META DE INFLAÇÃO IRREALISTA: QUEM PERDE, QUEM GANHA
Meta de Inflação Irrealista: Quem Perde, Quem Ganha.
O conservadorismo das “regras do jogo” do regime de meta de inflação é a favor do Private Banking e contra a maior parte da população
Quanto à crítica dirigida à baixa meta de inflação, Lula está certíssimo! Isto embora ele não seja infalível e/ou sobrenatural como os idolatras apresentam O Mercado: onipresente, onipotente e… onisciente, antes das ignoradas inconsistências contábeis da rede varejista Americanas.
A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para 2022, a meta para o IPCA estava em 3,5%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual. Dessa forma, a inflação poderia ficar entre 2% e 5%. O Relatório de Inflação, publicado em março pelo BCB, estimava o IPCA atingir 8,8% em 2022. Atingiu 5,79% por causa da política eleitoreira dos preços de combustíveis – e não só pelos juros disparatados.

Pelo gráfico com a evolução da taxa de inflação (IPCA), desde 2004, apenas em dois anos (2015 e 2021) ela ficou muito acima da meta. Do mês inicial (março de 1999) do regime de meta de inflação até “a freada para arrumação” do primeiro governo Lula, isto é, no fim de 2003, a taxa média mensal de inflação ficou em 8,6% aa. Nos 228 meses seguintes até dezembro de 2022, essa taxa média ficou relativamente estável em torno de 5,8%, ou seja, a sociedade brasileira acostumou-se a conviver com essa inflação inercial.
Cabe, na atual conjuntura mundial, forçá-la a baixar para o centro da meta escolhida por livre arbítrio do CMN em circunstâncias totalmente distintas do atual fenômeno inflacionário global?!
Entre as doze maiores economias, cujo PIB brasileiro caiu no ranking para 12º lugar, a taxa de inflação do país só ficou acima da China (1,8%), Japão (4%), Coréia do Sul (5%) e praticamente empatou com a Índia (5,72%). Ficou abaixo da norte-americana (6,5%) e da Zona Euro (9,2%). Portanto, está alinhada com elas – e não “fora da curva”.
Em compensação, a taxa de juro brasileira em 13,75% aa é, disparadamente, a maior entre elas, bem distante da segunda maior (Rússia com 7,5% aa) e terceira (Índia com 6,25% aa). Como referências, a norte-americana é 4,5% aa e a europeia 2,5% aa.
O juro real brasileiro em 8 pontos percentuais (grosso modo) é o maior do mundo! A pergunta-chave é “quem ganha e quem perde” com ele?
Com a resposta, dedutivamente, veremos por qual razão os economistas neoliberais, representantes dos executivos do mercado financeiro (“Faria Limers”), pautam o jornalismo econômico em defesa ferrenha da manutenção irrealista da meta de inflação, implantado no Brasil há quase ¼ de século. “Faça sol” (tentativa de retomada do crescimento), “faça chuva” (recessão ou depressão deflacionária), ela seria inatacável!
As dívidas familiares explodiram, após a pandemia, e ficaram mais caras por conta da forte elevação da taxa de juros. Segundo a PEIC-CNC, na média de 2022, atingiu-se o recorde de 77,9% das famílias com alguma dívida, 14 pontos percentuais de alta na proporção de endividados, em relação a 2019, antes da pandemia.
O cenário mudou a partir de 2019. Antes do governo populista de extrema-direita, o endividamento das famílias seguia tendência de queda (de 62,5% do total das famílias em 2013 para 60,3% em 2018), especialmente entre os mais pobres.
As dívidas cresceram com mais intensidade nas faixas de renda abaixo de dez salários-mínimos, onde houve forte aumento frente ao piso da série histórica em 2018 (61,6%), atingindo 78,9% das famílias. As mais ricas (acima da citada faixa), elevaram de 71,7% em 2017 para 74,3% em 2022.
Listam-se três motivos para o aumento do endividamento familiar: 1) necessidade diante da pandemia e seus efeitos sobre desemprego e fechamento dos negócios; 2) retomada do consumo reprimido nos tempos de lockdown; 3) inovações tecnológicas dos meios de pagamento e de experiência dos usuários com cartões de crédito à farta.
