AS TRÊS ECONOMIAS POLÍTICAS DO WALFARE STATE - XI
AS CAUSAS DOS REGIMES DE WELFARE STATE
Se os welfare
states se agrupam em três
tipos distintos de regime, estamos frente à tarefa muito mais complexa de
identificar as causas das diferenças entre eles. Que poder atribuir à
industrialização, ao crescimento econômico, ao capitalismo ou ao poder político
dos trabalhadores ao considerar os tipos de regime? Uma primeira resposta
superficial seria: muito pouco. As nações que estudamos são todas mais ou menos
parecidas com relação a quase todas as variáveis, exceto a da mobilização da
classe trabalhadora. E encontramos partidos e movimentos de trabalhadores muito
poderosos em cada um dos três agrupamentos.
Uma teoria do desenvolvimento do welfare
state deve obviamente
reconsiderar suas hipóteses causais se quiser explicar os agrupamentos. A
esperança de encontrar uma única e poderosa força causal deve ser abandonada: a
tarefa é identificar efeitos de interação notáveis. Com base nos argumentos
precedentes, três fatores em particular seriam importantes: a natureza da
mobilização de classe (principalmente da classe trabalhadora); as estruturas de
coalização política de classe; e o legado histórico da institucionalização do
regime.
Como já notamos, não há absolutamente nenhuma razão que nos leve a
acreditar que os trabalhadores venham a forjar automática e naturalmente uma identidade
de classe socialista; e também não é plausível esperar que sua mobilização se
pareça particularmente com a sueca. A verdadeira formação histórica das
coletividades da classe trabalhadora varia, assim como seus objetivos,
ideologia e capacidades políticas. Existem diferenças fundamentais tanto no
desenvolvimento do sindicalismo quanto dos partidos políticos. Os sindicatos
podem organizar-se por categorias ou em função de objetivos mais universais,
podem ser religiosos ou leigos; e podem ser ideológicos ou dedicados ao
sindicalismo integrado ao sistema. Quaisquer que sejam, afetam decisivamente a
articulação das demandas políticas, da coesão de classe e do alcance da ação
dos partidos dos trabalhadores. É claro que uma tese de mobilização da classe trabalhadora
tem de prestar atenção à estrutura sindical.
A estrutura do sindicalismo pode ou não se refletir na formação de
um partido dos trabalhadores. Mas em que condições poderíamos esperar certos
resultados em termos de bem-estar social provenientes de configurações
partidárias específicas? Muitos fatores conspiram para tornar praticamente
impossível supor que qualquer partido trabalhista ou de esquerda chegue algum
dia, sozinho, a estruturar um welfare
state.
Deixando de lado as divisões religiosas e outras, somente em
circunstâncias históricas extraordinárias é que um partido trabalhista sozinho
disporia de uma maioria parlamentar por tempo suficiente para impor sua
vontade. Já notamos que a classe trabalhadora tradicional quase nunca
constituiu uma maioria eleitoral. Conclui-se daí que uma teoria da mobilização
de classe deve ir além dos grandes partidos de esquerda.
É um fato histórico que a construção do welfare state dependeu da edificação de
coalizões políticas. A estrutura das coalizões de classe é muito mais decisiva
que as fontes de poder de qualquer classe tomada isoladamente.
O surgimento de coalizões alternativas de classe é, em parte,
determinado pela formação da classe. Nas primeiras fases da industrialização,
as classes rurais em geral constituíam isoladamente o maior grupo do
eleitorado. Se os social-democratas queriam maiorias políticas, era aí que
tinham de buscar aliados. Um dos muitos paradoxos da histórias é que as classes
rurais foram decisivas para o futuro do socialismo. Onde a economia era
dominada por famílias de pequenos proprietários com elevado coeficiente de
capital, o potencial para se fazer uma aliança era maior do que nas economias
dependentes de grandes aglomerados de trabalho barato. E onde os proprietários
de terra eram politicamente articulados e bem organizados (como na
Escandinávia), a capacidade de negociar acordos políticos era muitíssimo
superior.
O papel dos proprietários de terra na formação das coalizões e,
por conseguinte, no desenvolvimento de umwelfare state, é claro. Nos países nórdicos,
verificaram-se as condições necessárias para uma ampla aliança verde-vermelho
em prol de um welfare state com pleno emprego em troca de
subsídios aos preços agrícolas. Isto vale para a Noruega e a Suécia em particular,
onde a agricultura era extremamente precária e dependente do auxílio estatal.
