AS DISFUNÇÕES DO CAPITALISMO NA VISÃO DE KEYNES - I
As disfunções do capitalismo
na visão de Keynes e suas proposições
reformistas*
Fernando Ferrari Filho** Fábio Terra***
Resumo: O artigo objetiva mostrar como a visão de mundo em Keynes se relaciona com suas proposições de política econômica e justifica sua atenção para a necessidade de uma ação efetiva do Estado para mitigar os problemas econômicos e
sociais inerentes à dinâmica operacional de economias monetárias. Nesse sentido,
após apresentar, à luz da concepção de Keynes, como os agentes econômicos se comportam e tomam decisões em economias monetárias, as atenções se voltam para a
apresentação das políticas keynesianas contracíclicas, fiscal e monetária, fundamentais para assegurar o crescimento econômico em nível de pleno emprego e melhorar
a distribuição da renda e da riqueza.
INTRODUÇÃO
1. Com a recente crise econômica mundial, o debate sobre maior intervenção do Estado
na economia voltou à “ordem do dia” com uma ressonância não observada desde
meados dos anos 1970, quando, em decorrência do processo de estagflação, acadêmicos e policymakers passaram a preconizar o arrefecimento da intervenção estatal. No
ínterim desse debate, a teoria econômica de John Maynard Keynes, declarada morta por Lucas (1980), foi novamente trazida ao centro das discussões por importantes economistas do chamado Novo Consenso Macroeconômico, dentre eles, Mankiw
(2008) e Krugman (2009).
Nesse particular, duas questões surgem: Como Keynes apreendeu a realidade humana e social a ponto de teorizar sobre a importância da intervenção estatal para o
alcance de uma dinâmica estável do sistema capitalista? Como Keynes concebia a
administração da política econômica, isto é – a atuação econômica estatal – para que
o sistema econômico incorresse em uma trajetória estável?
As pistas para a primeira resposta centram-se na própria forma pela qual Keynes
concebeu a ciência econômica, como uma ciência moral. Enquanto tal, ela é uma
ciência que, lida com um elemento independente e determinante, pelo homem, que
é idiossincrático em relação aos objetos das ciências naturais, porquanto agente apto
a alterar seu próprio comportamento ao longo do tempo, influenciando, assim, a sociedade que o circunda e, não obstante, sendo influenciado por esta sociedade. Logo,
a teoria econômica deve-se preocupar em estabelecer sua epistemologia, de forma a
considerar as possibilidades ontológicas do homem, não somente para consigo, mas
para com o todo no qual emergem suas ações.
Para Keynes, o agente econômico é, por natureza, incerto, porém livre para tomar
suas decisões de investimento, sendo essa uma condição indispensável para a ampliação da sua riqueza. É nesse cenário que Keynes aponta que a probabilidade não deve
ser tratada como um cálculo baseado em frequências de eventos passados, mas como
uma relação lógica e racional de se conhecer algo a partir da ausência de fontes de
informação perfeitas. Não obstante, a própria trajetória social é incerta, uma vez que
as consequências das decisões individuais afetam não somente a si, como também os
outros, de tal sorte que sempre há, na repercussão das decisões sobre o todo, alguma
parcela que supera o esperado pelos tomadores de decisão. Somente compartilhando
essa concepção de organicidade entre o ser humano e a sociedade é que se sugere a
possibilidade de responder à segunda questão supracitada, e compreender as proposições de política econômica em Keynes. Nesse sentido, as políticas econômicas keynesianas são fundamentais para mitigar as crises do sistema capitalista, caracterizadas pela insuficiência de demanda efetiva1
.
Tais proposições, por sua vez, são relacionadas com a administração das políticas
monetária e fiscal, notadamente à fiscal, uma vez que impacta diretamente sobre a
demanda efetiva do sistema econômico e, consequentemente, sobre a expectativa do
agente tomador de decisão, qual seja, o empresário. Para Keynes, a política monetária deve viabilizar a precificação dos ativos em prol de inversões produtivas, enquanto
que a política fiscal deve estabelecer um acordo tácito entre Estado e investidores. Em
suma, as políticas econômicas devem servir como mantenedoras e incentivadoras das
expectativas dos empresários, balizando suas esperanças sobre a demanda efetiva por
seu produto e fornecendo-lhes peso aos seus argumentos, a fim de lhes oferecer melhores estados de confiança sobre o tempo futuro no qual suas decisões se efetivam.
Diante do exposto, o objetivo deste artigo é mostrar como a visão de mundo de
Keynes se relaciona com suas proposições de política econômica e justifica sua teorização sobre a atuação econômica estatal. Para tanto, a seção 2 apresenta, inicialmente, a concepção de Keynes sobre a sociedade como unidade orgânica. Em seguida,
são apresentadas a ideia central da teoria da probabilidade de Keynes e a sua filosofia
da prática. Na seção 3 apresentam-se as proposições keynesianas de política econômica, especificamente as políticas monetária e fiscal. Por fim, a seção 4 apresenta as
considerações finais do artigo.

