HISTÓRIA ECONÔMICA DO SÉCULO XX: CAPÍTULO - VI
A era do dólar: o
imperialismo depois da II Guerra
Com
o triunfo econômico dos Estados Unidos após a II Guerra, inicia-se a era do
dólar como “moeda mundial”, ou do “padrão-dólar”.
A
era do livre-câmbio ou do “padrão-ouro” durou até a I Guerra. Dali em diante
entrou em crise. Cada país foi abandonando este padrão monetário e passando a
emitir mais ou menos livremente sua moeda. O lastro-ouro estaria “de volta” em
1944 (Bretton Woods) quando os Estados Unidos se impuseram, como detentores de
quase todo o ouro do mundo, e estabeleceram sua moeda como equivalente-ouro na
proporção de 35 dólares por cada onça de ouro.
Os
países ricos, na prática, aceitaram a hegemonia norte-americana e, portanto, o
dólar como moeda mundial. O país que obtivesse poupança (divisas de exportação,
por exemplo), preferia guardar suas reservas em forma de dólares. Dólar
era tão bom quanto ouro e rendia mais que o ouro uma vez
aplicado no Tesouro norte-americano.
Em
suma, em todas as esferas, da monetária à industrial, a II Guerra significou a
afirmação da hegemonia da economia imperialista norte-americana sobre o mundo
capitalista.
“A
II Guerra Mundial acelerou consideravelmente esse processo de concentração
internacional do capital. A Grã-Bretanha, que era a primeira potência exportadora
de capitais antes da Guerra Mundial, viu-se obrigada agora a liquidar uma ampla
parte de suas inversões de outros países para financiar a guerra: essa
‘desinversão’ é calculada em 17 bilhões de dólares. Além disso, os capitalistas
americanos afluem constantemente em direção a este país.
A
França, a Holanda, a Bélgica perdem uma parte de seus investimentos em outros
países e se convertem ao mesmo tempo em áreas de investimentos para capitais
estrangeiros, sobretudo americanos. O Japão depois de ter conseguido, em
1942-45, estender o raio de ação de seus capitais a todo o Sudeste Asiático,
entra em derrocada e tem que abrir suas próprias portas aos capitais
americanos. A mesma coisa acontece com a Itália e a Alemanha. Este último país
que, em 1940 a 1945 tinha inundado com seus capitais a maior parte da Europa e
da Rússia Ocidental, passou por sua vez a ser inundado por capitais americanos
depois da derrota” (MANDEL, 1972: 102).
Portanto,
se é verdade que tinha havido um ciclo de prosperidade norte-americana nos anos
20, pós I Guerra Mundial, como foi mencionado em outro momento, mas será sobre
as ruínas e a devastação da II Guerra que a economia mundial encontrará seu
primeiro, embora fugaz, grande ciclo de crescimento econômico.
Celebrizado como os anos de ouro do capitalismo (não duraram
uma geração) foram o suficiente para reafirmar a crença de que o capitalismo
tinha superado sua história de crises, ou pelo menos de crises graves.
E
também foi o suficiente para a propagação do “mito keynesiano”, da ideia de que
gastos públicos (em obras públicas civis) e planejamento foram os responsáveis
pela superação da Depressão e pela retomada econômica excepcional. A própria
força mundial assumida pelo dólar passou a ser vista – mistificadamente – como
resultado de pacto entre as nações livremente acordado.
Não
passam de relatos de valor de face fundamentalmente ideológico.
A
força do dólar
A força do dólar (Bretton Woods) foi resultado da força econômica de uma
determinada potência imperialista na economia mundial e de forma alguma foi
resultado de diálogo ou acordo econômico pacífico entre nações.
