INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Inteligência
artificial vai eliminar empregos e mudar profissões, mas elevará produtividade
Até
mesmo funções que exigem aptidões inerentemente humanas, como publicidade,
jurídico, finanças e educação, poderão ser substituídas por ferramentas mais
avançadas
Por diferentes caminhos, estudiosos tentam antecipar o impacto que a nova era da inteligência artificial (IA) generativa terá no mercado de trabalho e no emprego das pessoas. É a primeira vez que essa tecnologia provou ser capaz de substituir os humanos em diferentes tarefas, como cálculo de impostos, avaliações complexas de seguros, escrita de um texto ou produção de uma imagem.
A
chegada do ChatGPT, em novembro do ano passado, e de outras ferramentas mais
avançadas de IA mostram potencial para substituir profissionais em funções que,
acreditava-se até então, exigiriam aptidões inerentemente humanas, como mídia,
publicidade, jurídico, finanças, educação e até mesmo tecnologia.
Se
antes as máquinas substituíam as pessoas em funções mais operacionais e
repetitivas, agora é consenso que até profissões que exigem habilidades mais
sofisticadas estão em risco — ou, ao menos, serão profundamente alteradas. Se
por um lado especialistas acreditam que isso representará um salto de
produtividade sem paralelo recente, por outro veem também uma forte redução nos
postos de trabalho.
A
velocidade e a magnitude como isso vai acontecer, entretanto, ainda estão no
campo da especulação porque dependem de variáveis como novas regras
trabalhistas, regulação do uso de IA pelas empresas e políticas públicas de
formação de mão de obra qualificada para esse novo mundo do trabalho. E essas
regras ainda não foram definidas na maioria dos países, incluindo o Brasil.
A
boa notícia é que novos postos de trabalho, que exigem mais qualificação e
tendem a pagar melhores salários, serão criados nesse novo mundo do trabalho,
embora não na mesma velocidade que as vagas serão fechadas. Shelly Palmer,
consultor de tecnologia e negócios e professor de Mídia Avançada na
Universidade de Siracusa, em Nova York, pontua que há uma profunda diferença
entre perder o emprego para uma máquina (o que acontece desde o advento da
automação) e perder o emprego para outra pessoa que desenvolveu habilidades que
você optou por não desenvolver.
—
É altamente improvável que a IA “roube” seu trabalho. É muito mais provável que
um de seus amigos, colegas ou concorrentes aprenda a usar a IA para aumentar
sua produtividade e, por ser mais produtivo, ocupe seu posto — diz Palmer, que
recomenda que as pessoas aprendam a usar e estudem sempre as novas ferramentas
de IA. — Não importa o quão inteligente você pense que é, há coisas que um
sistema de IA bem treinado pode fazer melhor do que você.
Quando
se fala em números, a chegada da IA generativa pode se parecer mais com um
evento de destruição em massa de postos de trabalho — e por isso causa tanto
alarmismo. Pesquisadores do banco americano Goldman Sachs, por exemplo, preveem
a perda de 300 milhões de postos de trabalho com a automatização. O relatório
do Goldman estima que 18% do trabalho global poderiam ser informatizados, com
os efeitos sentidos mais profundamente nas economias avançadas do que nos
mercados emergentes.
Segundo
o banco, países desenvolvidos serão mais afetados, em parte porque os
trabalhadores de “colarinho branco” correm mais riscos do que os braçais.
Espera-se que profissionais das áreas de Administração e Direito sejam os mais
afetados, afirma o Goldman Sachs, em comparação com o “pequeno efeito”
observado em ocupações fisicamente exigentes e menos digitalizadas, como
construção e reparos.
O
outro lado da moeda é o impacto positivo no crescimento econômico. O estudo do
Goldman Sachs prevê que a adoção generalizada da IA pode aumentar a
produtividade do trabalho — e elevar o PIB global em 7% ao ano durante um
período de dez anos.
Palmer
lembra que a produtividade tem aumentado exponencialmente nos últimos anos. É
só pensar como atividades cotidianas, como agendamento de viagens, compras ou
busca de informações, são hoje bem mais simples do que em 2020.
—
Quase todo CEO insistirá em usar IA para levar a produtividade ao limite. A
vantagem competitiva é muito grande se você for o primeiro — diz Palmer.
