HISTÓRIA DO BRASIL: MMXVII/MMXVIII/MMXIX/MMXX/MMXXI/MMXXII, O QUADRIÊNIO DA DESGRAÇA EDUCACIONAL - I
Falta de energia afetam mais as crianças pobres
Sem luz, sem educação
As histórias de superação por
meio da educação frequentemente nos emocionam nas redes sociais: filho de
pedreiro que virou advogado, filha de cobrador de ônibus que virou cientista; e
assim por diante.
Os personagens normalmente
partiram de um contexto de grandes dificuldades, onde o esforço individual foi
preponderante para que conseguissem enfrentar a falta de infraestrutura e
demais deficiências que os separavam de contemporâneos para avançar em
carreiras mais bem remuneradas e consideradas de maior sucesso do que as de
seus familiares. Evidentemente que esses episódios isolados devem ser
celebrados por sua importância na trajetória específica dos envolvidos e como
exemplos para outros jovens. Mas é muito preocupante que, enquanto sociedade,
pouco estejamos fazendo para garantir que esses caminhos sejam minimamente
acessíveis para mais brasileiros.
Essa situação fica nítida no
caso da energia elétrica, um direito que justamente serve de base para outros
direitos, como a educação. O fato é que a qualidade do serviço disponibilizado
para as famílias mais pobres é mais uma barreira nessa corrida de obstáculos
que as crianças carentes têm de enfrentar se quiserem "ser alguém na
vida". Afinal, nas favelas e periferias de São Paulo, falta luz muito mais
vezes e por mais tempo do que nos bairros mais abastados da cidade mais rica do
país.
A constatação é do estudo
"Desigualdades na Qualidade de Fornecimento de Energia Elétrica: uma
análise dos indicadores de continuidade para o município de São Paulo", do
Instituto Pólis, que correlaciona
indicadores de qualidade da energia com as condições de renda, raça e
participação de mulheres de baixa renda como responsáveis pelos domicílios.
Condições semelhantes foram observadas em Maceió, Rio Branco e no Rio de
Janeiro
A realidade é estarrecedora: os conjuntos elétricos com interrupções mais duradouras
e frequentes estão, em sua maioria, em regiões que apresentam menor renda,
porcentagem de população negra superior à média da cidade e maior porcentagem
de mulheres de baixa renda como responsáveis pelo domicílio.
O estudo mostra que os bairros mais centrais
da capital paulista apresentam metas de qualidade superiores às dos demais
tanto em termos de duração como de frequência das interrupções no fornecimento
de energia. Nos primeiros, os limites são de, respectivamente, 3 a 4 horas, e
até três vezes por ano. Nas áreas mais periféricas, por outro lado, os limites
chegam ao intervalo de 10 a 14 horas, enquanto a quantidade de vezes em que o
serviço é interrompido pode chegar a 14 vezes.
A pesquisa
identificou ainda discrepâncias significativas nas condições de atendimento
das favelas. Embora a quantidade de interrupções nos domicílios nesses
locais seja semelhante à média geral, a duração média de cada interrupção nas
comunidades mais carentes é de 11,8 horas —ou 21% acima do que a média no
município.
As condições
de atendimento nas favelas também destoam em relação aos bairros próximos com
rendas médias superiores. Nos bairros de alta renda do distrito da Vila
Andrade, a duração média das interrupções é de 9 horas, enquanto na favela de
Paraisópolis (no mesmo distrito) é de 41 horas. Além disso, um morador da
favela chega a ficar 41 vezes por ano sem energia, enquanto no restante do
distrito as médias observadas são de até 15 vezes.
A superação do
ciclo da pobreza por meio da educação não pode ser uma exceção reservada a
estudantes determinados a superar uma vida precária. Condições para o estudo no
ambiente doméstico são elementos básicos para que milhões de brasileiros hoje
alijados de uma cidadania digna se desenvolvam e possam sonhar com uma vida
melhor.
É urgente,
portanto, uma revisão dos métodos e metas de qualidade dos serviços de
distribuição, de modo que a energia elétrica para uma criança fazer a lição de
casa não seja (mais um) privilégio disponível apenas para os coleguinhas que
tiveram a sorte de nascer no bairro vizinho.
Autor: Clauber Leite
- Coordenador de projeto
do Instituto Pólis
Fonte:
Folha de São Paulo
