HISTÓRIA ECONÔMICA DO SÉCULO XXI: CAPÍTULO - IV
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Mariana Mazzucato, economista da UCL, University College London - Karime Xavier/Folhapress
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É preciso reinventar o capitalismo, diz economista Mariana Mazzucato
Para italiana, papel do Estado no século 21 é
exigir que setores da economia inovem para alcançar sustentabilidade
Mariana
Mazzucato, 55, não se surpreende ao ver o retorno de políticas de austeridade
após a pandemia de Covid ou o aumento da popularidade de novos líderes ao redor
do mundo que classificam o Estado como fonte de todos os problemas.
Para
a economista italiana, antes de criticar os eleitores que escolhem políticos
engajados em destruir o Estado, é preciso que as instituições públicas assumam
um novo papel no século 21, fornecendo uma direção e exigindo que todos os
setores da economia inovem.
Para se adequar às demandas atuais, é preciso reinventar o capitalismo, diz a professora, que esteve no Brasil na quarta-feira (27/09/23), para participar do 10º Congresso Internacional de Inovação da Indústria, realizado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) e o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).
Mazzucato
tem se aproximado do Brasil. Uma das referências para os economistas do PT, em especial de gestores do BNDES (Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social) —como Aloizio Mercadante e Nelson
Barbosa—, ela participou de seminário da instituição em março.
Em
julho, o Ministério da Gestão e a Enap (Escola Nacional de Administração
Pública) assinaram acordo com o Instituto da Inovação e Propósito Público da
University College London (IIPP/UCL), fundado por ela. O objetivo é a
capacitação de servidores, além da inovação na administração pública.
Essa
proximidade tem reforçado sua visão de que o país pode ser um ator de destaque.
O presidente Lula tem defendido no
exterior o papel do Brasil como protagonista de um futuro de desenvolvimento
sustentável. Como colocar suas palavras em ação?
A
razão pela qual as pessoas estão ouvindo o que Lula tem a dizer é que não há
líderes suficientes no mundo hoje que levem a sustentabilidade a sério —fala-se
muito, mas muito pouco é feito.
Desde
o primeiro dia, quando ele começou o novo governo, a questão da
sustentabilidade e a Amazônia têm estado no centro, e o fato de o plano de
transição ecológica brasileiro incluir o Ministério da Fazenda é algo radical.
Geralmente,
o que acontece é a velha maneira de pensar, em que o Ministério do Meio
Ambiente faz a política de sustentabilidade e o Ministério da Saúde se preocupa
com o bem-estar.
Todo
o governo deve estar voltado para um grande plano de economia verde?
A
chave é como as diferentes áreas trabalham juntas, porque cada ministério tem
suas próprias metas ambientais.
Ter
um banco público, como o BNDES, também é muito importante para o financiamento,
mas é preciso impor condicionalidades de inovação para o financiamento.
O
grande gargalo em países como o Brasil é que as empresas são fortes, mas muitas
delas não estão inovando, há uma inércia.
Mesmo
um setor consolidado, como a siderurgia, precisa inovar e transformar-se. A
Alemanha hoje tem o aço mais verde do mundo, não por ter decidido que seria
assim, mas por precisar ser verde para conseguir dinheiro do governo, é uma
parceria simbiótica em vez de uma parceria parasitária.
O
Brasil poderia, de fato, liderar um processo de inovação?
Imagine
pegar o orçamento de compras de cada ministério —Saúde, Transporte, Defesa,
Energia— e transformá-lo em um orçamento de inovação, orientado para programas
de mobilidade sustentável, que tentem resolver os congestionamentos nas grandes
cidades. Acho que o Brasil pode realmente liderar um movimento nesse sentido,
especialmente porque o Ministério da Fazenda é parte disso.
Trata-se
de reinventar o capitalismo, fazer tudo de uma forma diferente, estruturando as
organizações públicas e deixando que as organizações privadas também sejam
instadas a trabalhar em conjunto.
Para
chegar à lua, lá atrás, foram mobilizadas pessoas de diferentes setores —de
profissionais de nutrição ao setor de eletrônicos e aeronáutica— e esse
trabalho em conjunto solucionou muitos outros desafios pelo
caminho.
Hoje
temos câmeras, celulares, comida para bebê e softwares que são resultado dessas
grandes mobilizações de recursos. O mesmo deveria acontecer com a agenda de
sustentabilidade do Brasil, você a divide em diferentes frentes e as soluções
para os problemas que surgirem ao longo do caminho podem fomentar muita
inovação, é daí que vem o crescimento.
Deixar
de ser um exportador principalmente de commodities é uma ambição ainda
distante?
No
caso da América do Sul, é preciso ter muito cuidado, porque os novos recursos são muito
atraentes, como o lítio para baterias elétricas.
Ele
também traz muitos problemas, um deles é que a extração de lítio cria enormes
quantidades de água poluída, por exemplo, então é preciso ter certeza de que a
solução para um lugar não caus e um problema em outro.
Tenho
aprendido muito com a Dinamarca, que hoje é um grande
fornecedor de serviços verdes digitais de alta tecnologia, tendo criado um
ecossistema de inovação. Não cabe a mim dizer ao Brasil o que fazer, mas a
questão é que você não quer cair na armadilha das commodities novamente.
A
falta de recursos é sempre um problema, sobretudo em países com problemas em
diferentes áreas. Como contornar a limitação cada vez maior do Orçamento?
