado. Portanto, a taxa de juros da AM torna-se uma premissa, um conhecimento direto, em que os empresários a tomam como referência para decidir em que investir. Dessa maneira, a qualquer desconfiança de oscilação na taxa de juros em torno daquilo que se considera normal, haverá modificações na destinação dos gastos dos investidores (empresários). Carvalho (1994) chama a atenção para uma ilustração válida para a representação de como a política monetária atua na determinação da composição de portfólio de ativos dos agentes. Segundo o autor:
É neste sentido que se constrói a pirâmide invertida que caracteriza a visão keynesiana da relação entre a moeda e os demais ativos financeiros [...] No vértice está a moeda legal, e sobre esse vértice se apóiam os outros ativos, em camadas sucessivas, definidas cada uma pelos arranjos institucionais que estabelecem as regras de conversibilidade entre os grupos [...] e pela relação entre as taxas de retorno obtidas em cada coleção de ativos. (Carvalho, 1994, p. 43-44)
É justamente por esta relação estabelecida entre os diversos ativos e a própria moeda que se concede à política monetária, por meio da gestão da taxa de juros, alguma capacidade de gerenciar a demanda efetiva e influenciar variáveis reais da economia. Contudo, em momentos de desconfiança generalizada, a política monetária pode pouco contribuir, haja vista a ilustração representada pela conhecida armadilha da liquidez 16. Por conta disso, Keynes, apesar de conceder significativa importância à condução da política monetária, argumenta que:
Não é muito correto que eu confira importância primaz à taxa de juros. Confiro importância primaz à escala de investimento e me interesso na taxa de juros como um dos elementos para se alcançar isto. Mas, devo considerar a intervenção estatal como encorajadora de investimento um fator mais importante. (CWJMK, XXVII, 1980, p. 350.)
Pode-se acrescentar, ainda, a seguinte passagem da GT:
Encontrando-se o Estado em situação de exercer influência sobre a eficiência marginal dos bens de capital a longo prazo e com base nos interesses gerais da comunidade, espero vê-lo assumir a responsabilidade cada vez maior na organização direta dos investimentos. (Keynes, 1964, p. 164, grifo nosso.)
Autores: Fernando Ferrari Filho & Fábio Terra.
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