HISTÓRIA DO BRASIL - ANO MMXXIII DO QUADRIÊNIO DA ESPERANÇA, VOZES DO BOM SENSO: LUIZ GONZAGA BELLUZZO
Problema do Banco Central é mais complexo do que torcida de futebol, diz Belluzzo
Para economista, debate sobre juros e inflação precisa ser aprofundado
O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que tem defendido a queda dos juros, inclusive em abaixo-assinado, ecoando as falas de Lula nas últimas semanas, afirma que o debate precisa ser aprofundado para não se restringir ao clima de torcida pró ou contra o Banco Central. "Isso só é verdadeiro na arquibancada de futebol", diz.
Ele vê insumos para o debate na
história dos banco centrais e analogias globais.
Amigo de Lula desde os anos
1970, Belluzo não comenta se tem conversado com o presidente sobre o tema.
O sr. tem apoiado a defesa da queda na taxa de juros, inclusive em abaixo-assinado. Como avalia o debate hoje? Vamos aprofundar as discussões para que o debate não fique restrito ao nós contra eles ou ao Banco Central contra Lula. A Austrália está submetendo a questão da independência do BC a um debate mais profundo. Há um questionamento global em relação à política de metas de inflação.
Desde o
surgimento do [BoE] Banco da Inglaterra, em 1694, foram várias formas de
atuação dos bancos centrais. Estou falando em uma economia monetária financeira
capitalista. Ao longo da história, ela assumiu várias formas de coordenação,
mas algumas são bem consolidadas.
Temos o
aparecimento da dívida pública como instrumento de riqueza privada, que
propagou as relações monetárias, quando a Inglaterra transitava do feudalismo
para o capitalismo, transformou as relações econômicas, de relações do domínio
da riqueza fundiária para a monetária. Essa gestão assumiu várias formas.
Funcionou bem,
depois saiu da moda no choque do petróleo e do choque de juros de 1979. Agora,
está havendo uma espécie de inconformidade com a política de metas. Não é só no
Brasil.
Qual é a
questão central?Estamos observando um desacordo dos
instrumentos de política econômica, sobretudo no que diz respeito ao combate da
inflação em relação a preservar uma certa indenidade das economias, do seu
crescimento diante das políticas monetárias.
São muitos os
economistas que não perfilham essa sabedoria de alguns, sobretudo os mais
ligados ao mercado, como o [Joseph] Stiglitz. Ele escreveu vários artigos recentemente
sobre a inadequação da política monetária para combater esse tipo de inflação
que temos aí. Não só ele. O que eles dizem é que isso é um choque de oferta,
que tem uma capacidade de difusão pela economia, porque foi decorrente de uma
contração da oferta e de uma subida de preços dos combustíveis fósseis.
Então, a
questão é essa: um choque de um insumo universal que atravessa a economia como
um todo e não preserva nenhum setor. A energia é um insumo universal. O preço
dela não é como o preço da mexerica ou de um sapato, que afeta pouca gente
quando sobe. Mas a energia afeta a tudo e provoca uma transformação do sistema
de preços.
O sistema de
preços é uma coisa nessa economia monetária financeira tão suscetível a
mudanças, distorções e degradações, que exige, às vezes, a intervenção, quando
o choque é muito intenso. E nós já observamos essa reação, na saída da Segunda
Guerra, para fazer a coordenação de preços, dada a assimetria da saída dos
setores, isso provocou choque de oferta etc.
Os economistas, inclusive Nouriel Roubini, estão considerando isso, fazendo a crítica do uso da política monetária de maneira tão intensa, você abrindo mão de outros instrumentos que se podem usar e que foram usados.
Por
exemplo? Aqui houve uma discussão sobre o fundo de estabilização do petróleo. A ideia é que se fizesse uma
coordenação de preços, e não controle, mantendo a rentabilidade da empresa e,
ao mesmo tempo, cumprindo esse papel de um combustível fóssil, que na verdade é
de interesse público. A energia é um insumo de interesse público.
