O CAPITALISMO BRASILEIRO É UM AMOR, É OU NÃO É? - CAPÍTULO - VII
"Tomei cadeirada e spray de pimenta" diz homem agredido após denunciar situação análoga à escravidão em Bento Gonçalves, RS
Operação conta com apoio da PRF e da Polícia
Federal para identificar trabalhadores que operavam na colheita da uva e no
abate de aves
Era 20h de
terça-feira (2/02/2023), quando Marcelo* viu
em uma ligação a oportunidade de fugir. Ele estava sendo agredido, após
divulgar, em um grupo de rede social, um vídeo relatando que era obrigado a
trabalhar com roupa molhada e que era alimentado com comida estragada. A
situação, caracterizada pelo Ministério
do Trabalho e Emprego (MTE) como análoga à
escravidão, ocorria desde o início do mês em Bento
Gonçalves.
Marcelo* aproveitou que os homens
que o agrediam foram atender uma ligação e pulou de uma janela, correndo até um
mato próximo do local onde estava. Ele e mais dois trabalhadores, que estavam
com ele, aguardaram até 3h da manhã desta quarta (22) para sair pedindo ajuda.
Eles conseguiram, através de um telefone que ficou escondido em um dos
trabalhadores, entrar em contato com a família, em Salvador
(BA), receber uma transferência bancária para conseguir ir até a
rodoviária pegar um ônibus. Pararam em Caxias do
Sul, onde foram ajudados pela Polícia
Rodoviária Federal (PRF).
O trabalhador baiano veio para a
Serra gaúcha atrás de uma oportunidade de trabalho e de sustento que parecia
boa, com salário de R$ 3 mil, com alimentação e alojamento inclusa.
— Ele (o aliciador que trouxe os trabalhadores)
enviou um link geral, que caía em qualquer site, em qualquer aplicativo. Aí um
colega meu, pelo fato de eu, todos os dias, pedir a ele um trabalho, ele viu
esse link e falou. Eu disse para ele mandar para mim, de primeira eu vi R$ 3
mil limpo, com comida, café da manhã, alojamento, sem gasto nenhum, tudo na
conta deles. No dia que a gente veio ele (o aliciador) fez aquela palestra, uma
reunião mentirosa, fazendo uma fantasia, fez a nossa mente — relata Marcelo*,
que viajou por quatro dias e meio até Bento Gonçalves.
Ele conta que, ainda na estrada,
começou a notar que a realidade não era como prometida. O gasto com comida nas
paradas - em lugares caros, segundo ele - já estava sendo descontado do
salário. A promessa de banho quente e descanso ao chegar também não foi
concretizada, Marcelo* afirma que o banho era em uma torneira gelada e que
foram acordados duas horas antes do combinado para ir para o trabalho.
— Tinham dito que íamos acordar 6h
da manhã para trabalhar, mas não aconteceu nada disso. Às quatro horas nós
estávamos sendo acordados para ir trabalhar. Logo no primeiro café da manhã
faltou pão e café para trabalhadores, não só na roça que eu trabalho —
complementa.
O trabalhador diz que conseguiu
relevar na primeira semana, achando que melhoraria, mas ao longo das semanas
seguintes, foi ficando revoltado com a situação. Foi quando decidiu gravar o
vídeo, que acabou sendo motivo de violência e de ameaça de morte.
— Tomei cadeirada, spray de
pimenta, estou com os dentes moles. Eu escutei eles falando que um carro estava
vindo para levar para me matarem. O tempo dos escravos eu não vivi, acho que
nem minha bisavó viveu. Hoje vai existir escravo de novo? Não vai. O que
depender de mim, não vai, eu vou abrir minha boca, eu vou falar que 'tá' errado
— defende Marcelo*.
Enquanto o trabalhador fugia, o
grupo que veio com ele era ameaçado para falar seu paradeiro.
— Eles falavam 'você vai ter que
dar (o número do telefone) ou você vai morrer. Todos que vieram com ele vão ter
que morrer' — conta Tiago*,
que fugiu na madrugada desta quarta, para Porto Alegre, com medo da morte.
Tiago* conta que o grupo era do
mesmo bairro e alguns da mesma família. Além das péssimas condições de
alojamento, eles trabalhavam das 5h às 20h, sem pausa, com direito de folga
apenas aos sábados — entretanto, eram obrigados a assinar no ponto que folgavam
também aos domingos.
— Eles nos acordavam gritando 'bora
seu demônio, dormiu a noite inteira e 'tá com preguiça?'. Era um bocado de
gente num quarto só, um abafamento, não tinha ventilador, não tinha TV, comida
ruim. Uns dormiam no chão, porque o quarto estava cheio — diz Tiago*.
Além de Marcelo* e Tiago* outros
150 trabalhadores foram encontrados em situação análoga à escravidão na noite
desta quarta. O número pode aumentar, de acordo com a PRF, em função da chegada
de outros trabalhadores que trabalham à noite. A operação, que segue
acontecendo no bairro Borgo, conta com agentes da PRF, Polícia
Federal e MTE. Todos os baianos estavam com vínculo empregatício com
uma prestadora de serviço, que atua na colheita da uva e no abate de
aves.
Até o momento, a reportagem não
conseguiu contato com os donos da prestadora de serviço e da pousada em que os
trabalhadores estavam.
*Para
preservar a identidade dos trabalhadores, foram utilizados nomes fictícios.
Reportagem
de: VITÓRIA LEITZKE
Publicado no jornal Z.H.
