O CAPITALISMO BRASILEIRO É UM AMOR, É OU NÃO É? - CAPÍTULO - XXXVII
Floresta teve um aumento de 11.957 km² na área desmatada em 2021
sob o criminoso governo Bolsonaro e seu assecla Ricardo Sales |
Levantamento do MapBiomas indica que quase dois terços da expansão da
área usada pela agropecuária no Brasil é resultado do desmatamento para criação
de pastos
A
agropecuária já ocupa um terço do território brasileiro, num total de 282,5
milhões de hectares, e os pastos formados na Amazônia são hoje maiores que os
existentes no bioma Cerrado, antes tradicional criador de gado.
Enquanto
as pastagens na Amazônia somam 57,7 milhões de hectares, as do Cerrado
diminuíram de tamanho e são hoje 51,4 milhões de hectares.
Segundo
a rede MapBiomas, responsável pelo mapeamento do uso do solo nacional, entre
1985 e 2022 quase dois terços (64%) da expansão da área usada pela agropecuária
no Brasil é resultado do desmatamento para formação de pastos, principalmente
na Amazônia.
A
virada entre Amazônia e Cerrado ocorreu nos últimos dois anos. Em 2019, o
Cerrado ainda liderava: tinha uma área de 53,6 milhões de hectares de pastos e
a Amazônia, 51,9 milhões de hectares. Em 2020 os dois biomas estavam
praticamente empatados, com ligeira vantagem para o cerrado. Em 2021, a
Amazônia chegou a 54,5 milhão de hectares de pastos, enquanto o cerrado
diminuiu para 52,4 milhões de hectares.
No
ano passado, a liderança do bioma amazônico se consolidou, às custas
principalmente da destruição da floresta.
Pecuária avança rápido
Até
o fim do ano passado, os pastos ocupavam 164,3 milhões de hectares das terras
no país. Se consideradas todas as pastagens brasileiras, independentemente dos
biomas, 30,6% delas surgiram nos últimos 20 anos. Na Amazônia, por sua vez,
45,4% são novas, com menos de 20 anos, sendo que 14,8% foram formadas nos
últimos cinco anos.
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A área total de pastos parou de crescer a partir de 2006, mas eles se
deslocaram para a Amazônia. Em outras regiões, houve conversão de pastagens
para agricultura. Alguns estados até reduziram a área de pasto, mas não a
produção pecuária, pois conseguiram concentrar a produção - explica Tasso
Azevedo, coordenador geral do MapBiomas.
Enquanto
a área total usada no país no setor agricultor cresceu 10,6% nos 38 anos do
levantamento, a de pastagens quadruplicou. Na Amazônia, os pastos ocupam oito
vezes mais espaço do que a agricultura, que utiliza 7,2 milhões de hectares.
Grãos e cana dominam áreas de lavoura
Se
considerado apenas cultivo agrícola, área passou de 19,1 milhões de hectares em
1985 para 61 milhões de hectares no ano passado. A expansão equivale a duas
vezes o estado do Paraná.
Nada
menos do que 96% dela é usada por lavouras de cana-de-açúcar e grãos, os
chamados plantios industriais, que triplicaram no período, passando de 18,3
milhões de hectares para 58,7 milhões de hectares - ou 7% do território
nacional. A maior das lavouras é a de soja, que sozinha ocupa 35 milhões de
hectares.
Azevedo
afirma que, na prática, a agropecuária brasileira está dedicada à produção
animal, já que a maior parte da soja é destinada à produção de ração.
Os
estados que mais desmataram para abrir pastagens entre 1985 e 2022, foram Pará
(18,5 milhões de hectares), Mato Grosso (15,5 milhões de hectares), Rondônia
(7,4 milhões de hectares), Maranhão (5,4 milhões de hectares) e Tocantins (4,5
milhões de hectares). Os dois últimos são estados da Amazônia e do Matopiba,
uma das principais fronteiras atuais de desmatamento.
O
desmatamento de mata nativa direto para plantio agrícola foi de 10 milhões de
hectares entre 1985 e 2022. Segundo os analistas do MapBiomas, o movimento foi
constante e houve até tendência de declínio entre 2018 e 2022. O restante do
crescimento da agricultura se deu nas chamadas áreas antropizadas (já
modificadas pelo homem).
Novas fronteiras agrícolas
A
distribuição geográfica, porém, mudou, assim como ocorreu nas pastagens. As
novas fronteiras agrícolas estão hoje nas regiões denominadas Matopiba (área de
cerrado nos estados do maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que formam as
sílabas de Matopiba) e da Amacro, formada por municípios do Sul do Amazonas,
Acre e Rondônia e uma das mais recentes a serem desmatadas e queimadas na
Amazônia. Há ainda expansão no bioma Pampa, no Rio Grande do Sul.
O
Cerrado lidera em tamanho de área plantada com soja: 11% do bioma é ocupado por
lavouras do grão. No total, o cerrado responde hoje por 48% do cultivo de soja
no país.
A
cultura da soja é temporária - precisa ser replantada a cada safra. A
agricultura tem ainda as culturas perenes, de ciclo longo, que não necessitam
replantio, como café, citrus e dendê, que ocuparam 2,4 milhões de hectares no
ano passado.
A
liderança ainda é do café, com 1,3 milhão de hectares em 2022. O cultivo de
citrus ocupa 228 mil hectares em 2022 e o do dendê, mais presente no Norte do
país, 180 mil hectares.
As
florestas plantadas ocupam 8,8 milhões de hectares e o maior avanço no período
do levantamento ocorreu no bioma Pampa, que tem hoje quase 1 milhão de
hectares.
Publicado originalmente no jornal O Globo
Por Cleide Carvalho — São Paulo
