HISTÓRIA ECONÔMICA DO SÉCULO XXI: CAPÍTULO - V
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| Ilustração de Angelo Abu - Folhapress |
Genocídios em nome de um dogma não são a praia dos defensores da humanidade
Se quem hoje rebenta oleodutos amanhã rebenta com pessoas, o que pode ser feito para evitar que isso aconteça no futuro
É uma boa pergunta: se você acredita mesmo que uma catástrofe climática esteja a caminho, por que não sai de casa para destruir os símbolos mais evidentes da economia carbonizada —fábricas, automóveis, aviões etc?
Se aquilo que nos espera é o apocalipse, não é bizarro que o pessoal esteja quieto e sereno, esperando pela sua própria extinção? "Amanhã, estaremos todos mortos", diz o ser humano médio. "Mas, nos entretantos, vamos tomar uma cerveja". Ilógico, não?
Há exceções, claro. Uma delas, que conheci agora, é Andreas Malm. Em
entrevista para o The New York Times, o professor sueco de 46 anos e autor de
"How to Blow a Pipeline" faz uma defesa vigorosa do "radicalismo
climático".
O problema é o seguinte: todos nossos esforços para controlar o aquecimento global não foram suficientes. E, se não foram, é preciso subir um degrau e começar a explodir coisas —os oleodutos que transportam o veneno que mata o planeta, por exemplo.
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| Indígenas e ambientalistas protestam durante leilão de áreas para exploração de petróleo no país |
Como afirma Malm, é necessário que os investidores dos combustíveis fósseis entendam os riscos que correm. E como o dinheiro fala sempre mais alto, é preciso atacar onde dói: direto nas suas contas bancárias.
Claro que, na entrevista, Malm é confrontado com uma pergunta
óbvia: quem hoje rebenta com tubagens amanhã rebenta com pessoas. O que pode
ser feito para evitar que isso aconteça no futuro?
Aqui, Malm vacila. Por um lado, o objetivo é destruir
infraestruturas, não vidas humanas. Mas não é possível garantir que não haverá
sangue humano no futuro, ele reconhece.
Pois não, Malm: a história do terrorismo ilustra essa ladeira
deslizante com particular brutalidade. Aliás, seguindo o seu raciocínio, esse
será o degrau seguinte, sobretudo se a sabotagem material também não resultar.
E quem, coerentemente, pode recusar esse caminho?
Para salvar a humanidade inteira, você não estaria disposto a
sacrificar centenas, milhares, até milhões de seres humanos que se recusam a
mudar de vida?
Por acaso, eu não. Genocídios em
nome de um dogma nunca foram a minha praia. Digo dogma porque as consequências
mais apocalíticas do aquecimento global se baseiam em projeções e modelos que
estão longe de fechar o debate.
Acontece que o terrorismo climático não aceita o debate. Nem
sequer a persuasão inteligente. Escolhendo a violência como o único caminho
para mudar mentalidades, desconfio que o resultado é o oposto: alienar
mentalidades.
O filósofo Pascal Bruckner, que não me canso de recomendar às
almas tementes, tem dedicado ao tema do catastrofismo ecológico alguns dos
melhores textos que conheço.
E um dos argumentos de Bruckner é a natureza contraproducente do
catastrofismo. Quando se apresenta o desafio em termos tão avassaladores —não
há nada a fazer, exceto regressar ao Paleolítico—, a reação humana nunca se
traduz em ação coletiva.
A resposta comum é a desistência. Quem pensa que isso é ilógico
não conhece a matéria de que somos feitos: só agimos quando pressupomos que o
nosso esforço não é em vão.
Além disso, existe no catastrofismo uma contradição evidente,
acrescenta Bruckner. Como sustentar, ao mesmo tempo, que os seres humanos são o
câncer do planeta e a salvação do planeta?
O marxismo, pelo menos, fazia uma divisão entre exploradores e
explorados, cabendo a esses últimos a redenção da história. Havia uma dimensão
de otimismo que inspirava a luta por um mundo melhor.
O catastrofismo ecológico não discrimina, afirma Bruckner. O
planeta inteiro é o novo proletariado —frágil, indefeso, mártir— sem a força
vital e transformadora do velho proletariado.
E a classe exploradora somos todos nós. Como esperar que os
exploradores se entreguem voluntariamente nas mãos da justiça climática?
O ódio à espécie que os terroristas climáticos exibem, o tom
acusador aos nossos pecados temporais, o sentido de superioridade que emana das
suas palavras, tudo isso só serve para afugentar o pessoal. Não se fazem bons
negócios insultando os clientes.
Por mim falo: sempre que apanho um Adreas Malm no púlpito
fulminando a nossa ruindade, peço mais uma cerveja e saboreio o mundo enquanto
existe mundo.
Autor: João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela
Universidade Católica Portuguesa.
Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo

