O CAPITALISMO BRASILEIRO É UM AMOR, É OU NÃO É? - CAPÍTULO - XX
Vereador gaúcho diz que vinícolas deveriam contratar trabalhadores 'limpos', não 'aquela gente lá de cima'
OUTRO LADO: À Folha o vereador disse que falou demais e que voltará à tribuna nesta quarta (01/03/23) para pedir desculpas
Ao discursar na tribuna da Câmara de Caxias do Sul (RS), o vereador Sandro Fantinel (Patriota) afirmou que empresas e produtores rurais deveriam contratar funcionários "limpos" para a colheita da uva, como os argentinos, e não deveriam buscar "aquela gente lá de cima", em referência a trabalhadores da Bahia resgatados na quarta-feira (22/02/23) em situação análoga à escravidão.
Segundo o Ministério Público do Trabalho, foram 192 homens resgatados com idades entre 18 e 57 anos.
Em entrevista na noite desta terça-feira (28) à Folha, o vereador disse que "falou demais" e que voltará à tribuna nesta quarta-feira (1º) para "pedir desculpas".
A fala ocorreu na sessão desta segunda-feira (28) e gerou reação imediata de vereadores.
"Estou estupefato. É inacreditável que no parlamento da segunda maior cidade do estado do Rio Grande do Sul, que se consolidou num povoamento de imigrantes, um vereador use palavras de cunho xenofóbico, preconceituoso e discriminatório", disse o vereador Lucas Caregnato (PT), também na tribuna da Casa.
O deputado estadual Leonel Radde (PT) foi às redes sociais para dizer que registrou um boletim de ocorrência contra a fala do vereador.
"O Rio Grande do Sul e o Brasil não são lugares para escravocratas", escreveu ele. A reportagem entrou em contato com a Polícia Civil, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.
Procurado pela Folha, o presidente da Câmara de Caxias do Sul, vereador José Pascual Dambrós (PSB), não quis se manifestar.
Ao começar seu discurso, Fantinel disse que subia à tribuna para prestar solidariedade aos empresários e produtores rurais e que conhecia o problema da falta de mão de obra para o trabalho de campo.
"Essa pauta ganhou grande repercussão em função dos acontecimentos em Bento Gonçalves, que na minha visão são exagerados e midiáticos. Me deparei com uma avalanche de críticas e até ofensas a empresas e empresários do setor de vinícolas que são desmedidas e injustas. Empresas que são muito importantes para a nossa serra gaúcha e nosso país e estão sofrendo um verdadeiro linchamento virtual", disse ele.
Na sequência, ele afirma ter apenas um conselho aos empresários e produtores rurais: "Não contratem mais aquela gente lá de cima. Conversem comigo e vamos contratar os argentinos. São limpos, trabalhadores, corretos, cumprem o horário, mantêm a casa limpa e, no dia de ir embora, ainda agradecem ao patrão pelo dinheiro que receberam. Com os baianos, que a única cultura que eles têm é viver na praia, tocando tambor, era normal que fosse ter este tipo de problema. Então, deixem de lado aquele povo, que é acostumado com Carnaval e festa, para vocês não se incomodarem novamente".
Os trabalhadores resgatados trabalhavam para duas empresas que eram contratadas pelas vinícolas Aurora, Cooperativa Garibaldi e Salton. As três dizem que não tinham conhecimento da situação relatada pelos trabalhadores e que repudiam violações de direitos humanos.
À Folha Fantinel também lamentou os ataques que sua esposa e filho estariam sofrendo nas redes sociais, após a repercussão do caso.
"Eu toquei no nome dos baianos porque o processo que está correndo em Bento Gonçalves foi com os baianos. Porque se tivesse sido com os mineiros, eu teria falado sobre mineiros. Se tivesse sido com os cariocas, eu teria falado dos cariocas. Não tenho nada contra os baianos, pelo contrário. Tive nas praias de lá, é maravilhoso", disse ele.
Segundo o vereador, sua verdadeira intenção, ao subir na tribuna, era alertar para possíveis fraudes, quando trabalhadores inventariam más condições de trabalho "apenas para receber uma indenização". "Não é o caso de Bento Gonçalves, ali estava exagerado", afirmou.
Em sua biografia, no site da Câmara, o vereador informa que no ano de 2017 criou a "Comissão Pró-Bolsonaro 2018, um grupo de empresários de direita que desejavam mudanças no país".
O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), também se manifestou sobre o episódio, em uma rede social, e disse que determinou "a adoção de medidas cabíveis".
"Hoje, um vereador do Rio Grande do Sul defendeu o trabalho escravo nas vinícolas do estado e ainda foi xenofóbico e racista com baianas e baianos. Eu repudio veementemente a apologia à escravidão e não permitirei que tratem nenhum nordestino ou baiano com preconceito ou rancor", escreveu.
Publicado no jornal Folha de São Paulo
Mais informações:
Investigados por exploração de trabalho análogo à
escravidão controlam rede de empresas de serviços na Serra
Dono de pousada e
empregador de safristas são parceiros em intermediação de mão de obra, mas
também atuam em outros ramos
Policiais e fiscais do trabalho que resgataram em Bento Gonçalves centenas de safristas da colheita da uva mantidos numa pousada em
condições degradantes, na semana passada, depararam com dois nomes que se
repetiam nas queixas dos trabalhadores (quase todos baianos). Um deles é do
empresário que contratou eles para atuar nos parreirais: Pedro Augusto Oliveira
de Santana, que também é baiano e teria se especializado em providenciar mão de
obra barata, formada por conterrâneos, para diversas atividades na serra
gaúcha. É chamado pelos nordestinos de "gato" (ou coiote),
intermediador de serviços e gente. O outro mencionado é o dono do alojamento
onde os homens eram mantidos em condições insalubres (com banho frio, comida
ruim e dormitório sujo): Fábio Daros, comerciante conhecido em Bento Gonçalves.
