HISTÓRIA DO BRASIL - ANO MMXXIII DO QUADRIÊNIO DA ESPERANÇA, VOZES DO BOM SENSO: PAULO ARTAXO
"O
que falta é um governo que se preocupe realmente com a emergência climática e
com a sua população mais carente." É assim que Paulo
Artaxo, físico e professor da USP, define as estratégias adotadas para
prevenir eventos climáticos extremos, como as chuvas que provocaram
deslizamento de moradias e mais
de 60 mortes em São Sebastião (SP) em fevereiro.
As
responsabilidades para a proteção das populações vulneráveis e prevenção
de desastres devem partir dos níveis municipais, estaduais e federais,
afirma.
"Não
é uma questão da falta de ferramentas. O que falta é uma melhor integração
entre as defesas civis, as prefeituras, o governo estadual e o governo federal
quando ocorrem eventos climáticos extremos."
Artaxo é um dos membros do IPCC, o Painel Internacional para Mudanças Climáticas da ONU que elabora há 20 anos relatórios sobre os efeitos do aquecimento global e das mudanças climáticas no mundo.
O último
relatório, lançado na segunda (20), foi taxativo ao dizer que alguns dos
efeitos são irreversíveis, como o aumento do nível do mar e o impacto nas
florestas, mas também avaliou
que ainda é possível agir para conter —em parte— os estragos.
"Não
é possível mais limitar o aquecimento global a 1,5°C ou 2°C até o final do
século. Mas é possível limitar a 2,5°C. Hoje estamos com uma temperatura da
ordem de 3°C até a segunda metade do século."
Formado
em física pela Universidade de São Paulo, Artaxo dedicou sua vida ao estudo
da Amazônia e
das mudanças climáticas globais. Ele afirma que ações mais contundentes das
autoridades em todo o mundo não ocorreram até agora devido à forte pressão das
empresas petrolíferas e do mercado financeiro global.
O que o senhor achou dos novos dados do relatório do IPCC? O relatório deixa claro que existem processos que são irreversíveis e enfatiza a urgência de reduzir emissões globais: ele fala de irreversibilidade, em particular na questão do aumento do nível do mar, e da destruição dos ecossistemas, em especial das florestas tropicais.
Paulo
Artaxo, professor da USP e membro da equipe do IPCC agraciada com o Prêmio
Nobel da Paz de 2007 - Arquivo pessoal
Reduzir
as emissões e frear o desmatamento para diminuir a temperatura média global é
uma meta realista? Não há maneira mais rápida, fácil e barata de reduzir as
emissões de gases-estufa do que essencialmente cortar o desmatamento
de florestas tropicais. Por isso que os países estão investindo tanto
no Fundo
Amazônia.
Já
quanto à redução na queima
de combustíveis fósseis, já dispomos de todas as tecnologias necessárias,
não precisamos desenvolver nada novo, e é possível cortar a queima de
combustíveis fósseis se as indústrias associadas com a queima de petróleo
permitirem que isso aconteça.
É possível limitar o aquecimento global a 1,5°C ou 2°C até o fim do século? Não. Não é possível mais. É preciso agora trabalhar com outro panorama. Na atual taxa de emissão, segundo os cientistas, vamos atingir uma temperatura da ordem de 3°C na segunda metade deste século.
Essa
é a trajetória que estamos indo hoje. Se ela vai mudar na próxima década, e eu
espero que sim, podemos tentar limitar o aquecimento a 2,5°C. Mas 1,5°C e 2°C
já é impossível.
O
que é importante no último relatório é que ele guarda um espaço para a questão
das soluções, mostrando que já temos as soluções para reduzir as emissões pela
metade.
Agora,
por que isso não é implementado? Os governos só atendem ao interesse da
indústria, em vez de atender
os interesses das populações que os elegeram. Isso vai ter que mudar e
quanto mais rapidamente conseguirmos mudar isto, melhor para nós.
De que maneira o Brasil sofre os impactos das mudanças climáticas? Existem programas estudados para tentar mitigar seus efeitos? O Brasil é um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas por uma série de razões: primeiro pela sua localização tropical, ou seja, sua alta temperatura média, muito acima da encontrada em países do hemisfério Norte.
Nossos
ecossistemas naturalmente já sofrem com estresse
hídrico e de temperatura. E isso só tende a aumentar com o aumento
do aquecimento global.