Em
uma economia mundial sob concorrência brutal e com o imperialismo de primeira
ordem tratando de impor-se sobre os demais, é improvável qualquer acordo
duradouro na esfera de uma variável dependente como é a moeda. Esta foi a
experiência histórica da economia mundial e, por isso mesmo, a história do
‘equilíbrio instável’ do dólar, mantido como economia mundial após seu
deslastreamento (fim do padrão-ouro estabelecido após a II Guerra) era
enfraquecido a cada crise.
Quando
se discute crise da moeda é essencial pesquisar sobre seu substrato econômico.
A libra, moeda lastreada em ouro durante mais de duas gerações, conversível em
ouro, entrou em crise quando seu rival econômico, os Estados Unidos, bem mais
desenvolvidos, já detinham boa parte do ouro do mundo. O dólar, lastreado em
ouro e conversível durante 26 anos, entrou em crise quando rivais econômicos
(Japão, Alemanha) começaram a ganhar a corrida da produtividade industrial em
relação aos Estados Unidos no final dos anos 1960 e o ouro já não estava tão
concentrado nos cofres norte-americanos.
Nos
dois casos instala-se na economia mundial uma grave crise e a potência
hegemônica, portadora da ‘moeda mundial’ se vê enfraquecida frente a rivais, o
lastro-ouro se mostra não mais sustentável e, por fim, impõe-se uma reforma que
permita um novo padrão, embora instável, de equilíbrio (como foi o caso do
equilíbrio inglês, mais orgânico; e também como veio a ser o norte-americano do
seu período de crescimento no pós-II Guerra, agora excepcional e instável).
[Retomando
a análise sobre o boom pós-II Guerra, a novidade, pouco enxergada por muitos
analistas de época, é que aquele crescimento, além de ter contado, para poder
existir, com condições históricas e políticas [o apoio dos grandes PCs
stalinistas e o pacto de Yalta] muito especiais, deu-se através da exacerbação
de processos parasitários (crédito, capital fictício, economia armamentista) e
de contradições que continuaram operando no seio da economia para aflorarem ali
no início dos anos 70 levando a economia global à sua mais longa crise.]
Prosperidade
e colaboração política
Aquela fase de prosperidade – e desenvolvimento parcial das forças produtivas -
seria impensável, como vem sendo argumentado, sem intervenção pesada do Estado
no restabelecimento do equilíbrio para a acumulação do capital.
Foi
essencial para aquele crescimento capitalista do pós-II Guerra, como parte da
recuperação da taxa de lucro (motor da acumulação do capital), que os governos
pudessem impor maiores taxas de exploração do que as de antes da guerra.
No
argumento de Bach, o boom do pós-II Guerra está longe de
representar força orgânica do sistema. A condição deste novo “equilíbrio” foram
duas guerras mundiais de destruição maciça e o pacto com o stalinismo e, além
disso, uma espetacular e sem precedentes intervenção direta do Estado na
economia, alterando tendências do ciclo, mas gerando resultados que sequer seus
dirigentes podem prever (1999: 27).
Aqui,
novamente, o papel do Estado foi crucial. O mesmo Estado que acionara a
indústria de guerra, que movimentava o crédito público maciço na era do boom e
assumia medidas de sustentação de uma aristocracia operária e também adotava
mecanismos defensivos de proteção social.
A
base para esta ação do Estado – contando com a imprescindível e colossal
destruição de forças produtivas, sobretudo capitais europeus – foi a mais
profunda exploração do trabalho e a garantia de uma certa “paz social” forçada,
graças à já mencionada colaboração dos PCs, a começar do PC da URSS (PCUS), no
sentido de que a classe trabalhadora europeia apertasse os cintos e fosse
contido e desviado qualquer ímpeto revolucionário. Esta foi, em grande medida,
a história daquelas décadas. E a história do período do acordo de Yalta
[Stálin-imperialismo].
A reconstrução econômica europeia contou com ajuda financeira dos Estados Unidos (Plano Marshall) que procuravam evitar riscos de revoluções sociais naquele continente. Na periferia, os Estados Unidos contaram com o indispensável apoio das ditaduras militares para esmagar a ferro e fogo as revoluções coloniais que radicalizavam.