A reportagem percorreu três
municípios serranos onde os dois atuam e descobriu que Santana e Daros têm uma
característica em comum: versatilidade. Eles mantêm uma rede de empresas que,
em alguns casos, se comunicam (como é o caso da pousada que recebe os
migrantes). Daros tem também uma revenda de carros e consta no CNPJ como sócio
de Santana numa lotérica, tudo em Bento
Gonçalves. Daros nega essa sociedade.
A pousada de Daros é o local
preferencial de alojamento para os empregados contratados por Santana para
atuarem na Serra. O empresário começou a carreira no Sul, há cerca de 10 anos,
intermediando trabalhadores na indústria do abate de aves para descarregar os
animais dos caminhões. A sua empresa, a Oliveira e Santana Ltda, foi autuada 20
vezes por más condições de trabalho. Esses carregadores substituem outros
migrantes cuja mão de obra barata era disputada anos atrás na região: os
haitianos e senegaleses. A maioria voltou para seus países de origem. Com isso,
os nordestinos viraram os trabalhadores braçais do momento na Serra, assim como
indígenas.
De dois anos para cá, Santana
investiu na contratação de safristas da uva, conterrêneos seus da região de
Valente (Bahia). Para isso fez uso de uma nova empresa, a Fênix Serviços
Administrativos e Apoio à Gestão de Saúde Ltda (flagrada agora por manter trabalhadores
em péssimas condições). Ao ser questionado, disse que é apenas administrador da
Fênix, não proprietário. Na razão social, a empresa usa o e-mail da esposa de
Santana, Daiane Oliveira Santana — o casal não consta como sócio, porém, a
empresa tem sede no mesmo local de outras que eles são sócios e proprietários.
Enquanto a Oliveira e Santana
atuava o ano todo, a Fênix se especializou em trabalho sazonal, que é o caso da
safra da uva. Ambas suprem a escassez de mão de obra na Serra. À reportagem, as
vinícolas declararam ter pago valor acima de R$ 6,5 mil/mês por trabalhador,
acrescidos de eventuais horas-extras prestadas.
Só que não é isso que os
trabalhadores relatam. Em depoimentos ao Ministério do Trabalho e à Polícia
Federal, falaram que a promessa era de R$ 3 mil líquidos, banho quente e
horas-extras. Em poucos dias depararam com comida rançosa, banho frio, jornadas
de trabalho de até 12 horas diárias e endividamento constante para comprar
materiais de higiene e alimentos, que eles mesmos tinham de adquirir num
mercado indicado pela própria empresa, a preços exorbitantes, porque não lhes
foi fornecido nem água para tomar na lavoura. Asseguram ainda terem sido
agredidos ao reclamarem das condições de trabalho. Os trabalhadores contaram
que eram impedidos de deixar o trabalho em virtude dessas dívidas. E suas
famílias que ficaram na Bahia também eram alvo de ameaças.
— Pelo que apuramos na
documentação, as vinícolas dizem que pagaram em torno de R$ 6 mil por mês para
cada trabalhador, o Santana acertou pagar R$ 2 mil e, no final, eles não
receberam nada e se endividaram — resume o gerente do Ministério do Trabalho na
Serra gaúcha, Vanius Corte.
Empresas têm os mesmos endereços
A ligação entre a Fênix e a
Oliveira e Santana não está apenas no nome dos sócios. As duas empresas têm
sede, conforme o CNPJ, no mesmo prédio, no bairro Juventude, em Bento
Gonçalves. Num edifício contíguo funcionam outras duas empresas administradas
por Santana, na mesma rua: uma prestadora de serviços e uma firma de marketing esportivo.
Nesse local, onde deveriam estar essas empresas, fica um templo pentecostal.
Contra essas não há registro de irregularidades.
Além das quatro empresas das quais
são sócios em Bento Gonçalves, Santana e sua esposa figuram no quadro
societário de outras duas empresas situadas no bairro Tamandaré, em Garibaldi:
uma fábrica de caixas e embalagens e uma de transportes. No mesmo endereço
constam outras duas empresas, que seriam de familiares de ambos, uma de
artefatos de madeira e outra, prestadora de serviços. Contra essas também não
há registro de irregularidades.
Por fim, Santana e a esposa constam
como sócios de uma lotérica na área central de Bento Gonçalves. Desde 2021, o
dono da pousada onde foram encontrados safristas contratados por Santana, Fábio
Daros, consta como sócio do casal Santana no ponto de venda de loterias. À
reportagem, ele negou qualquer sociedade com o casal da Bahia.
Tanto Daros como Santana são
investigados, pela Polícia
Federal, pelo Ministério do Trabalho e pelo Ministério
Público do Trabalho (MPT), por exploração de trabalho análogo à escravidão. Em
depoimento no dia em que foi preso e pagou fiança, Santana optou por ficar em
silêncio. À reportagem informou que "não tem condições de falar
ainda".
