O CAPITALISMO BRASILEIRO É UM AMOR, É OU NÃO É? - CAPÍTULO - LI
Não há futuro para o Brasil enquanto existir insensibilidade à desigualdade de renda. Debate sobre a distribuição de renda precisa ser aprofundado no País
A Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) traz um “raio-X” completo do panorama social do País, essencial para o traçado de políticas públicas. Cite-se um caso: a distribuição de renda. Pela última informação disponível, referente a 2022, na tabela do rendimento domiciliar per capita segundo as classes de porcentual de rendimento domiciliar per capita, a renda média foi de R$ 1.586, com a renda média do décimo superior da distribuição de renda sendo de R$ 6.448. O IBGE divulga também a renda média do grupo dos percentis de 95% a 100% (R$ 8.995), bem como a renda média do grupo dos percentis de 90% a 95%, que era de R$ 3.900.
Mais ainda, o IBGE informa que a pessoa que se situava exatamente
no percentil 90% tinha uma renda de R$ 3.207, de modo que quem recebeu R$ 3.208
se localizava no décimo superior da distribuição. É difícil convencer uma
pessoa de 28 anos que more sozinha, pague aluguel e dê duro todo dia para poder
poupar e juntar dinheiro para se casar, com uma renda mensal de R$ 3.300, que
numa escala de 1 a 20, onde o grupo 20 é o dos 5% mais ricos, ela esteja no
grupo 19. E, entretanto, essa pessoa, que provavelmente deve se considerar
pobre ou, no máximo, “classe média baixa”, pertence, por definição, ao grupo
dos 10% mais “ricos”.
A fotografia que resulta dessa análise é extremamente interessante para o enriquecimento do debate sobre a distribuição de renda no Brasil. Os seus dados indicam que os 10% mais ricos tinham 51% da renda do País, dentre eles o 1% mais rico, o 0,1% mais rico e o 0,01% mais rico tinham 23%, 10% e 5%, respectivamente, da renda. Não haverá futuro decente para o Brasil enquanto quem carrega politicamente a bandeira do combate à desigualdade continuar com um viés anticapitalista e quem defende a bandeira do capitalismo continuar insensível diante de um dos quadros distributivos mais iníquos do mundo.
Estadão
