HISTÓRIA DO BRASIL: MMXIX/MMXX/MMXXI/MMXXII, O QUADRIÊNIO DA DESGRAÇA AMBIENTAL - VII

 

Plantações de soja em região de cerrado no alto da Chapada Gaúcha (MG), no limite do Parque Nacional Grande Sertão Veredas - Lalo de Almeida - 2.dez.2021/Folhapress

Problema do agro é achar que suas soluções são imutáveis quando as regras do jogo mudaram

Estamos diante de uma solução temporária que quer se entronizar como perpétua

agro acha que tem um "problema de imagem" (apesar de ter gastado os tubos com propaganda para tentar convencer-nos a todos de que seria "pop", "tech" e até "tudo"). O último chilique de seus representantes veio após questões supostamente doutrinadoras no Enem deste ano, as quais impediriam os pobres egressos do ensino médio de enxergar o quanto o agronegócio brasileiro é maravilhoso.

OK, eu me permiti empregar sarcasmo de forma quiçá desmedida no parágrafo anterior, em parte porque é sempre engraçado ver gente com tanto poder econômico e político espernear feito criança birrenta. É engraçado, repito, mas não esclarece muita coisa. 

O problema central das reações do agronegócio a críticas, e da maneira como ele está inserido na economia brasileira e mundial, é essencialmente o seguinte: estamos diante de uma solução temporária que quer se entronizar como solução perpétua. Spoiler: não vai funcionar. E será melhor para todos os envolvidos que reconheçamos isso o mais cedo possível.

Primeiro, dando a mão à palmatória, acho difícil negar que o atual modelo de produção agrícola em larga escala teve um papel importante na redução da segurança alimentar mundo afora –ao menos quando pensamos em termos de calorias brutas produzidas e consumidas. A chamada Revolução Verde dos anos 1950 e 1960 pode ter salvado 1 bilhão de pessoas de morrer de fome e fez com que, em média, os habitantes dos países em desenvolvimento hoje consumam 25% mais calorias do que seus avós.

As bases da Revolução Verde são, ainda hoje, os pilares sobre os quais o agro se apoia. Sementes híbridas de alto rendimento, uso generoso de agrotóxicos e fertilizantes químicos, irrigação, mecanização –e, cada vez mais, cultivares transgênicos também. (Por ora, aliás, não há razão alguma para achar que os plantios geneticamente modificados representam algum risco extra para o consumo humano e para a biodiversidade.)

O problema é que, cada vez mais, a conta do sucesso da Revolução Verde está chegando. Trata-se de um modelo naturalmente concentrador em termos de capital e lucro, que recompensa a intensificação (o que pode até ser bom do ponto de vista de áreas naturais que ainda não têm uso agrícola), mas também a expansão (o que é má notícia para essas áreas). E também é um modelo que facilita consideravelmente a produção de proteína animal em grande escala.

impacto climático dessa lógica bem amarrada é elevado porque ela é extremamente dependente de energia fóssil –no maquinário, nos fertilizantes e inseticidas. Os fertilizantes têm mexido com o ciclo natural de nutrientes como o nitrogênio, enquanto a explosão de biomassa animal, em especial na forma de carne bovina, também tem como subproduto mais repercussões negativas sobre o clima. E os mesmos processos afetam a biodiversidade com mão de ferro, em especial em países tropicais em que grilar terra desmatada e enchê-la de boi é mamão com açúcar, como o nosso.

É natural que o agro se aferre às suas vitórias do passado e à sua influência presente. Seres humanos não costumam abrir mão desse tipo de poder, sejam eles quem forem. Mas qualquer análise desapaixonada dos fatos deveria nos levar a compreender que o agronegócio, no modelo que tem hoje, é um andaime. Um andaime que nos ajudou a construir a casa, mas que hoje coloca a estrutura dela, e a nossa segurança, em risco. É preciso colocar outra coisa no lugar, por mais que haja choro e ranger de dentes.

Autor: Reinaldo José Lopes

Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499: O Brasil Antes de Cabral".


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