A cada R$ 1.000,00, o brasileiro gastou, em média, R$ 302,00, ou seja, 30,2% da renda com o pagamento de dívidas. Sete em cada dez famílias comprometeram pelo menos 10% do orçamento com dívidas. Pior, 21,5% dos endividados necessitaram de mais da metade da renda para pagar as dívidas.
Nas faixas de renda mais altas, os números de “muito endividado” caem praticamente pela metade (de 19,4% para 9,2%), sugerindo o superendividamento estar mais concentrado entre os mais pobres. Comprometem mais da metade da renda mensal com pagamento de dívidas.
Houve um recorde de famílias com dívidas atrasadas: a cada dez famílias, três atrasaram algum pagamento. Cerca de 43% dos consumidores inadimplentes atrasaram dívidas por mais de 90 dias. A proporção dos “sem condições de pagar” dobrou frente a 2014, quando 6,3% foi o menor nível da série.
Níveis de atraso nas duas faixas de renda são recordes, mas percentual das famílias de renda mais baixa com contas atrasadas chega a 32,3%, enquanto nas famílias de renda mais alta o problema da inadimplência é bem menor, pois atinge 13,3% das famílias.
Cartão de crédito e carnê de loja foram as modalidades com crescimento significativo após a pandemia. O orçamento familiar apertado fez famílias mais pobres transformarem despesas essenciais com alimentação e supermercados em dívidas.
O fim da pandemia e a retomada dos serviços, do entretenimento fora de casa e das viagens explicam o crescimento de endividados de famílias de renda alta no cartão de crédito (88%). Se endividam mais também no financiamento de carro e carnês de lojas.
O ICC (Índice do Custo de Crédito) do rotativo nos cartões de crédito estava em 327% aa em fevereiro de 2001, antes da retomada da elevação da taxa de juro básica pelo Banco Central. Atingiu o pico de 408% aa em outubro de 2022.
O saldo desse crédito rotativo foi o de maior crescimento (71,5%) na modalidade para Pessoas Físicas nos 12 meses até novembro de 2022. Cartões de crédito à vista, em operações sem incidência de juros, parceladas ou não, cresceram bem menos (21,1%). Aquele saldo representava 5% e este 20% do saldo total com recursos livres para PF. O crédito consignado mais garantido e barato representava 33% do total de R$ 1,7 trilhão.
Quem perde com a meta de inflação superestimada está claro. E quem ganha com os disparatados juros super-amados?
O segmento Private Banking (65 mil grupos familiares e 130 mil contas) tinha nos títulos e valores mobiliários, aplicados em ativos de renda fixa, R$ 304 bilhões em dezembro de 2020, antes da retomada da elevação da taxa de juro básica. Em dezembro de 2021, já tinha elevado para R$ 379 bilhões em quase 25%, enquanto a participação desse portfólio aumentou sua participação de 18,7% para 21,3% do total.
Em novembro de 2022, esse saldo atingiu R$ 474 bilhões ou 25,2% do total. A elevação do montante com rendimentos de juros nesses onze meses foi 25%! A média per capita, considerando contas por domicílio, aumentou nesse período de R$ 2.674.823,80 para R$ 3.229.463,30, uma variação de R$ 555 mil.
Calcule o seguinte, se um cliente tivesse R$ 5 milhões aplicados em 100% do CDI, com juros de 13,75% aa, equivalentes a 1% ao mês com juros compostos, sem aplicar mais nada, teria no fim de um ano R$ 5.634.125,15 “sem fazer nenhum esforço”… Cerca de 50 mil reais por mês está acima da renda do trabalho de 99,9% da população brasileira.
Ficou clara a razão do lobby em favor do círculo vicioso favorável ao enriquecimento de poucos e empobrecimento de muitos? Em nome do trauma histórico da sociedade brasileira com o regime de alta inflação, herdado do regime ditatorial militar, o terrorismo midiático de O Mercado é a ameaça de qualquer comentário do presidente da República recém-eleito, ou seja, representante da opinião da maioria dos eleitores, levar ao “fim do mundo”!
Quando se analisa com evidências empíricas, fica claro ser bastante confortável o conservadorismo dessas “regras do jogo” a favor do Private Banking e prejudicial à maior parte da população sem crescimento de renda e emprego e com crescimento de endividamento.
Autor: Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP.
Publicado no site GGN.