Em
relação aos programas, diversas cidades, como Santos (SP) e Rio de Janeiro,
possuem planos para lidar com o aumento do nível do mar, porque a própria sobrevivência
delas pode estar em risco. Mas estas são iniciativas isoladas, municipais.
Sem
dúvida, precisamos de ações em todos os níveis: municipal, estadual e federal.
A nova autoridade climática federal está reativando o Plano
Nacional de Adaptação às Mudanças Climáticas [criado em 2016], vamos
ver o que eles conseguem fazer.
O que falta no Brasil para implementar essas ações? O que falta é realmente ter um governo que se preocupe com a emergência climática, com a sua população, particularmente com a sua população mais carente, mais vulnerável, e que infelizmente não foi o que tivemos ao longo dos anos.
Existe um mito popular que o Brasil, apesar de ser um país tropical, é abençoado por não ter furacões ou terremotos. O que o sr. acha dessa afirmação? É uma bobagem. Os eventos climáticos ocorrem aqui, estamos cansados de ver secas intensas e inundações, como as que atingiram a Bahia, Minas Gerais, e outras, assim como as estiagens que ocorrem em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
Não
existe isso de dizer que aqui não há eventos, muito pelo contrário, o Brasil é
suscetível às mudanças climáticas de uma maneira muito forte.
Quais são
as ferramentas hoje utilizadas para monitorar eventos extremos e minimizar seus
efeitos? Hoje os
modelos climáticos conseguem prever, em geral, eventos
climáticos extremos com tempo suficiente para que a Defesa Civil possa
atuar na proteção da população
mais vulnerável.
O que
falta é uma melhor integração entre as defesas civis, as prefeituras, o governo
estadual e o governo federal quando ocorrem eventos climáticos extremos.
Por
exemplo, no caso da Barra do Sahy [em São Sebastião, no litoral norte de SP, em
fevereiro], a própria imprensa noticiou que menos
de 2% dos recursos disponíveis para adaptação e prevenção foram utilizados.
Isso é um absurdo.
Já vemos uma maior desertificação no Norte e Nordeste do país, com aumento de estiagens, enquanto no Sul e Sudeste têm crescido a ocorrência de chuvas intensas. No entanto, as estiagens parecem ser uma preocupação menor dos governos. Como o sr. classifica isso?
Na verdade, a problemática das estiagens é mais complexa do que a de grandes inundações, então essa é a razão pela qual há menos ação. Agora, ambas devem ser enfrentadas. O problema é que não há continuidade.
É possível traçar uma relação do desmatamento com a maior ocorrência de eventos climáticos extremos, a exemplo do que houve recentemente em São Sebastião (SP) e Manaus? Sim. Este último relatório [do IPCC] deixa bem claro na questão da atribuição que o aquecimento global está causando aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos. E é por isso que ocorrem as precipitações além do esperado.
Estamos
vendo chuvas
muito mais intensas, secas mais fortes e prolongadas, causadas pela
alteração da circulação atmosférica associada ao aquecimento global.
Esse
conhecimento é recente ou já se sabia há décadas? Os seis relatórios do IPCC
publicados ao longo dos últimos 20 anos fazem um alerta claro daquilo que já
estamos observando, que é um aumento de eventos
climáticos extremos. Isso não é para o futuro, são questões que estão
ocorrendo hoje.
A falta
de ação dos governos se deve basicamente porque a maior parte dos interesses
políticos do governo é voltada para proteger a população de mais alta
renda, não é direcionada para os mais vulneráveis.
Isso
acontece porque os governos são controlados, no caso do Brasil, pelo avanço do
desmatamento, e dos países europeus e Estados Unidos, pela indústria
do petróleo. Sem uma mudança de paradigma em direção à sustentabilidade
social, econômica e ambiental, nós não temos saída.
RAIO-X
Paulo
Eduardo Artaxo Netto, 69
Professor
do Instituto de Física da USP, é também vice-presidente da Academia de Ciências
do Estado de São Paulo e vice-presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência). Membro do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas da ONU) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC), desenvolveu sua
carreira trabalhando com Amazônia e mudanças climáticas globais.
O projeto
Planeta em Transe é apoiado pela Open Society Foundations.
Trabalho de: Ana Bottallo Bióloga, possui mestrado em zoologia e doutorado em paleontologia pela Universidade de São Paulo e Museu de História Natural de Paris (França). Cobre ciência e saúde na Folha desde 2020. Assina também a newsletter Cuide-se, com novidades sobre saúde, bem-estar e ciência.
Publicado
originalmente no jornal Folha de São Paulo