Mas
jamais se deve deixar de destacar que, sem a garantia da URSS, que saiu
politicamente prestigiada da guerra, de que nenhum PC sob seu controle – e
todos estavam sob seu controle – iria tomar o poder em lugar algum à semelhança
de 1917 na Rússia, certamente o capitalismo não encontraria o equilíbrio
econômico para qualquer boom europeu.
Quanto
à celebrada política keynesiana, de dirigismo estatal e gastos públicos, ela
irá revelar toda sua impotência poucos anos depois, quando a economia não mais
for capaz de manter aquelas taxas de crescimento do pós-Guerra. O keynesianismo
teve um papel mais ideológico, no sentido de encobrir as reais causas do
crescimento econômico, do que mesmo como afirmação de uma nova política civil
para o capitalismo ou sequer como testemunho da possibilidade de regular a
economia capitalista mundial. No entanto, as “ilusões keynesianas” no período pós-Guerra
tinham sua razão de ser:
“A
entrada em vigor da política keynesiana do mundo capitalista imediatamente
depois da II Guerra Mundial era o duplo resultado dos ensinamentos da depressão
dos anos 30 e dos êxitos econômicos em matéria de realização do pleno emprego
ao longo dos anos de guerra. A depressão tinha revelado a impotência do
tradicional mecanismo deflacionista da crise para segurar a reativação que
tinha colocado a necessidade do recurso aos meios mais aptos de preservar o
equilíbrio social, que não era o desemprego, o estancamento e a miséria.
De sua parte, a guerra tinha demonstrado eficiência do dirigismo estatal na
realização do crescimento, através de uma certa inflação, e o objetivo
prioritário dos anos pós-guerra era a conquista do pleno emprego e o
crescimento econômico através de uma fina articulação das políticas monetárias,
fiscal e orçamentária. Através deste `ajuste de precisão` da economia,
acreditava-se poder nivelar no ciclo econômico e, sobretudo, libertá-lo das
pressões que trazem convulsões sociais” (GILL, 2002: 663).
Nada
disso foi conseguido tomando-se o médio prazo: o boom logo se
esgotaria. E para tentar resumir o significado daqueles anos de boom depois da
II Guerra, pode-se dizer que, na verdade, a economia mundial capitalista estava
– embora em condições históricas excepcionais – construindo prosperidade a
partir da devastação promovida pela crise e pela guerra. E tratou-se de um
padrão de crescimento logo rompido. A prosperidade que durou quase vinte anos
foi, pouco a pouco, perdendo sua força propulsora. Caía a taxa média de lucro.
O
maior credor do seio da economia mundial do pós-Guerra, os Estados Unidos,
revelavam os primeiros sinais de esgotamento de seu papel hegemônico. Seu peso
industrial já não era o mesmo, com o crescimento econômico dos rivais japoneses
e alemães e aparecia o déficit na balança comercial (os Estados Unidos estavam
comprando mais do que exportando).
O
dólar perdia sua força frente a economias mais competitivas industrialmente e
que mostravam capacidade produtiva para inundar os Estados Unidos com
mercadorias mais baratas. O ‘equilíbrio norte-americano’ logo se romperia.
E
aqui, tem importância remarcar um item raramente enfatizado nos livros de
economia. Ou seja, o papel da intervenção econômica, mas também política dos
governos na luta para preservar seu equilíbrio instável.
Intervenção
política e econômica do Estado
O capitalismo da era dos oligopólios, o capitalismo moderno, imperialista, já
não mais consegue encontrar apenas através das livres leis da economia, o
equilíbrio necessário para tentar crescer após as crises. O exemplo da Grande
Depressão, do crack de 1929, é terminante a este respeito. A
intervenção política dos Estados Unidos tratando de impor mundialmente sua
hegemonia (militar e política) no pós-II Guerra, não deixa de ser um fator
político [ou “extra-econômico”] sem o qual não é possível entender o essencial
da economia mundial.
