AS DISFUNÇÕES DO CAPITALISMO NA VISÃO DE KEYNES - I I
2. A visão de mundo em Keynes
2.1. A unidade orgânica
As percepções de Keynes acerca da conduta racional do homem apropriaram-se da noção de unidade orgânica do filósofo George Moore (contemporâneo de Keynes em Cambridge), conforme se observa no artigo My Early Beliefs, de 1938 (Collected Wrtitings of John Maynard Keynes, X, 1972b) 2 , que expõe o pensamento de Keynes
1 - ("caracterizadas pela insuficiência de demanda efetiva") Conforme o Princípio da Demanda Efetiva (PDE), os níveis de renda e emprego aumentam se, e somente se, a renda esperada pelo emprego adicional for maior que a renda necessária. Em outras palavras, a demanda efetiva representa o valor do produto que as empresas acreditam que produzirá lucro máximo face suas expectativas sobre a posição da demanda agregada (Para maiores detalhes, ver: Keynes, 1964, Capítulo 3). 2 De agora em diante, as referências oriundas dos volumes do The Collected Writings of John Maynard Keynes serão sinalizadas pelo acrônimo CWJMK seguido do volume e do ano. As demais referências de Keynes serão denotadas apenas pelo ano da edição da obra.
quando de sua chegada em Cambridge, no início dos anos 19003 . A unidade orgânica é caracterizada pelo fato de o indivíduo não formar suas convenções e valores apenas baseado em sua razão, mas relacionando-a tanto com as partes quanto com o todo ao qual ele está inserido. A consciência do indivíduo, dessa forma, construirá “valores dependentes, de acordo com o princípio da unidade orgânica, do estado das coisas como um todo, que não podem ser utilmente analisadas em âmbito [somente] das partes” (CWJMK, X, 1972b, p. 436). No que interessa à ciência econômica, a unidade orgânica relaciona o homem com a sociedade. Nesse sentido, para Keynes a principal relação orgânica é a travada entre uma categoria específica de agente, qual seja, o empresário (ou investidor) e a sociedade na qual ele atuará em busca da ampliação de sua riqueza monetária 4 . Na medida em que é essa categoria específica de homem, o empresário, a que detém a capacidade de empregar recursos monetários em bens de capital, máquinas, e equipamentos, será ela a responsável pelo emprego dos demais indivíduos, criando assim, renda e, consequentemente, ampliando a riqueza social. Contudo, a unidade orgânica implica que o lucro monetário do empresário dependerá do comportamento dos outros agentes, especificamente, da demanda efetiva social pela sua oferta individual. Em contraste, como alerta Keynes em sua The General Theory of Emplyment, Interest and Money (doravante GT), o sucesso do empresário neoclássico, não suposto como pertencente a um todo em unidade orgânica, não está condicionado à possibilidade de ocorrência de demanda efetiva pela sua oferta. A Lei de Say, rejeitada por Keynes, garante que toda oferta promova sua própria demanda, pois toda decisão individual de produzir é motivada pela utilidade que será alcançada ao se trocar os frutos da produção por algum outro produto pretendido. Assim sendo, consoante com a Lei de Say, o preço de demanda agregada, isto é, o produto efetivamente demandado, equivale exatamente ao preço de oferta esperado pelos empresários, para todo e qualquer nível de emprego (Keynes, 1964). Toda expansão no emprego, com respectiva ampliação da oferta agregada, cria uma elevação em mesma magnitude na demanda agregada. Não há por parte do empresário uma expectativa de demanda, mas uma demanda determinada pela própria oferta. Logo, a insuficiência de demanda efetiva é uma situação
3 Embora sucinto, o artigo My Early Beliefs deu corpo a toda uma literatura especializada nos debates sobre a influência da filosofia em Keynes e sobre o chamado “keynesianismo filosófico”. Para mais, veja: Rotheim (1989-1990), Davis (1989-1990), Bateman e Davis (1991), Skidelsky (1999) e Andrade (2000). 4 Não é por demais salientar que, segundo Keynes “o empresário não está interessado no montante de produto, mas no montante de moeda que lhe será partilhado. Ele expandirá sua produção, pois espera, ao fazê-lo, aumentar seu lucro monetário” (CWJMK, XXIX, 1979, p. 82). Isso define, para Keynes, uma economia empresarial ou monetária da produção.
