O TERRORISMO POLÍTICO E A ECONOMIA
PIB em
baixa pode tirar apoio e tempo que intentona terrorista deu ao presidente
A intentona terrorista de 8 de janeiro teria causado uma comunhão democrática instantânea, um ajuntamento de apoios políticos e sociais que também beneficiaria Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente, um fiador da democracia, teria ganhado mais tempo para assentar seu governo, que começou sob críticas ao caráter restrito do que antes se prometia ser uma "frente ampla", na economia e na política.
É uma análise que se ouve por
aí. Pode-se especular de maneira razoável que não há tempo. Nem Lula, nem o
país democrata, nem a pobreza
ainda mais degradada por uma década sem
crescimento têm tempo.
Como se não bastassem os quatro
anos de agitação e propaganda de Jair
Bolsonaro, os dois meses e meio depois da
eleição comprovaram a organização golpista. Para citar o óbvio, houve quebra-quebra
diante da Polícia Federal no dia da diplomação de Lula, tentativa de ataque
a bomba ao aeroporto de Brasília, depredação
de torres de transmissão de eletricidade,
movimentos para bloquear a distribuição de combustíveis e envolvimento de
militares na intentona.
O ministro da Fazenda, Fernando
Haddad (PT), e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em encontro para
assinar medidas econômicas - Pedro Ladeira/Folhapress
Um mero começo de investigação encontrou
um decreto golpista na casa do ex-ministro da Justiça de Bolsonaro. Parlamentares da extrema direita, a
maioria abrigada no PL, continuam a apoiar a subversão. Em recados pela
imprensa, oficiais-generais dizem que são intocáveis.
Pesquisas de opinião mostram
que o eleitorado bolsonarista de 2022 quase inteiro desaprova Lula. Eleitores
lulistas desesperados, impacientes ou "terceira via" podem se
desencantar. Governar desgasta.
Desgasta ainda mais nesta
situação socioeconômica ruim. A economia esfriou no quarto trimestre de 2022;
talvez tenha encolhido. A taxa de juros alta, que assim permanecerá até o final
deste 2023, a incerteza sobre a política econômica de Lula 3 e a lerdeza
mundial sugerem por ora um crescimento de 1% do PIB neste ano.
O aumento do número de pessoas
empregadas, se ainda ocorrer, não será bastante para reduzir a taxa de
desemprego, se tanto, com provável estagnação dos salários, ainda nos níveis
mais baixos desde 2012. A inflação ainda deve aumentar quase outros 6% neste
ano, com níveis de preços já altos.
Seria quase inevitável um
aumento de impostos, qualquer o governo, que
deve ser a via preferencial de ajuste fiscal de Lula 3 (com menos ênfase em contenção de gasto). É um sinal
amarelo de conflito, que não deve melhorar com as tentativas de setores
empresariais e da elite profissional de fugirem das consequências (necessárias)
da reforma tributária.
Empresários, em particular
bolsonaristas, já tentam derrubar as mudanças propostas pelo ministro Fernando
Haddad (Fazenda) no sistema de solução de contenciosos da Receita Federal
(Carf). A tentativa de tributar lucros e dividendos e de voltar a cobrar certos
impostos é mais fonte de conflito.
O governo
(e a economia e o ambiente) precisa da volta de impostos sobre combustíveis,
cortados pela demagogia bolsonarista. É um assunto que já animou milícias
caminhoneiras e locautes de empresas de transporte.
Em
fevereiro, o Congresso volta a funcionar, com lideranças reeleitas,
"empoderadas" e mais dispostas a arrancar benefícios de Lula (a
mexida no butim das emendas de relator não foi digerida). Há partidos
negocistas para cevar com cargos. A ver se a ameaça golpista ainda muito viva,
investigações policiais, de Bolsonaro inclusive, e uma CPI mudam esse cenário.
Golpistas
diversos podem se animar com uma perda de prestígio de Lula. A fim de evitar o
risco, (também) o presidente precisa varrer a subversão, desbolsonarizar o país
e deixar logo de bobagens na economia.
Autor: Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo
