HISTÓRIA DO BRASIL: MMXIX/MMXX/MMXXI/MMXXII, O QUADRIÊNIO DA DESGRAÇA ECONÔMICA - XXVI
A carestia tem cara:
inflação de alimentos
Alimentos acumulam alta de 447% de 2020 a 2022
A
alta de preços de alimentos acumulada entre 2000-22, sob o regime de metas de
inflação, foi de 447%, muito acima do aumento dos demais itens do IPCA, de
271%. Desnecessário explicar o quanto isso é particularmente perverso para as
camadas populares.
Há
certa similaridade entre os ciclos de inflação de alimentos entre os países. A
dinâmica de preços internacionais, notadamente de commodities (alta de 150%, em
dólar, no período analisado), é uma das condicionantes da inflação doméstica,
pela influência direta nos preços de muitos alimentos e por impactar custos de
produção — exemplo deste último foi a explosão de preços de fertilizantes, por
conta da guerra na Ucrânia.
O
que distingue o Brasil, bem como outros países não desenvolvidos, é que o
diferencial entre a inflação de alimentos e a dos demais itens da cesta do
consumidor é muito maior na comparação com o observado em nações ricas.
A
força da nossa agropecuária — como na boa safra esperada para 2023/24 — não
garante menor inflação de alimentos, sendo que as culturas mais importantes
(como soja e cana) são de produtos que proporcionam benefício modesto ao
consumidor.
É
verdade que os preços de alimentos são mais voláteis que os demais. Além dos
limites para ampliar tempestivamente a oferta de produtos agrícolas no curto
prazo, a demanda desses bens, essenciais, pouco se ajusta a variações de
preços, deixando assim de ser um freio às suas oscilações.
Como
resultado, pequenas alterações nas condições de demanda (como excessos no
estímulo fiscal) ou de oferta (como quebras de safra) podem gerar fortes
oscilações de preços. Como agravante, o real é muito mais volátil em comparação
às demais moedas globais.
No
entanto, maior volatilidade não deveria significar inflação mais elevada. Esta
última pode ser resultado da combinação entre insegurança alimentar ou consumo
reprimido de grande parcela da sociedade e baixa produtividade na economia,
inclusive de parcela de propriedades rurais.
Um
exemplo foi o ano de 2020, quando os estímulos governamentais produziram um visível
aumento da demanda de alimentos — como refletido na alta de 4,2% na produção da
indústria de alimentos, em meio ao quadro de recessão —, o que provavelmente
foi um fator decisivo para a alta de 14% desses preços.
Para
piorar, itens mais populares — com maior peso na cesta — com frequência exibem
altas muito mais expressivas, inclusive comparativamente a produtos da mesma
categoria.
Vale
citar exemplos: feijão-carioca (561%), farinha de mandioca (773%),
batata-inglesa (963%), tomate (987%), cebola (1.748%), alface (741%),
banana-prata (719%), mamão (1.176%), costela bovina (810%), sal
(883%)
e óleo de soja (634%).
Essa
pode ser uma indicação de que condições de demanda têm importante peso na
dinâmica de preços. Além disso, sugere o fracasso da política de isenção da
cesta básica, que, para piorar, é injusta socialmente, ao não focalizar nos
mais pobres.
Já
a baixa produtividade cobra seu preço particularmente para produtos que não
podem ser comercializados no exterior, devido ao custo de transporte proibitivo
de itens mais perecíveis — como tubérculos, legumes, verduras e hortaliças.
A
rentabilidade costuma ser menor, assim como o estímulo a buscar ganhos de
produtividade. Ainda que o peso na cesta seja pequeno, esse grupo registrou
inflação acumulada acima de 700% no período analisado.
Muitas
vezes, a produção agrícola ocorre em propriedades com escala de produção
inadequada, muito pequena, o que dificulta o acesso a insumos de maior
qualidade e tecnologia mais moderna, e compromete a resiliência a choques.
Há
ainda fragilidades associadas ao baixo capital humano e ao manejo inadequado em
todo o ciclo produtivo, desde a preparação do solo.
Nesses
tempos em que se discute caminhos para facilitar o trabalho dos bancos centrais
no controle da inflação, é necessário buscar formas eficientes para conter a
alta nos alimentos.
O
alicerce é o ambiente macroeconômico estável, com menor volatilidade cambial e
evitando estímulos artificiais ao consumo.
Sem
dúvida, cabe maior atenção à produtividade no campo, problema que não se
resolve simplesmente ampliando o crédito ao setor.
Precisamos resgatar o “espírito Embrapa”, com pesquisa, desenvolvimento e implementação de técnicas modernas e adequadas na produção agropecuária, e de forma disseminada.
Autora:
Zeina Latif
Jornal O Globo