Especialistas
alertam, porém, que, mesmo antes da nova era da IA generativa, os ganhos de
tecnologia dos últimos anos resultaram em um aumento grande da desigualdade de
renda entre profissionais muito qualificados (e com altos salários) e os que
estão na base da pirâmide. Com o novo salto tecnológico, esse contexto tende a
se aprofundar.
—
Precisamos, neste momento, de regulação e governança, de um debate
multilateral, para direcionar essas mudanças. Será preciso mesmo substituir
tantos postos de trabalho por automação? — questiona Gustavo Macedo, professor
de Relações Internacionais e que também leciona a disciplina Ética e
Inteligência Artificial no Ibmec-SP.
Alarmismo e futurismo
Macedo
cita o exemplo de alguns escritórios de advocacia, nos quais os estagiários que
levantavam dados para embasar processos já foram substituídos por ferramentas
de IA. Mas destaca que há um certo alarmismo em números e estimativas que
preveem cortes de emprego, que, segundo ele, não passam de “exercício de
futurismo”.
Segundo
Leonardo Monasterio, especialista do Instituto Millenium e pesquisador
visitante no Lemann Center da Universidade de Stanford, nos EUA, as previsões
sobre o impacto da IA no trabalho têm sido revistas, uma vez que não se
concretizam de forma linear. Ele observa que a nova fase da IA avança em
posições que misturam atividades repetitivas e cognitivas, como preencher uma
planilha, transcrever áudios ou traduzir textos. Ainda assim, tarefas como a
conversa entre um médico e seu paciente ou a apresentação de um palestrante ou
professor são mais difíceis para as máquinas. No entanto, os dois profissionais
provavelmente terão melhores chances se souberem aplicar a IA no seu cotidiano
para ganhar produtividade, diz Monasterio.
A
própria indústria de computação está no alvo da IA. De um lado, a IA assume
tarefas como as de criação ou complementação de códigos, geração de relatórios
e otimização de fluxos de trabalho. Por outro, muitos profissionais de
tecnologia podem dedicar mais tempo ao treinamento dessas máquinas,
aperfeiçoando modelos de linguagem para torná-las mais assertivas. São os
chamados “engenheiros de prompt”.
Luca
Belli, professor da FGV Direito Rio e coordenador do Centro de Tecnologia e
Sociedade da FGV, lembra que a China tornou a programação disciplina
obrigatória no ensino fundamental em 2020. Belli avalia que o Brasil deveria
seguir o exemplo chinês para se antecipar e evitar a destruição em massa de
postos de trabalho, além de criar políticas públicas de regulação, limitando o
uso de robótica e taxando empresas que produzem IA:
—
Precisamos direcionar essas mudanças e ter a visão de para onde queremos
avançar. A maioria dos países, exceto EUA e China, onde estão as maiores
empresas de IA, está atrasada nesse debate. Dados de extinção de postos de trabalho
de agora talvez considerem o pior cenário.
Alexandre
Montoro, diretor executivo e sócio da consultoria BCG, avalia que este é só o
início de uma grande transformação, cuja chave está na forma como será aplicada
a IA:
—
Na indústria de biofármacos, por exemplo, a IA pode gerar dados sobre milhões
de moléculas possíveis para a cura de uma determinada doença e, em seguida,
testar suas aplicações, acelerando de forma significativa os ciclos de pesquisa
e desenvolvimento de medicamentos e vacinas.
O que a IA é capaz de fazer?
O Goldman
Sachs resumiu as diferenças práticas entre a atual inteligência artificial
(generativa) e as ferramentas que existiam até então, chamadas de IA analítica.
Textos
IA analítica: classifica e avalia textos.
IA generativa: responde a questões textuais complexas com linguagem e estrutura
gramatical natural, indistinguível da humana.
Imagens
IA analítica: faz reconhecimento facial e de imagens.
IA generativa: cria imagens originais (como as que ilustram esta página),
gráficos e vídeos, baseada nos comandos dos usuários.
Dados
IA analítica: realiza previsões e inferências estatísticas.
IA generativa: gera códigos de programação e explica como eles podem ser usados em outras aplicações.
Autores deste
trabalho: Por João Sorima Neto e Carolina
Nalin — São Paulo e Rio de Janeiro
O Globo
