HISTÓRIA DO BRASIL - ANO MMXXIII DO QUADRIÊNIO DA ESPERANÇA, VOZES DO BOM SENSO: PROF. OTAVIANO HELENE
Desigualdade e educação
Sistema escolar está excluindo do futuro
enormes contingentes de jovens
Por
volta de 1990, o Brasil chegou a apresentar a maior concentração
de renda do mundo; em nenhum outro país as diferenças entre ricos e
pobres eram tão grandes quanto aqui. Essa situação só começou a melhorar de
forma sistemática dez anos depois, mas, infelizmente, por apenas uma década e
meia. Ainda somos um
dos países mais desiguais do planeta.
Muitos
fatores influenciam a desigualdade na distribuição de renda e por ela são
influenciados. Entre eles está a educação escolar: quanto mais desigual a
distribuição de renda, mais
desigual a educação das crianças e jovens —em especial em um país como
o Brasil, que tem uma das maiores taxas de privatização da educação. E, quanto
mais desigual for a educação escolar nos dias de hoje, mais desigual será a
distribuição de renda no futuro.
Vejamos quão desigual é nosso sistema educacional. Crianças provenientes do grupo dos 20% ou 30% mais
pobres, que vivem em domicílios com renda per capita inferior a cerca de meio
salário mínimo por mês, raramente concluem o ensino fundamental regular.
Consequentemente, o rendimento futuro dessas crianças será muito baixo.
A construção da desigualdade continua ao longo do ensino
médio, cuja conclusão é rara entre
jovens da metade mais pobre da população —e os que o completam apresentam, como
regra, enormes deficiências de aprendizado.
Parte das pessoas que concluem o ensino médio tem expectativa
de continuar seus estudos e participa do Enem. Mas
mesmo nesse grupo também há enormes diferenças. Estudantes de escolas cujos
investimentos por aluno (as mensalidades, no caso das instituições privadas)
excedem os R$ 3.000 ou R$ 4.000 por mês têm nota média no Enem próxima dos 700
pontos, cerca de 100 pontos acima da média obtida pelos estudantes que
frequentam escolas cujas mensalidades ficam em torno dos R$ 2.000. E, estes
últimos, outros 50 a 100 pontos acima daqueles que frequentam escolas com
mensalidades próximas dos R$ 1.000. Uma diferença de desempenho correspondente
a 100 pontos no Enem é muito significativa e tem enorme efeito quanto às
possibilidades futuras de um estudante, fazendo com que as desigualdades
acumuladas até o final do ensino médio se prolonguem no ensino superior.
A
grande maioria dos estudantes brasileiros do ensino médio frequenta escolas
estaduais comuns. O desempenho desses estudantes é, em média, bastante baixo,
equivalente ao desempenho dos estudantes que frequentam escolas privadas com
investimentos por aluno entre R$ 1.000 e R$ 1.500 mensais, valores estes que
são cerca de duas vezes superiores àqueles das escolas públicas. Por um lado,
esse fato mostra a maior eficiência do sistema público, mas, por outro lado,
revela as deficiências de formação da grande maioria dos estudantes
brasileiros.
Nosso
sistema escolar está construindo um futuro de desigualdades e excluindo
enormes contingentes de crianças e jovens que, se continuassem seus estudos de
forma adequada, muito poderiam contribuir para o desenvolvimento social e
cultural do país e para o crescimento econômico. Assim como a realidade atual
é, em grande parte, fruto do sistema educacional do passado, nosso presente
educacional, com tantas diferenças e exclusões, definirá o futuro do país. Para
um futuro melhor, precisaríamos construir hoje um sistema escolar (bem) melhor.
Professor sênior do Instituto de Física da USP, ex-presidente do
Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) e
autor, entre outros, de “Um Diagnóstico da Educação Brasileira e de seu
Financiamento” (Autores Associados)
Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo
