HISTÓRIA ECONÔMICA DO SÉCULO XXI: CAPÍTULO - Ill
A Questão Da Habitação E Da Alimentação No Ciclo Econômico
por José Martins, da redação
Crédito: Crítica da Economia
Alarme vermelho no centro do sistema
capitalista. Escassez catastrófica de imóveis para alugar e de alimentos para
comer. O capital mostra à luz da atual crise geral de superprodução o que ainda
conseguia desajeitadamente esconder nas fases de expansão da economia: é
incapaz de ofertar habitação e alimentos básicos necessários à reprodução da
classe trabalhadora produtiva em todo o mundo. Não só na periferia do sistema,
mas também nas principais potências econômicas e militares do planeta.
O que se demonstra é que tanto os gastos com a
moradia quanto os gastos com os alimentos são afetados diretamente pela renda
fundiária em geral, um dos três rendimentos principais do modo de produção
capitalista, junto com os lucros e salários.
É muito importante não se esquecer do grande
protagonismo da propriedade fundiária e das diferentes formas da renda fundiária
na dinâmica da acumulação do capital e do Estado moderno. Marx e Engels diziam
que quem tem a terra tem o Estado. E não estavam se referindo ao Estado
no ancien regime, mas na sua forma plenamente desenvolvida do
moderno Estado capital. Quase dois terços da obra de Marx foi dedicada ao
estudo da agricultura capitalista e da correspondente renda fundiária. Todo seu
sistema teórico sobre a formação dos preços, lucros, superlucros, etc., no
regime capitalista, por exemplo foi desenvolvido de maneira mais aprofundada em
sua teoria da renda fundiária.
Renda fundiária, lucro e salário. Estes três
rendimentos fazem parte do que chamamos de “modelo ternário de Ricardo”. Os
proprietários privados da terra agrícola e dos imóveis urbanos recebem seu
rendimento em forma de renda (rent, em inglês); os capitalistas em forma
de lucro; e os trabalhadores em forma de salário. Sem esta genial formulação de
Ricardo das três classes sociais e os três rendimentos básicos do modo de
produção capitalista, Marx dificilmente teria tido uma base científica séria
para iniciar e desenvolver sua fertilíssima obra econômica.
Do mesmo modo que com a lei do valor-trabalho,
a economia vulgar – tanto a liberal quanto a de Estado – ignora solenemente
essas determinações da propriedade fundiária moderna na dinâmica real da
acumulação capitalista. E nas diferentes fases dos ciclos econômicos
periódicos. Escondem, assim, do mesmo modo que o fazem com valor-trabalho, a
mais odiosa e improdutiva classe social e correspondente forma de propriedade
privada no regime capitalista.
Vamos aos fatos. À medida que a atual crise
econômica geral (catastrófica) se aprofunda, a classe proletária internacional
é celeremente despejada de suas moradias urbanas por fulminante aumento dos
aluguéis. A renda fundiária urbana fere seletivamente a vida dos trabalhadores
assalariados e de suas famílias. As famílias das classes médias assalariadas e
dos capitalistas são poupadas de suas piores consequências. Veja o que noticia
o jornal inglês The Guardian, em matéria publicada nesta terça-feira (28/12/23):
“As rendas fundiárias urbanas médias na
Grã-Bretanha [trata-se de rent, em inglês,
diferente de product, revenue, income, yield, earning, profit e
outras inúmeras formas de rendimentos do regime capitalista] aumentaram
mais de um quarto desde o início da pandemia de Covid e continuarão a aumentar,
de acordo com uma análise. A renda fundiária privada típica terminará este ano
9,5% mais alta do que em dezembro de 2022 e depois aumentará mais 6% em 2024,
antes de atingir um “teto de acessibilidade”, de acordo com o agente
imobiliário e de arrendamento Savills. No geral, os aluguéis aumentaram quase
6% nos primeiros oito meses do ano, concluiu sua pesquisa, elevando o
crescimento total desde março de 2020, quando o primeiro bloqueio da Covid
começou, para 26%.
O aumento dramático ao longo dos últimos três
anos foi atribuído em grande parte à procura de imóveis decentes para
arrendamento por parte dos rentistas, que superou largamente a oferta, e foi
exacerbado pela redução dos juros dos empréstimos.
A grave escassez de propriedades no mercado
levou a uma intensa competição pelo que está disponível, com longas filas de
possíveis inquilinos nas visitas, pagamentos desesperados acima das
probabilidades e alguns proprietários exigindo um ano de aluguel adiantado.
A Savills estimou que o agregado familiar
inquilino médio gasta agora 35,3% do seu salário em renda – acima dos 33% em
2021-22. No entanto, em Londres, o aluguel normalmente absorve uma proporção
muito maior dos salários: 42,5%. A empresa afirmou que as rendas médias na
capital aumentaram 31% nos últimos dois anos e, como resultado, os locatários
em Londres “já esgotaram a sua capacidade de licitar para cima”.
Em outra matéria recente, três meses atrás, o The Guardian informava
também que um terço dos trabalhadores que pagam renda fundiária urbana
[aluguel] na Inglaterra não têm poupanças suficientes para pagar essa renda se
perderem o emprego, colocando-os em risco iminente de serem despejados de suas
casas, de acordo com uma pesquisa realizada pela instituição de caridade
habitacional Shelter. O futuro da habitação da classe proletária depende do
desenrolar do atual período de desvalorização do capital e crise geral.