Voltando à
questão da inflação, houve um debate muito amplo no passado. Eu falei do
pós-guerra, os alemães, sobretudo, que sofriam as lembranças da grande
inflação, fizeram sistema de coordenação de preços na negociação entre
trabalhadores e empresários. O banco central da Alemanha, Bundesbank, só
decidia a taxa de juros depois de ter auscultado a negociação entre eles. É uma
organização social. Se negociava salários e depois o Banco Central decidia a
taxa de juros.
Aliás, os
bancos centrais usavam pouco a taxa de juros. Usavam muito mais o controle
quantitativo do crédito. O que eu quero dizer é que é um problema mais complexo
do que está posto aí de a favor do Banco Central ou contra ele. Isso só é
verdadeiro na arquibancada de futebol. É torcida de um contra outro.
O debate
entrou nessa área da torcida pelos sinais do presidente do BC com o
bolsonarismo, não?Sem dúvida. O problema é que, em geral, se
parte do princípio de que a economia é uma ciência restrita a considerações
técnicas. A política faz parte da vida da sociedade. O BC é uma instituição de
Estado. A construção dessas instituições faz parte do jogo de regulação do
mercado. Elas são também instituições políticas.
Se está
falando dessa convivência do presidente do BC, que, aliás, foi escolhido pelo
Bolsonaro, mas ele, sobretudo, devia fidelidade ao Paulo Guedes, que é um economista com origem de
formação da Escola de Chicago, quantitativista. O caráter técnico do BC também
está em questão.
O mercado é
uma entidade mesmo. Eles repetem esses mantras e isso reflete o poder que os
mercados financeiros têm na economia e na sociedade hoje. Não estou falando que
é do mal ou do bem. Funciona assim porque em uma economia monetária financeira,
a alocação de recursos, a distribuição, é feita através da avaliação dos
mercados financeiros, que determinam o destino do crédito e cumprem o papel de
regular a valorização ou impedir a desvalorização dos ativos financeiros, que
nascem do crédito, porque quando você faz um empréstimo, cria uma dívida, e ela
tem mensuração nos mercados. Então, tem um poder enorme.
É uma das razões pelas quais, no pós-guerra, depois da crise de 1929, se fez repressão financeira, ou seja, um controle dos mercados financeiros que não permitam, por exemplo, que se tenha maluquices como a crise de 2007 e 2008.
Se observarmos
os 30 anos depois da Segunda Guerra, houve raras crises. Depois que se soltou o
bicho, é do instinto dele, começa a acumular riqueza monetária de maneira, às
vezes, alavancada, abusiva. Por isso o controle da finança é importante. E o
que prevalece hoje é a ideia de que os mercados são eficientes. Depois dos anos
1980, tivemos uma sucessão enorme de crises.
O que estamos
vendo agora é que nós temos o risco de uma crise de crédito. E ela surge por
muitas razões, inclusive uma em que você alavanca o endividamento, e a renda
das pessoas e a receita das empresas não acompanha. Vai se acumulando uma condição de inadimplência. Tem muitas pequenas e médias empresas
ameaçadas. Acho que isso está começando a transparecer mesmo nos mercados.
O sr. tem
proximidade com o presidente Lula. Chegou a conversar sobre isso com ele? Não posso falar essas coisas em entrevista.
Há muitas
interpretações sobre as intenções dele e o resultado, não?Eu tenho notado que o clima deu uma esfriada. Acho que
essa conversa do Haddad com o pessoal do mercado foi colocando as coisas em um
nível mais razoável.
Raio-X
Formado em
direito pela USP, o economista foi secretário de Política Econômica do
Ministério da Fazenda durante o governo José Sarney. No estado de São Paulo,
passou pelo cargo de secretário de Ciência e Tecnologia (1988-1990). Além de
professor titular de economia da Unicamp, foi um dos fundadores da Facamp
Trabalho de Joana Cunha do jornal Folha de São Paulo
