HISTÓRIA DO BRASIL - ANO MMXXIII DO QUADRIÊNIO DA ESPERANÇA: BNDES
O
BNDES no centro da neoindustrialização
José
Luis Gordon
Diretor de desenvolvimento produtivo, inovação e comércio
exterior do BNDES e vice-presidente da ABDE (Associação Brasileira de
Desenvolvimento); ex-presidente da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e
Inovação Industrial)
Alexandre
Abreu
Diretor financeiro e de crédito digital para MPMEs (micro,
pequenas e médias empresas) do BNDES; ex-presidente do Banco do Brasil
As
grandes potências mundiais só alcançaram o desenvolvimento por meio da
industrialização. São países que desafiaram suas vantagens comparativas
existentes, em vez de aceitá-las, conforme diz o professor sul-coreano Ha-Joon
Chang. Em contraste, a desindustrialização
que acomete o Brasil coloca o país em uma rota de distanciamento da
fronteira econômica, social, ambiental e tecnológica.
Ao
contrário de outros países, a desindustrialização do Brasil é precoce. Não
ocorreu com o ganho de participação de um setor de serviços de alto valor
agregado e, não à toa, conectado à indústria moderna
remanescente. No Brasil, os setores que lideram a economia pelo lado da oferta
em variáveis como PIB, emprego e
exportações são, na sua maioria, de baixa intensidade tecnológica.
Por
isso, recebemos a missão do presidente Lula de
reconstruir uma política industrial tecnológica, verde e inclusiva. Nossa
defesa por esse resgate
do fomento à indústria no país não é uma jabuticaba brasileira.
Embora
pouco divulgado no Brasil, Jake
Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, proferiu um contundente
discurso sobre políticas industriais. Ao falar sobre a Ásia, ele salienta que
"a República Popular da China continuou
a subsidiar em larga escala [para] setores industriais tradicionais, como aço,
bem como indústrias-chave do futuro, como energia
limpa, infraestrutura digital e biotecnologias avançadas".
Em
oposição ao modelo chinês, Sullivan fala do modelo norte-americano, vigente até
o governo Biden,
no qual "em nome de uma eficiência de mercado supersimplificada, cadeias
de suprimentos inteiras de bens estratégicos —juntamente com as indústrias e os
empregos que os sustentavam— foram transferidas para o exterior. E a suposição
de que uma liberalização comercial profunda ajudaria a América a exportar bens,
não empregos e capacidade, foi uma promessa feita, mas não cumprida".
O
discurso de Sullivan não serviu apenas como uma confissão de que o país nunca
deixou de realizar políticas industriais, mas também como um aviso de que os
EUA vão ampliar esforços e investimentos públicos, identificando setores
específicos fundamentais para o crescimento econômico, estratégicos do ponto de
vista da segurança e do bem-estar nacional. O governo Biden já anunciou três
iniciativas que devem atingir US$ 1,8 trilhão. A União Europeia também
anunciou que deve investir 400 bilhões de euros em apoio a fabricação de
semicondutores, fundos para novas tecnologias e transformação digital.
Diante
do cenário de acirramento da competição internacional, há o risco de ficarmos
ainda mais para trás e perdermos oportunidades geradas nesse contexto. A
solidez fiscal e as reformas estruturantes, como a tributária, são centrais.
Porém, é ingenuidade supor que elas sejam capazes de, por si sós, levar o país
a uma nova rota de crescimento sustentável.
A
política industrial em construção visa um processo
de neoindustrialização a partir de missões estruturais que transformem
a indústria e atendam às novas e às antigas demandas sociais, ambientais e
climáticas do país. É certo que não dispomos da mesma margem fiscal que as
economias avançadas, mas assim como já fazemos para a agricultura, podemos
avançar num fomento focado e transparente para a indústria.
Nesse
sentido, o BNDES já
disponibilizou R$ 4 bilhões de crédito a uma nova taxa de juros em dólar que
visa baratear os recursos para as indústrias exportadoras. A indústria
produtora de máquinas, equipamentos e implementos agrícolas também se
beneficiou com mais R$ 4 bilhões anunciados na mesma taxa em dólar para
produtores rurais exportadores. Vale dizer que esses R$ 8 bilhões são novos
valores colocados no mercado sem qualquer forma de subsídio, ancorados em
captações internacionais do BNDES junto a organismos internacionais. O BNDES
ainda teve o complemento de R$ 6,5 bilhões de novos recursos do Plano
Safra neste primeiro semestre, valor que conta com subsídios
explícitos aprovados pelo Congresso Nacional.
O
BNDES, assim como ocorre em outros países, deve atuar complementando o mercado
e executando
políticas para a modernização da nossa indústria. Eventuais benefícios ou
subsídios, também praticados em outros países, podem ser apresentados e
debatidos de forma transparente com a sociedade e contarão com a avaliação de
sua efetividade. Sob a liderança do presidente Lula, a política industrial será
central no novo BNDES.