Nos Estados Unidos, o New Deal baseou-se numa coalizão semelhante
(forjada pelo Partido Democrata), mas com a importante diferença de que o Sul,
com uso intensivo de mão-de-obra, bloqueou um sistema de previdência social
realmente universalista e se opôs a outros projetos de bem-estar social. A
economia rural da Europa continental era, ao contrário, muito hostil a
coalizões verde-vermelho. Muitas vezes, como na Alemanha e na Itália, grande
parte da agricultura era intensiva em mão-de-obra e, por isso os sindicatos e
partidos de esquerda era vistos como ameaça. Além do mais, as forças
conservadoras do continente conseguiram incorporar os proprietários de terra em
alianças "reacionárias", ajudando a consolidar o isolamento político
dos trabalhadores.
A dominação política foi - até depois da Segunda Guerra Mundial -
em grande parte uma questão de política das classes rurais. A edificação de welfare states neste período foi, portanto,
ditada pelo tipo de força que conseguir atrair os proprietários de terra. A
inexistência de uma aliança verde-vermelho não significa necessariamente a
impossibilidade de reformas no âmbito do bem-estar social. Teve implicações, em
vez disso, para determinar a força política que pôde dominar essas reformas. A
Grã-Bretanha é uma exceção a essa regra geral, porque a importância política
das classes rurais decaiu antes da virada do século. Dessa forma, a lógica da
coalizão britânica deparou-se cedo com o dilema enfrentando mais tarde pela
maioria das nações, qual seja, o fato de a camada ascendente dos white-collar constituir o ponto vital das
maiorias políticas. A consolidação dos welfare
states depois da Segunda
Guerra Mundial passou a depender fundamentalmente de alianças políticas com as
novas classes médias. Quanto à social-democracia, o desafio era sintetizar as
demandas da classe trabalhadora e dos white-collar sem sacrificar o compromisso de
solidariedade.
Como as novas classes médias desfrutaram - em termos históricos —
de uma posição relativamente privilegiada no mercado, também tiveram bastante
sucesso no sentido de satisfazer suas demandas previdenciárias fora do Estado
e, quando funcionários públicos, de conseguir uma previdência social privilegiada.
A segurança no emprego é tradicionalmente de tal ordem que o pleno emprego tem
sido uma preocupação secundária. Por fim, qualquer programa de equiparação
drástica de renda provavelmente vai enfrentar grande hostilidade da clientela
de classe média. Tendo em mente estes elementos, poderíamos concluir que o
surgimento das novas classes médias abortaria o projeto social-democrata e
fortaleceria a fórmula liberal do welfare
state.
As tendências políticas das novas classes médias têm realmente
sido decisivas para a consolidação do welfare
state. O papel desse grupo na
modelagem dos três regimes de welfare
state que descrevemos acima é
claro. O modelo escandinavo baseou-se quase inteiramente na capacidade da
social-democracia de incorporá-las num novo tipo de welfare state; o que proporciona benefícios
correspondentes aos gostos e expectativas das classes médias, mas ainda assim
preserva o universalismo de direitos. Na verdade, ao expandir os serviços
sociais e o emprego público, o welfare
state participou de forma
direta na constituição de urna classe média instrumentalmente dedicada à
social-democracia.
As nações anglo-saxônicas, ao contrário, preservaram o modelo
residual de welfare state exatamente porque as novas classes
médias não trocaram o mercado pelo Estado. Em termos de classe, a conseqüência
é o dualismo. Owelfare state atende
essencialmente a classe trabalhadora e os pobres. A previdência privada e os
benefícios ocupacionais adicionais atendem as classes médias. Dada a
importância eleitoral destas últimas, é lógico que houve resistência a maiores
extensões das atividades do welfare
state.
O terceiro regime, o da Europa Continental, também foi marcado
pelas novas classes médias, mas de forma diferente. A causa é histórica.
Desenvolvidos por forças políticas conservadoras, esses regimes
institucionalizaram a lealdade da classe média à preservação tanto de programas
de previdência social segregados ocupacionalmente quanto, em última instância,
das forças políticas que os geraram. A grande reforma das aposentadorias de
Adenauer em 1957 foi confessamente planejada para ressuscitar as lealdades da
classe média.
Autor: Gosta Esping-Andersen
Professor do Departamento de Ciências Políticas e Sociais do Instituto Universitário Europeu de Florença
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