HISTÓRIA DO BRASIL - ANO MMXXIV DO QUADRIÊNIO DA ESPERANÇA: COBERTURA VACINAL
Os
anos críticos da pandemia de covid-19 deixaram no Brasil a triste marca dos 700
mil mortos pela doença e a trágica cultura do negacionismo – aquela
impulsionada por uma legião que não só se recusava a seguir as recomendações da
ciência, como difundia desinformação e inverdades sobre supostos riscos e
inutilidade das vacinas. Pelos números revelados recentemente pelo Ministério
da Saúde, o País pode estar, enfim, revertendo a tendência negacionista que se
proliferou nos últimos anos e abalou os indicadores de vacinação.
Ainda
que os dados sejam preliminares, trata-se de uma notícia auspiciosa. Ao
apresentá-los, a ministra Nísia Trindade evidentemente comemorou os resultados.
Convém reconhecer-lhe os méritos, tanto dela quanto do presidente Lula da
Silva: depois de anos de quedas sucessivas na cobertura vacinal, o Ministério
da Saúde lançou o Movimento Nacional pela Vacinação, no qual se incluiu a
adoção do microplanejamento, o repasse de recursos para ações regionais nos
Estados e municípios, e o programa Saúde com Ciência, iniciativa
interministerial voltada para a promoção e valorização da ciência nas políticas
públicas de saúde. O governo buscou ainda revigorar neste primeiro ano o
Programa Nacional de Imunizações, abalado pela gestão anterior.
Nada
mal quando boa parte do País ainda se recorda do rosário de queixas, ironias e
negações do então presidente Jair Bolsonaro diante das vacinas. Ao longo de
quase dois anos de pandemia, Bolsonaro se posicionou diversas vezes sobre o
tema e se mostrou claramente contrário à imunização. Numa delas, em janeiro de
2022, chegou a dizer que as mortes de crianças pela covid-19 no Brasil não
justificavam a vacinação, por causa de seus “efeitos colaterais adversos”. Em
outra, afirmou que o efeito da vacina no público infantil seria uma
“incógnita”. Não raro optou pelo deboche diante do medo, das incertezas e até
mesmo da busca acelerada pela vacina. “Se você virar um jacaré, problema de
você. Se você virar super-homem, se nascer barba em alguma mulher ou algum
homem começar a falar fino, eles (os fabricantes de vacinas) não vão ter
nada a ver com isso”, disse ele, em dezembro de 2020, num dos momentos
críticos.
O
avanço é notável, mas a própria ministra da Saúde reconheceu que ainda há um
longo caminho a percorrer. Mesmo com o aumento, as coberturas vacinais não
alcançam, em nível nacional, a meta preconizada pelo governo, de 95%. Alguns
imunizantes chegam próximo a 80%; outros ainda se aproximam da casa dos 70%.
Mas sair da espiral descendente já é motivo para alívio, sobretudo para um país
que, até Bolsonaro, foi referência internacional no controle de doenças
imunopreveníveis. Afinal, é do Brasil um dos maiores programas de vacinação do
mundo, instituído na década de 1970, reconhecido pela Organização Mundial da
Saúde e razão da vitória contra algumas doenças, incluindo a poliomielite.
Os
novos dados são igualmente importantes porque 2023 mostrou que, embora tenha
mudado de patamar, a covid-19 veio para ficar. Já não se trata de uma
emergência de saúde pública, mas o vírus continua circulando, causando mortes,
alterando a circulação de outros vírus respiratórios e provocando surtos fora
de época. Uma suposta normalidade na convivência com a doença e o espírito
negacionista ainda deixam sequelas: em junho do ano passado, somente 13% dos
adultos haviam recebido o reforço com a vacina bivalente; em dezembro, somente
17%, índice que é ainda mais baixo entre crianças de até cinco anos de idade.
Um tema, portanto, que ainda desafia governos e famílias.