HISTÓRIA DO BRASIL - ANO MMXXIII DO QUADRIÊNIO DA ESPERANÇA, VOZES DO BOM SENSO: JOSEPH STIGLITZ
Propostas de Lula para tributar os mais ricos beneficiam país, diz Prêmio Nobel
Segundo Joseph Stiglitz (foto), sociedades com menos
desigualdade têm desempenho econômico melhor, do qual todos se beneficiam
As propostas do
governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para acabar com vantagens tributárias que permitem às pessoas mais ricas pagar menos
impostos terão efeito positivo na economia brasileira,
afirma Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel em 2001.
"Não é surpresa que os ricos digam: não nos tributem
porque será ruim para a economia. Eu ficaria surpreso se eles não dissessem
isso. É um argumento egoísta. Mas não tem base econômica", afirma o
economista em entrevista à Folha.
O vencedor do Nobel esteve no Brasil nesta semana para uma
série de eventos e reuniões, incluindo um encontro com Lula.
Stiglitz afirma que a desaceleração da economia global torna
urgente para o Brasil aumentar a arrecadação, estimular o crescimento e reduzir
juros.
Ele é otimista em relação aos EUA, mas destaca problemas nas economias europeia e chinesa. "Não está claro se o presidente Xi [Jinping]
está apto para gerenciá-los."
Afirma ainda que a inflação caiu nos EUA e no Brasil por
causa da normalização de oferta e demanda no pós-pandemia, não por causa da
alta dos juros. "O incrível sobre o Brasil é como ele se saiu tão bem,
dada a má política do Banco Central", afirma.
O sr. teve muitos encontros aqui no Brasil, incluindo uma
reunião com o presidente Lula. Qual a impressão sobre o país nesta visita?
Há um espírito mais forte que eu não sentia há muito tempo. É
como emergir de uma espécie de escuridão. O governo tem feito um trabalho muito
bom.
Alguns grupos da sociedade civil gostariam que ele fizesse
mais. Algumas pessoas ricas gostariam que fizesse menos. Considerando as
dificuldades, ele está fazendo um trabalho muito impressionante.
Seria bom para a economia brasileira e para todo o Brasil se
o Congresso aprovasse os impostos mais progressivos que ele propôs. Eu iria
ainda mais longe, mas o que ele propôs é importante.
Algumas pessoas dizem que tributar os ricos é ruim
para a economia e que sempre há uma maneira de escapar da tributação. Como parte de um movimento internacional por justiça
tributária, como o sr. vê a questão?
É muito bom para a economia [tributar os ricos]. Por muitas
razões. O governo precisa da receita, e esse é o melhor lugar para obtê-la.
Em segundo lugar, o Brasil é um dos países em que os ricos pagam menos impostos em relação à sua renda do que os pobres. Eles têm maneiras legais de evitar impostos. A maioria das pessoas é honesta, pagará sua parcela justa se for chamada a fazer isso. Se não for, não pagará.
A terceira coisa é que isso leva a uma sociedade mais
igualitária. Não é uma visão de esquerda. O FMI, a OCDE, todos chegam à visão
de que sociedades com menos desigualdade têm desempenho econômico melhor, do
qual todos se beneficiarão.
Não é surpresa que os ricos digam: não nos tributem porque
será ruim para a economia. Eu ficaria surpreso se eles não dissessem isso. É um
argumento egoísta. Mas não tem base econômica.
Um dos objetivos dessa busca por receitas é zerar o déficit nas contas públicas, mas há pressões por mais gastos. A austeridade é
importante neste momento?
Os mercados financeiros têm enfatizado demais a importância
do déficit. A austeridade falhou em todos os lugares como instrumento para
equilíbrio orçamentário.
Austeridade geralmente leva a um menor crescimento. Menor
crescimento leva a uma menor arrecadação de impostos e a mais gastos com
seguro-desemprego e rede de segurança básica. Então piora o déficit.
Até o FMI reconhece que foi uma política errada. Se você coloca o crescimento no topo da agenda, a economia cresce, as receitas aumentam e o déficit diminui.