Os aluguéis recordes e o custo crescente de
outras contas domésticas estão colocando as finanças dos inquilinos sob pressão
e significam que muitos não conseguem mais reservar dinheiro para emergências.
Polly Neate, presidente-executiva da Shelter, declara que “os
trabalhadores locatários de imóveis estão enfrentando uma crise como nunca
antes. A grave escassez de moradias significa que muitos trabalhadores mal
conseguem sobreviver, pois são forçados a competir por aluguéis privados
extremamente caros, porque não há mais nada. Com a alimentação e as contas
domésticas continuando a aumentar, a situação é precária para milhares desses
inquilinos que estão a um contracheque de perder a sua casa e do espectro dos
sem-teto.”
Na Inglaterra a alimentação e outras contas
domésticas crescem junto e com as mesmas elevadas taxas dos aluguéis, observa
corretamente a Sra. Polly Neate. O pior para a população trabalhadora mundial é
que isso não é um problema isolado na Inglaterra. Como uma metástase, a
velocidade do aumento de sem-teto e de filas de famintos procurando alimentos
nos armazéns do governo e outras instituições de caridade assusta os
capitalistas das principais economias do mundo. Os EUA puxando a fila.
A escassez de alimentos básicos e de imóveis
para morar explode na maior potência econômica e militar do planeta à medida
que a crise econômica se aprofunda. É o que relata a Bloomberg, o maior portal
de notícias econômicas e geopolíticas do mundo. Em recente matéria ela informa que “uma parcela cada vez maior de
trabalhadores nos Estados Unidos está com o aluguel atrasado e com
dificuldades para comprar comida, somando-se aos sinais de dificuldades
crescentes na economia”.
Essas “dificuldades crescentes na economia” é a
chave da questão da habitação e da alimentação nos diferentes ciclos e crises
econômicas. Entre as famílias que utilizam os benefícios reforçados da pandemia
do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP), informa a
Bloomberg, 42% pularam refeições em agosto e 55% comeram menos porque não
tinham dinheiro para comprar alimentos, mais que o dobro da parcela do ano
passado, de acordo com um relatório de quarta-feira (30 de agosto) da Propel
Inc., um desenvolvedor de software de benefícios.
O problema dos capitalistas é que as políticas
compensatórias, que crescem exponencialmente em períodos de crise do ciclo
econômico, têm um limite que chega mais cedo do que se espera. O Estado não pode
criar dívidas, moedas e créditos eternamente. Impunimente. Tenta-se então
evitar o descontrole das contas públicas, a crise do crédito público e o
derretimento do dólar, moeda padrão de reserva internacional. Toda a discussão
sobre políticas monetárias e fiscais, taxas de juros, inflação, etc., nos EUA e
alhures, gira em torno deste problema.
É por isso que aquele espectro de contingentes
crescentes de trabalhadores não terem o que comer ou de onde morar aumentou
muito depois que os pagamentos de emergência do SNAP expiraram no
início deste ano e, segundo a Propel, quando as famílias de trabalhadores
receberam outros auxílios mais baixos neste verão, depois que o governo federal
suspendeu a emergência de saúde pública em maio.
Os dados da Propel destacam, finalmente, que as
famílias de trabalhadores desamparadas pelo corte de políticas compensatórias
estavam em pior situação em agosto do que no mês anterior. Desde julho,
uma parcela crescente das famílias proletárias teve aqueles serviços públicos desligados,
não conseguiu pagar a conta dos serviços públicos do mês anterior ou não
conseguiu pagar nem o aluguel. Mais de dois terços dos entrevistados que
recebiam pagamentos aumentados do SNAP disseram ter algum tipo de dívida,
conclui o relatório.
O Estado, instrumento capitalista para gerir
suas contradições e evitar a ingovernabilidade burguesa, se enfraquece
dramaticamente na mesma medida em que o atual período de crise de superprodução
de capital não dá mostras de que esteja se aproximando do fundo do poço. Apesar
das ilusões dos homens de Wall Street que o cenário mais provável é o de um
“pouso suave”, o que os principais indicadores da produção industrial,
produtividade e comércio internacional dos EUA indicam é o de reaparecimento de
incontrolável trajetória depressiva global.
Em resumo, para o capital e seus governos de
Washington, Londres, Berlin, Paris, Moscou, Tóquio e Pequim, dentre outros
menos votados, a única possibilidade de que esse plano inclinado de miseráveis
condições de moradia e alimentação dos proletários de todo o mundo seja
minimamente administrado ou abafado politicamente por mais algum tempo é que
eles consigam reverter esta atual queda catastrófica da economia global, que
eles consigam promover novo ciclo econômico, nova expansão cíclica.
Caso contrário, serão todas essas estruturas
históricas e altamente parasitárias do sistema capitalista – nas quais se
destaca essa moderna propriedade fundiária privada ou estatal observada pelas
frestas deste boletim – que poderão finalmente serem abolidas em uma magnifica
explosão da luta de classes internacional, no caminho da revolução e de um
verdadeiro plano de vida para toda a humanidade, no caminho de uma comunidade
humana de produtores livremente associados, de homens e mulheres incontroláveis.
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