TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL
Transparência recebeu US$ 3 milhões da Siemens após corrupção
Envolvida em casos de suborno em diversos
países, empresa alemã financiou ONG, hoje na mira de ministro do STF
A Transparência Internacional (TI), hoje sob investigação autorizada pelo ministro do
Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli,
recebeu US$ 3 milhões da Siemens desde 2015, apesar de sua política vetar
doações de empresas envolvidas em corrupção.
A multinacional alemã esteve no epicentro de um dos mais
escandalosos casos do gênero, envolvendo pagamento de propina a servidores públicos na Itália, Israel, Rússia, China, Noruega e Grécia por
contratos. Acertou compensações que totalizaram US$ 1,6 bilhão nos EUA e
Alemanha.
Além do patrocínio à ONG, a Siemens contratou uma
ex-funcionária da Transparência para montar o seu sistema de integridade.
Na segunda-feira 5 de fevereiro de 2024, a Transparência se tornou alvo de uma investigação autorizada pelo ministro do STF Dias Toffoli.
Em sua decisão, ele considera haver indícios de apropriação
indevida de recursos do acordo de leniência firmado em junho de 2017 entre
a J&F, holding dos irmãos
Batista, e o Ministério Público Federal. No entanto, não há comprovação de pagamentos.
As medidas tomadas por Toffoli geraram polêmica, entre outros
motivos, porque a mulher do ministro, Roberta Rangel, é advogada da J&F em
um caso de litígio empresarial.
A principal fonte de suspeita sobre a Transparência é que,
seis meses antes da assinatura do acordo de leniência, a entidade enviou uma
carta ao MPF propondo uma colaboração para orientar a destinação dos recursos a
serem pagos pela J&F.
No documento, a Transparência não solicita dinheiro
diretamente, mas, supostamente, sinaliza para essa possibilidade ao mencionar
que parte dos recursos deveria financiar "ações que tenham grande impacto
na proteção, capacitação e provisão de recursos financeiros às organizações e
redes de organizações que realizam o controle social da corrupção no
país".
Os valores reservados a compensações somavam R$ 2,3 bilhões à
época. A Transparência sustenta que nunca recebeu nenhum tostão do acordo.
"NÃO ACEITARÍAMOS DINHEIRO DA J&F", DIZ ONG
Consultada, a Transparência disse que opera sob rígidas
diretrizes éticas e que sua política de financiamento segue práticas
transparentes e responsáveis.
"Por política, nenhum órgão da TI deve aceitar doação de
uma empresa envolvida em corrupção, a menos que ela possa demonstrar que isso
foi uma violação das políticas da empresa, que a violação dessas políticas está
sendo tratada de maneira apropriada para proibir uma violação semelhante no
futuro", disse a TI em nota.
A ONG esclarece que as doações da Siemens foram feitas pela
Siemens Integrity Initiative, divisão estabelecida como parte do compromisso
global da empresa em abordar questões de corrupção e promover práticas
comerciais éticas.
"Esta iniciativa lançou um convite aberto e competitivo
para propostas de subvenções de organizações da sociedade civil e a
Transparency International foi selecionada com base no mérito da nossa proposta
de projeto global."
No Brasil, a Transparência informa ter recusado
"inúmeras ofertas de financiamento de empresas que firmaram acordos de
leniência", incluindo a J&F.
Em vez disso, a TI assinou, em dezembro de 2017, Memorando de
Entendimento (MoU) com o Ministério Público Federal (MPF) e a J&F.
"Esse memorando foi tornado público na mesma data da sua
assinatura e proibia explicitamente qualquer transferência de fundos para a
TI."
A ONG afirma ainda que não aceitou, nem aceitaria recursos da
J&F.
"Agora que o MoU não é mais válido, nem a J&F, nem
a JBS, companhia sob seu
controle, passariam nos requisitos de diligência da TI e, por consequência, não
aceitaríamos nenhum dinheiro vindo deles."
Autor:
Julio Wiziack é editor do Painel S.A. e está na Folha desde 2007, cobrindo
bastidores de economia e negócios. Foi repórter especial e venceu os prêmios
Esso e Embratel, em 2012
Com Diego Felix
