HISTÓRIA ECONÔMICA DO SÉCULO XX: CAPÍTULO - III
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| Volkswagen |
Empresários parceiros do nazismo ficaram bilionários e ergueram marcas famosas
Jornalista mostra em livro como magnatas
alemães ajudaram a financiar o partido de Adolf Hitler
Alguns
dos maiores bilionários da Alemanha de hoje —gente ligada a marcas-símbolo da
indústria e dos negócios do país, como BMW, Volkswagen e
Allianz— pertencem a dinastias empresariais que foram parceiras de primeira
hora do regime nazista.
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| BMW |
Os pormenores dessa história estão em "Bilionários
Nazistas", obra do jornalista holandês David de Jong que chegou
recentemente ao Brasil. Segundo o autor, um simples casamento de conveniência
está por trás do êxito dos personagens do livro durante o Terceiro Reich.
"A maior parte desse grupo era composta por oportunistas impiedosos, que
seriam capazes de prosperar em qualquer sistema político", explica De
Jong.
"Era gente que começou ganhando bastante dinheiro na
época do Império Alemão [antes e durante a Primeira Guerra Mundial], continuou
lucrando durante a República de Weimar [fase democrática da Alemanha após a
guerra] e, finalmente, abraçou a Alemanha nazista", diz ele.
"Poucos eram ideologicamente convictos em relação
ao nazismo —em
geral, estavam mais associados ao conservadorismo político tradicional. Mas
apoiaram Hitler porque ele cumpriu o que lhes tinha prometido em termos
econômicos."
De Jong, de família parcialmente judia e descendente de
pessoas que foram perseguidas, escravizadas ou morreram em campos de
concentração durante a ocupação da Holanda pelos nazistas, percebeu que faltava
contar em mais detalhes as histórias desses bilionários quando trabalhava para
a agência de notícias Bloomberg.
Ele investigava casos de riqueza oculta e empresas familiares
nos países de língua alemã e, em 2012, acabou encontrando um site discreto da
Harald Quandt Holding, companhia com patrimônio orçado em US$ 18 bilhões. De
Jong então ficou sabendo que esse Harald Quandt era o único filho do primeiro
casamento de Magda Goebbels, mulher do ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels.
Todos os meio-irmãos de Harald foram forçados a cometer
suicídio por Joseph e Magda (que também se mataram) quando os nazistas foram
derrotados na Segunda Guerra Mundial —eles estavam abrigados no mesmo local
onde Hitler também se matou. Só Harald sobreviveu, tendo assumido parte dos
negócios da família Quandt após a guerra, ao lado de seu meio-irmão, Herbert.
O autor de "Bilionários Nazistas" acabou descobrindo
muitas histórias parecidas ao longo de quatro anos de investigação.
"Decidi me concentrar nas famílias alemãs que ainda eram relevantes no
ambiente de negócios global hoje, porque algumas deixaram de existir desde
então", conta.
Outro critério foi abordar a trajetória de empresas que não
apenas lucraram com a economia de guerra do Terceiro Reich, fornecendo
armamentos e equipamentos para as Forças Armadas alemãs, mas em especial as que
se beneficiaram de aspectos mais ideológicos do nazismo, como o antissemitismo
e o uso de trabalho escravo.
Segundo esse recorte, destacam-se figuras como o industrial
Günther Quandt, pai de Harald, cujos descendentes estão ligados à BMW;
Ferdinand Porsche, criador da Volkswagen e da Porsche; Richard Kaselowsky e
Rudolf-August Oetker, respectivamente pai e filho adotivo, da popular
multinacional de produtos alimentícios Dr. Oetker; e o banqueiro August von
Finck, da família de fundadores da Allianz.
Tanto Günther Quandt quanto August von Finck estiveram
presentes numa reunião peculiar entre grandes nomes do empresariado alemão e a
alta hierarquia do Partido Nazista em 20 de fevereiro de 1933. No encontro, os
magnatas ouviram de boca fechada enquanto Hitler —que tinha assumido a
liderança do governo alemão havia menos de um mês— explicou como planejava
acabar com a democracia na Alemanha em breve, por meio da última eleição da
história do país "nos próximos cem anos".
"A empresa privada não pode ser mantida na era da
democracia. Ela só é concebível se o povo tiver uma ideia sólida de autoridade
e personalidade", argumentou o futuro ditador.
No fim do encontro, os empresários foram convidados a fazer
doações para a campanha eleitoral do Partido Nazista. E toparam a proposta de
oferecer 3 milhões de marcos (cerca de US$ 20 milhões em valores atuais) ao
fundo eleitoral da coalização liderada por Hitler.
A ajuda inicial foi amplamente recompensada por meio de
generosos contratos de fornecimento para o governo durante o longo processo de
rearmamento da Alemanha, que acabaria culminando com a Segunda Guerra Mundial.
Além disso, os bilionários pró-Hitler se beneficiaram do
processo de "arianização" das empresas do país. Por meio das leis
antissemitas impostas por Hitler, empresários judeus foram coagidos a vender
suas companhias ou ações a preço de banana para alemães "arianos"
(não judeus), isso quando chegavam a ser pagos.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com Adolf Rosenberger,
fundador da Porsche, que perdeu sua parte da empresa automobilística para a
família de seu colega Ferdinand Porsche. Em vários casos, após a arianização,
os ex-empresários judeus tentaram conseguir ajuda dos antigos sócios para
escapar da Alemanha, mas foram rejeitados por eles.
Por fim, quando as forças nazistas ocuparam boa parte da
Europa durante a guerra, incluindo vastas regiões da Polônia e da União Soviética, entre 12 milhões e 20 milhões de cidadãos dos países invadidos foram
forçados a trabalhar para empresas alemãs que os "requisitavam" ao
governo.
"Em grande parte, era um processo de destruição
populacional por meio do trabalho, no qual a intenção era simplesmente explorar
essas pessoas ao máximo possível", diz De Jong. Não era incomum que
trabalhadores russos e poloneses sem proteção alguma e até descalços
trabalhassem com metalurgia, por exemplo, o que ocasionava inúmeros acidentes
com pouquíssima assistência médica.
Para o autor, há paralelos entre o que aconteceu no regime
nazista e situações mais recentes de colaboração entre o mundo empresarial e
regimes ditatoriais. "O capitalismo, claro, é amoral na sua essência —o
importante é o lucro. O que vemos nesses regimes é que os homens de negócios
acabam seguindo a linha do governo."
Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo

