HISTÓRIA DO BRASIL: MMXVII/MMXVIII/MMXIX/MMXX/MMXXI/MMXXII, O SEXÊNIO DA DESGRAÇA EDUCACIONAL - I
A gente não quer só comida, mas sem comida não dá
Não há como falar de educação sem considerar
condições alimentares básicas
Henrique gostava de rock. Mas não era aquele roqueiro chato da escola que fica sozinho no canto do recreio, com os fones de ouvido no máximo. Ele gostava de conversar com todos, principalmente sobre animes, personagens japoneses, cultura "otaku" e futebol. Torcia para o São Paulo. Apesar de sermos de Fortaleza, quase todo mundo acaba torcendo para um time do Sudeste. Na hora da merenda, a gente volta e meia fazia alguma brincadeira com o tamanho do prato do Henrique. Ele comia muito mesmo. E ainda enchia uma vasilha para levar. Morava com a mãe. O pai tinha ido embora. Um dia, no ensino médio, tivemos uma roda de conversa e Henrique desabafou. Chorou e revelou que a merenda, durante todo o tempo, tinha sido a única refeição do dia para ele e a mãe. Sem a merenda escolar, aquela família teria morrido de fome.
Henrique
é um nome fictício de uma história muito real, um amigo que mudou minha
vida. Apesar
de eu também ser de uma família pobre, da periferia cearense, até ali nunca
tinha pensado na merenda como a única fonte real de alimentação para alguém.
Mas esta é, infelizmente, a realidade de milhões de jovens e familiares no
Brasil. Além de
33 milhões de pessoas passando fome, de acordo com a Rede Brasileira de
Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan),
nosso país também vive o empobrecimento radical das crianças. Estudo do IBGE
mostra que a fome e a pobreza extrema já alcançam 46,2% da população de 0 a 14
anos. Um triste recorde.
Desde 2017, o repasse federal para a merenda não sofre reajuste. A verba é de R$ 0,36 por estudante do ensino fundamental ou médio, naturalizando a distribuição de bolacha e água, forçando dois alunos a dividirem um único ovo cozido. É urgente o reajuste de 34%, vetado de forma desumana por Jair Bolsonaro.
Precisamos
consolidar o Programa
Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) enquanto política de Estado,
integrar o abastecimento pela agricultura familiar, consolidar uma rede
saudável nas escolas. Não há como falar hoje em educação sem falar nas
condições alimentares básicas da juventude. A garantia da merenda deve ser
prioridade dos movimentos educacionais, da sociedade e dos governos.
Por isso, nós da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), lançamos uma campanha nacional em defesa da merenda e pela segurança alimentar da juventude. Em alguns estados, como o Pará, muitas escolas não têm nada para oferecer. Em outros, como o Ceará, minha terra natal e também do atual ministro da Educação, há avanços, mas ainda muito a se fazer, principalmente na qualidade e planejamento da merenda.
Infelizmente,
a urgência desse tema se sobrepõe a tantas outras da educação brasileira,
arrasada pelos anos de Bolsonaro e pelo desmonte desse ministério. Mas
precisamos do básico, das condições para podermos seguir. Como diria a famosa
música dos Titãs,
uma banda que talvez o Henrique goste, a gente não quer só comida. Mas, sem
comida, não dá. Vamos à luta!
Autora: Jade Beatriz
Estudante, é presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).
Publicado originalmente na Folha de São Paulo.
