AS DISFUNÇÕES DO CAPITALISMO - IV

 


 3. As políticas monetária e fiscal em Keynes

Ao produzir ciência econômica, uma das preocupações fundamentais de Keynes foi compreender e propor medidas para mitigar crises de insuficiência de demanda efetiva e suas repercussões em termos de instabilidade cíclica nos níveis de produto e emprego (Ferrari Filho, 2006). Como proposição sumária, Keynes afirmava que as flutuações no sistema capitalista decorrem do fato de que “[...] uma economia monetária [...] é essencialmente uma economia em que mudanças de pontos de vista sobre o futuro são capazes de influenciar o volume de emprego” (Keynes, 1964, p. 4, grifo nosso). A característica essencial de uma economia monetária é que a moeda não é apenas um meio de troca, mas é um ativo capaz de resguardar as alterações nas mudanças de pontos de vista sobre o futuro, pois reserva poder de comando sobre a riqueza social ao longo do tempo, possuindo liquidez máxima para saldar tanto transações à vista quanto contratos diferidos no tempo. Nesse sentido, a depender da forma pela qual a preferência pela liquidez dos empresários for condicionada pelas proposições esperadas deles sobre o futuro, induzir-se-ão “movimentos de substituição das formas de riqueza, aumentando ou diminuindo a demanda por ativos reprodutíveis e, assim, aumentando ou diminuindo a renda gerada na produção de novos itens” (Carvalho, 1994, p. 47). Para suavizar o ritmo das mudanças de pontos de vista por parte dos empresários, e em consonância com a filosofia da prática de que partilhava, Keynes propôs, em sua GT, uma nova filosofia social para resolver “os principais problemas da sociedade econômica em que nós vivemos [que] são o desemprego e a arbitrária e desigual distribuição da renda e da riqueza” (Keynes, 1964, p. 372). Nesse sentido Keynes pretendeu que: 

O Estado deverá exercer uma influência orientadora sobre a propensão a consumir, seja através de seu sistema de tributação, seja, em parte, por meio da fixação da taxa de juros e, em parte, talvez, recorrendo a outras medidas [...] Eu entendo, portanto, que uma socialização algo ampla dos investimentos será o único meio de assegurar uma situação aproximada de pleno emprego. (Keynes, 1964, p. 378, grifo nosso)

 A partir das proposições da filosofia social a que poderia levar a GT, a requerida orientação estatal propugnada por Keynes expressava-se por meio daquilo que define, em última instância, o norte econômico de qualquer sistema social: a política. Assim, Keynes define o problema político, notadamente o econômico, como carecendo da combinação de: 

Três elementos: eficiência econômica, justiça social e liberdade individual. O primeiro precisa de crítica, precaução e conhecimento técnico; o segundo, um espírito não egoísta e entusiasta que ame o homem médio; o terceiro, tolerância, amplitude, apreciação da variedade e da independência, que prefere, sobretudo, oferecer oportunidade progressista ao excepcional e ao aspirante. (Keynes apud Minsky, 1986, p. 8) 

Nesse sentido, quais políticas econômicas devem ser instituídas para se mobilizarem os recursos desviados da produção? Para Keynes, nada mais do que as políticas macroeconômicas convencionais – monetária e fiscal 14 –, uma vez que políticas em nível microeconômico poderiam gerar distorções, privilégios e ineficiências. Atuando-se em âmbito mais generalizado, como o macroeconômico, poderia permitir-se a atuação mais abrangente possível da iniciativa privada, evitando-se concentrações de oportunidade e de renda. Quais seriam os papéis das referidas políticas?

14 É importante ressaltar que no Capítulo 24 da GT, Keynes ressalta, além das políticas tradicionais, a política de renda. Para maiores informações sobre políticas macroeconômicas, não necessariamente monetária e fiscal, em uma perspectiva keynesiana, ver: Carvalho (1999) e King (2003)

Autores: Fernando Ferrari Filho & Fábio Terra. 

clique em: AS POLÍTICAS MONETÁRIA
E FISCAL EM KEYNES


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