inexistente, que implica em todo e qualquer desemprego ser de natureza voluntária. Nas palavras de Keynes:
Isto quer dizer, a demanda efetiva, ao invés de ter um único valor de equilíbrio, comporta uma série infinita de valores todos igualmente admissíveis; e que o volume de emprego é indeterminado [...]. Então, a Lei de Say, segundo a qual o preço de demanda agregada da produção em conjunto equivale ao preço da sua oferta agregada para todo volume de produção, e equivale à proposição de que não há obstáculo para o pleno emprego. (Keynes, 1964, p. 26)
Sendo esse o modus operandi das forças de oferta e demanda no arcabouço teórico clássico, que conta ainda com a sinalização de preços no mercado oferecendo toda informação necessária à melhor alocação daquilo que se deve produzir e demandar, não há surpresa na interação entre as partes, e entre a parte e o todo. Há, na verdade, uma perfeita simetria, com ajustes instantâneos entre os desejos de demanda e a oferta de bens e serviços. Além disso, sob tal lógica, a ampliação do nível de emprego e renda da sociedade depende apenas da concorrência entre os empresários que, ao ampliar a demanda por trabalhadores, aumentam os salários reais e fazem com que a desutilidade marginal do trabalho torne-se custosa a ponto de fazer com que o nível de desemprego se reduza constante e voluntariamente. A competição empresarial, assim, levará o emprego a seu nível máximo, em que a oferta torna-se inelástica. Pela validade da Lei de Say, a trajetória até a indisponibilidade de recursos voluntariamente ociosos é sempre estável, isto é, sem que existam pessoas desejosas de trabalho que estejam dele involuntariamente desocupadas. Keynes, ao refutar a Lei de Say 5 , afirma que o pleno emprego apenas ocorrerá quando a totalidade das propensões individuais a consumir, somada à totalidade dos incentivos individuais a investir, se combinarem de uma forma que impeça qualquer discrepância entre o investimento corrente e o preço de oferta da produção deduzido do que a sociedade demandou em consumo. Nesse cenário, Keynes (1964, p. 28) argumenta que, diferentemente do que apregoa a Lei de Say, a demanda efetiva correspondente ao pleno emprego somente acontecerá por “acidente ou desígnio”. Dessa maneira, a realidade social como uma unidade orgânica cria a dificuldade para que as intenções individuais sejam acertadas ao ponto do alcance do pleno emprego. O organicismo social é a concepção de que o resultado social das livres ações
5 A refutação da Lei de Say por Keynes foi de tal ordem que, segundo Kates (1992: 191) “a frase que ficou conhecida como a Lei de Say são as palavras introduzidas por Keynes, quais sejam, a oferta cria sua demanda”. Para uma reinterpretação da validade da referida Lei e, inclusive, para uma reapresentação das críticas de Keynes à Lei de Say – e dos efeitos delas sobre a teoria econômica –, ver Kates (1992).
individuais não é um mero somatório das ações individuais, mas é sempre algo que se atinge além daquilo que é pretendido pelo indivíduo ao agir 6 . Assim:
Um sistema orgânico na teoria econômica de Keynes não é viciar um indivíduo em favor de algum todo independente, mas é o reconhecimento de que a natureza do indivíduo bem como sua percepção de si mesmo são funções de, e mudam com, suas interações com outros indivíduos. (Rotheim, 1989-1990, p. 322)
Na medida em que as ações individuais repercutem de formas inesperadas e não ocorrem as possibilidades coeteris paribus de ação de todos os outros indivíduos, a sociedade orgânica é incapaz de ser apreendida pelos indivíduos. Dessa forma, o processo de conformação do todo, a todo tempo, traduzir-se-á aos indivíduos como algo que lhes implicará em novas percepções sobre o ambiente que lhes circunda. Nesse contexto dinâmico, “[...] ao reajustarem as estratégias de ação, os agentes também alteram o contexto e as condições em que atuam [...] os agentes se adaptam ao mundo – o padrão agregado – por eles cocriado” (Cardoso e Lima, 2008, p. 15). Novamente, em contraposição à teoria neoclássica, se ela postulasse como um dos seus princípios a unidade orgânica, seu indivíduo utilitarista necessitaria ter em sua função-utilidade variáveis explicativas representativas das funções-utilidade de todos outros indivíduos. Somente nessas condições o equilíbrio geral neoclássico seria mantido. Caso contrário:
Pode ocorrer de duas partes [...] não estarem carregando suas intuições para alcançarem precisamente o mesmo objetivo e, por conta do princípio da unidade orgânica, uma bem pequena diferença nos objetivos pode produzir uma grande diferença no resultado. (CWJMK, X, 1972b, p. 437)7
Essa dinâmica de reciprocidade causal entre homem e sociedade, em que os efeitos da ação humana guardam resultados sociais imprevisíveis e em que esses resultados sociais impactam sobre o modo pelo qual o homem – agente social – compreende o mundo, tem como uma de suas mais relevantes consequências a “existência de uma incerteza radical” (Skidelsky, 1999, p. 109). A incerteza está sempre presente em função da incapacidade do homem em apreender o todo no qual ele está inserido. Porém, o homem é criativo, de modo que o
6 É importante esclarecer que “além” significa, conforme utilizado na passagem acima, um resultado diverso – podendo ser quantitativa ou qualitativamente maior ou menor – do que o esperado pelo agente. 7 Não é por menos que, “estávamos [Keynes e seus contemporâneos em Cambridge] entre os primeiros de nossa geração, às vezes sozinhos em nossa geração, a escapar da tradição Benthamita [utilitarista]” (CWJMK, X, 1972b, p. 445).