Todos
os países reclamam de falta de recursos. O erro é pensar que a restrição se dá
pelo déficit, a restrição real é a dívida em relação ao PIB [Produto Interno
Bruto]. Sem investir de forma
inteligente,
no setor privado e no setor público, a produtividade não aumenta e ela é o
principal impulsionador.
Sou
italiana, e depois da crise financeira, todos os países do sul da Europa
[Portugal, Itália, Grécia e Espanha] foram forçados a reduzir os seus déficits,
o que aconteceu foi que a dívida em relação ao PIB aumentou.
O que realmente importa não é ter um Estado grande ou pequeno, o que faz diferença é um investimento público inteligente, estratégico e orientado
Mariana Mazzucato
economista
O
que realmente importa não é ter um Estado grande ou pequeno, o que faz
diferença é um investimento público inteligente, estratégico e orientado, que
catalisa o investimento privado, mas para isso é preciso saber qual é a direção
que está sendo tomada em relação ao bem-estar e à sustentabilidade, para depois
redesenhar empréstimos, concessões e subsídios. Não basta distribuir dinheiro
para as empresas.
E é claro
que o dinheiro público só deve ser usado por aqueles que não conseguem obter o
dinheiro privado, é preciso ajudar a promover um ecossistema competitivo
inovador, em que pequenas e médias empresas estão dispostas a trabalhar em
torno de temas, como saúde, clima, digitalização e a preservação da Amazônia.
Encontrar
uma forma de construir um ecossistema simbiótico de público e privado é muito
importante para qualquer governo progressista, como o brasileiro.
A
popularidade de políticos extremistas ao redor do mundo, como no caso da Argentina, em que Javier Milei prega a destruição das
instituições, não aponta que parte da população deixou de acreditar no Estado?
Com
certeza e, infelizmente, a onda de populismo está acontecendo por toda parte.
A Espanha
pode ter escapado por pouco dela, mas vemos fenômenos assim na Itália e com o
Brexit no Reino Unido.
Não
deveríamos ser condescendentes e dizer que as pessoas são estúpidas por estarem
votando nessas pessoas com ideologias malucas. Elas perderam a confiança no
governo e nas empresas, por isso não é coincidência que muitos desses partidos
populistas se apresentem como anarquistas.
Mas a
realidade é que as ideias deles são muito antigas, é uma ideologia velha e, em
alguns casos, até feudal, por isso é muito importante retirar a máscara de
novidade que esses políticos "outsiders" usam.
Eles
apresentam soluções simplistas e que olham para o sintoma, dizem que é preciso
colocar mais pessoas na prisão ou que os imigrantes são a fonte dos problemas.
A teoria
liberal, com menos Estado, também ganhou força nos últimos anos. Tivemos um
exemplo disso no Brasil, durante o governo anterior, em que o ministro da
Economia se orgulhava de defender as ideias da Escola de Chicago.
Por se
tratar de um centro acadêmico, era de se esperar que a Escola de Chicago se
importaria com as evidências, e as evidências nos dizem que a austeridade não
funciona nem para o planeta nem para as pessoas, por aumentar a pobreza.
A
ideologia dos 'chicago boys' é uma economia estúpida e
eles sabem disso, então, para ser honesta, cheguei à conclusão de que eles
apenas não se importam. Por que mais alguém cortaria as refeições escolares ou
a verba para centros juvenis e bibliotecas públicas?
'A economia é baseada no mundo
natural, e não sobrevive sem ele', diz ambientalista indiano
A
pandemia alterou a relação das pessoas com o Estado, mas essa mudança foi
passageira?
De
repente, o Estado foi lembrado como o agente que proporcionou a vacinação, mas
essa fase durou bem pouco, muitos países já estão passando por novas ondas de
austeridade e dizem que gastou-se muito [durante a pandemia].
Os
governos deram recursos para as famílias que não estavam trabalhando durante a
quarentena e agora dizem "precisamos cortar programas sociais", só
que as consequências desses cortes acabam custando mais.
A disputa
dos países na aquisição das vacinas nos deveria ensinar que todos temos
interesses diferentes e conflitantes.
Estou
escrevendo um novo livro sobre esse tema —por exemplo, a água é um grande
problema mundial e o ciclo global nos une a todos, o desmatamento na Amazônia
causa uma seca do outro lado do mundo, então, em teoria, poderíamos pensar que
o mundo todo está preocupado com a água de forma conjunta, mas isso não está
acontecendo.
Salvar o
planeta é o grande desafio para o Estado no século 21?
O Estado
tem de fornecer uma direção e exigir que todos os setores da economia inovem,
pensando que o maior objetivo, claro, é a sustentabilidade, mas também a saúde
e o bem-estar. É preciso estar preparado para a próxima pandemia.
O meu
livro mais recente ["The Big Con"] é sobre como os governos precisam
investir na capacidade de implementação de ações, sem investir no serviço
público, você não saberá como agir e então ficará refém de consultorias, como
ocorreu na crise de Covid.
O livro
reforça como a indústria de consultorias infantilizou os governos.
RAIO-X
Mariana
Mazzucato, 55
É
professora de economia da inovação na UCL (University College London), onde é
diretora fundadora do UCL Institute for Innovation and Public Purpose. É autora
de quatro livros, incluindo "O Estado Empreendedor" e "Missão
Economia"
Publicado originalmente na Folha de São Paulo