A
economia capitalista mundial em época na qual seu crescimento já não é orgânico
e enfrenta resistência social revolucionária, tem mostrado que não sai da
estagnação pelas livres forças do mercado e que, portanto, necessita do Estado
cada vez mais, não apenas para se safar da crise mas, ao mesmo tempo, para
funcionar e ganhar sobrevida.
A
simples análise da dinâmica econômica do boom – suas
tendências e processos econômicos – como já foi mostrado, não tem o poder de
explicar porque a França ou a Itália se mantiveram de pé e crescendo naquele
período convulsivo em que os trabalhadores e guerrilheiros comunistas (partisans, partiggiani)
tinham o poder político ao alcance da mão, mas suas direções optaram pela
estratégia de colaboração com a classe dirigente imersa em profunda crise e
colapso de pós-Guerra.
De
Gaulle, chegou a reconhecer isso em suas memórias, onde presta um específico
tributo aos dirigentes do PCF, ao seu papel de bombeiro contra o incêndio
político que ameaçava o capitalismo europeu no final dos anos 1960.
Em
suma, não é convincente tentar explicar o boom por razões
apenas ou principalmente endógenas, da economia strictu sensu. Esta
explicação poderia ser em alguma medida aceitável para a fase de crescimento
orgânico da economia mundial (fim século XIX).
Por
sua vez, o Estado não tem o poder de intervir para evitar a crise e nem impedir
seu alcance destrutivo pleno, mas intervém, e tem que fazê-lo, para salvar o
sistema. Intervém com recursos públicos para alterar o ciclo eco¬nômico.Existe
a consciência, por parte de suas direções mais “esclarecidas”, de que os
mecanismos cíclicos e semilivres de recessão e recuperação econômica, que se
davam até o crack de 1929, são inaceitáveis: passa a ser
questão de sobrevivência e vida ou morte do sistema a maior intervenção do Estado
sobre a economia (BACH: 2008).
E
aqui é essencial lembrar que a intervenção do Estado pode adotar medidas e
estratégias de caráter civil de gastos públicos, pacotes financeiros ou
nacionalizações (como em 2008 ou, antes, em toda a primeira fase do New
Deal de Roosevelt nos anos 30), mas também pode mergulhar na economia de
guerra (primeira opção da Alemanha, com o partido nazista e, em seguida, dos
Estados Unidos de Roosevelt).
Neste
ponto economia e política estão unidas mais que nunca. Forçar a sociedade,
sobretudo os trabalhadores, a aceitarem o encargo colossal e mais pesado da
crise econômica do sistema requer ação política e ideológica do Estado em
grande escala. A crise de 2008/09, com seus pacotes de trilhões de dólares,
ilustra este argumento de forma eloquente. A era daquele boom é
esclarecedora a este respeito. O prestígio da URSS foi usado, pelas direções
burocráticas da classe operária, para barrar a ameaça revolucionária
anticapitalista que varria Itália, França e Grécia: novamente, e de outra
forma, política operando para salvar um sistema em dêbacle econômica.
BACH,
Paula, 1999. Introducción a Naturaleza y dinâmica del capitalismo y la
economia de transición, León Trotsky, Buenos Aires, Ceip, p. 9 a 29,
BACH, Paula, 2008. La ´cuestión monetária y el equilíbrio capitalista´, Suplementos
Econocrítica n.7, 23 de octubre de 2008, Buenos Aires.
GILL, Louis, 2002. Fundamentos y límites del capiralismo. Madrid:
Editorial Trotta.
MANDEL, Ernest, 1972. Tratado de economía marxista, 2 volumes.
México: Ediciones Era.
[Juntas,
essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial
contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G
Dantas].
Continua na nota n.16.