destino do mundo não se configura como algo a ser desvelado, mas criado por ele. Assim, as decisões de ação dos agentes, a todo instante, construirão trajetórias histórico-institucionais para a sociedade e, não obstante, resultarão em contextos não plenamente cognoscíveis. Nesse particular, não há a possibilidade de se conhecer, no presente, o futuro, pois não há a possibilidade de se definir e calcular tudo aquilo que a criatividade humana e sua interação criativa podem erigir (Skidelsky, 1999). Nas palavras de Carvalho (2003, p. 180), “o caminho é criado pelo caminhante ao caminhar, mas nem todas as trilhas podem ser abertas, ainda que não se saiba com antecedência quais realmente podem ser proficuamente exploradas”. Inobstante a incerteza radical acerca do futuro, não se pode desconsiderar o tempo como um elemento central na visão de mundo de Keynes, como destacam alguns economistas pós-keynesianos8 . Consoante com Carvalho (2003), o tempo deve ser analisado de duas formas: expectacional e histórica. No primeiro, a incerteza é elemento sine qua non, pois é devido à ocorrência dela que se forma uma expectativa, e não uma antecipação certa, do futuro. É por não se saber como se comportará o todo e as partes em uma unidade orgânica que os agentes esperam determinados resultados. Por sua vez, o tempo histórico refere-se à irreversibilidade temporal. As conjunturas sociais e suas percepções por parte dos indivíduos alteram-se de forma crucial na dinâmica da unidade orgânica. Assim, o tempo histórico implica trajetória histórico-institucional futura diversa do contexto presente, porém composta a partir deste. Não obstante, tal trajetória futura é irreversível ao presente do qual emana. Nesse particular, acompanhando Davidson (1991b), ocorrerá, no tempo e no espaço probabilísticos, a não ergodicidade tanto dos dados resultantes das ações humanas quanto dessas próprias ações. A apuração intelectual do conjunto de variáveis que cada indivíduo considera relevante para decidir agir pode ser bastante díspar ao longo do tempo histórico, impossibilitando a construção de uma formulação estatística que traga, no momento de decisão presente, os cálculos corretos das possíveis, em termos probabilísticos, consequências futuras. A ergodicidade, por isso, é uma hipótese não aplicável à ciência econômica, pois um de seus objetos centrais, o homem, não é uma medida invariável como os objetos das ciências naturais, mas uma medida variável. Desta forma:
Eu também gostaria de enfatizar fortemente o ponto de que a economia é uma ciência moral [...]. Eu devo adicionar que ela lida com motivações, expectativas, incertezas psicológicas. Deve-se estar constantemente em guarda contra tratar o material [de estudo da ciência econômica] como constante e homogêneo. É como se pensar que a queda da maçã ao chão dependa dos motivos da maçã: se a ela vale à pena cair no chão, e se o chão deseja que a maçã caia. (CWJMK, XIV, 1973b, p. 300)
8 - "não se pode desconsiderar o tempo como um elemento central na visão de mundo de Keynes na visão de mundo de Keynes, como destacam alguns economistas pós-keynesianos" : Para referências, ver: Robinson (1972), Eichner e Kregel (1975) e Davidson (1978; 1991a), dentre várias outras.
Keynes considera a ciência econômica como uma ciência moral por crer que o homem é o agente social e criativo. Suas motivações, expectativas, o levam a atuar socialmente, ainda que enfrentem “o fato dominante da vida [...] a incerteza fundamental e incontornável que cerca o futuro” (Carvalho, 2003, p. 176). Imerso no sistema capitalista, definido por Keynes como a economia monetária da produção, somente arriscando-se ante o inalcançável futuro poderá ter o homem, agindo enquanto investidor, maior poder de comando sobre a riqueza social.
Autores: Fernando Ferrari Filho & Fábio Terra.
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