HISTÓRIA DO BRASIL - ANO MMXXIII DO QUADRIÊNIO DA ESPERANÇA: NOVA REGRA FISCAL
Cálculo considera despesas e resultado primário do governo
central para o período de 2011 a 2022
A nova regra fiscal, apresentada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na semana passada (30/03/23), teria gerado uma economia de R$ 775,3 bilhões ou de R$ 64,6 bilhões ao ano, a preços constantes de 2022.
A
estimativa é do economista-chefe da Warren Rena, Felipe Salto e do analista
Josué Pellegrini. Para o cálculo, eles consideraram os efeitos que o novo arcabouço
fiscal teria tido sobre a evolução das despesas e do resultado primário do
governo central no período de 2011 a 2022.
Em nota divulgada a clientes da assessoria de investimentos nesta segunda-feira (3), eles observam que no período de 2011 a 2022, as despesas cresceram a uma média anual de 2,5% em termos reais. Já a receita cresceu a uma média anual de 1,4%.
Também
lembram que a nova regra proposta na semana passada pelo ministro da
Fazenda, Fernando
Haddad, prevê que a despesa primária deverá crescer à razão de 70% da taxa
de crescimento real da receita líquida passada, mas flutuando entre 0,6% e
2,5%, em termos reais.
Na
simulação que eles fizeram, para o período de 2011 a 2022, a taxa de variação
do gasto foi substituída pela calculada a partir da regra de 70% do
crescimento real da receita líquida primária.
Eles também consideraram a variação real da receita líquida acumulada até junho do ano anterior para obter o limite para a despesa. Quando a despesa superou 2,5% ou ficou abaixo de 0,6%, como prevê a regra de Haddad, esses limites foram aplicados.
"O
resultado é que a taxa de crescimento real anual média das despesas teria sido
40% menor do que o quadro efetivamente observado."
Em
valores correntes, eles chegaram a uma economia acumulada no período de R$
592,5 bilhões ou R$ 49,4 bilhões ao ano. A preços de 2022, de R$ 775,3 bilhões
ou R$ 64,6 bilhões ao ano.
Uma crítica
que tem sido feita ao novo conjunto de regras que irá substituir o
teto de gastos é a da dependência de aumento da carga tributária, dizem os
analistas.
"Na
verdade, a regra de gastos determina, por construção, que a despesa crescerá
sempre a uma taxa 30% menor do que a taxa de variação da receita líquida.
Também uma meta
de [resultado] primário ambiciosa precisará ser cumprida e, aqui, cabe
a discussão de como atingi-la nos dois primeiros anos, principalmente."
Salto
considera que para eliminar o déficit primário já no ano que vem, seria preciso
um esforço fiscal adicional de cerca de R$ 105 bilhões em 2024.
"O
ministro Fernando Haddad fez um anúncio prévio de que estabelecerá a tributação
sobre jogos eletrônicos, com estimativa de R$ 12 bilhões anuais",
segue a nota.
No
governo, também são discutidas medidas no campo dos gastos tributários,
objetivo que esbarra na dificuldade de modificar benefícios antigos, dizem os
analistas.
ENTENDA EM 5 PONTOS
REGRA 1. DESPESAS TERÃO CRESCIMENTO LIMITADO
O
arcabouço estabelece que as despesas precisam crescer num ritmo menor que a
arrecadação. A porcentagem
proposta é de 70%. Por exemplo, se arrecadação crescer 1%, as despesas
federais só podem crescer 0,7%.
Para
fazer a conta de quanto poderá gastar no ano seguinte, o governo usará as
receitas primárias líquidas nos 12 meses até junho do ano em curso. (receita
primária é a receita não financeira, como, por exemplo, arrecadação tributária,
royalties e transferências recebidas de outros entes públicos; receita primária
líquida é a receita primária total menos transferências obrigatórias aos demais
entes).
REGRA 2. CRESCIMENTO DAS DESPESAS TERÁ TETO E PISO
O
crescimento real (descontada a inflação) das despesas, de acordo com a proposta
do governo, não poderá ser menor
que 0,6% nem maior que 2,5%.
Por
exemplo, se as receitas subirem 4%, ao aplicar a regra 1 o aumento permitido
para as despesas seria de 2,8% (70% de 4%), mas a regra 2 barra essa elevação
pelo teto de 2,5%. Isso impõe um limite às despesas em tempos de bonança e
aumenta a possibilidade de reduzir a dívida pública, já que sobram mais recursos.
Por
outro lado, também num exemplo, se as receitas não subirem nada nos 12 meses de
referência, a regra 1 deixa de valer e será permitido um crescimento dos gastos
de 0,6%. Isso permite que as despesas não sejam estranguladas em anos de crise
REGRA 3. DESPESAS COM EDUCAÇÃO, SAÚDE E EMENDAS SÃO
EXCEÇÃO
A
regra 1 não vale para os gastos
com saúde e educação, já que essas despesas têm regras de gasto mínimo
já estabelecidas pela Constituição. Nessas áreas, as despesas poderão crescer
no mesmo ritmo das receitas. O mesmo vale para emendas parlamentares.
REGRA 4. SE ECONOMIA NÃO FOR SUFICIENTE, APERTO NAS
DESPESAS SERÁ MAIOR
Na
sua proposta de arcabouço fiscal, o governo estabelece um compromisso de
reduzir o deficit fiscal atual (deficit fiscal ocorre quando gastos superam
receitas), zerando esse déficit em 2024 e obtendo superávit (sobra de receitas,
já que elas superam os gastos) crescente nos anos seguintes.
Esse
compromisso propõe uma margem (banda) para cima e para baixo no resultado anual
das contas públicas. Por exemplo, para 2025, o governo se compromete a obter um
superávit de 0,5% do PIB, variando de 0,25% a 0,75% (as bandas são de 0,25
pontos percentuais para menos e para mais).
Se
a economia obtida ficar abaixo da banda inferior, a regra 1 será mais apertada:
em vez de as despesas poderem crescer 70% da alta das receitas, só podem aumentar 50%.
REGRA 5. INVESTIMENTOS TERÃO PISO E PODEM CRESCER SE
ECONOMIA FOR MAIOR QUE A PREVISTA
A
proposta cria um piso de investimentos, de cerca de R$ 75 bilhões em valores de
hoje, corrigidos pela inflação de cada ano. Se a economia de recursos públicos
ficar acima da banda proposta (entenda o que é essa banda na regra 4), o
governo pode usar essa sobra de recursos para fazer mais investimentos em
obras.
Isso
aconteceria, por exemplo, se o governo obtivesse em 2024 um superávit de 3% do
PIB, enquanto seu compromisso para o próximo ano é de zerar o déficit. Como 3%
está acima da banda superior, de 2,5%, ele tem licença para investir o
excedente.
Trabalho de: Douglas Gavras
Folha de São Paulo
