HISTÓRIA DO BRASIL: MMXVII/MMXVIII/MMXIX/MMXX/MMXXI/MMXXII, O QUADRIÊNIO DA DESGRAÇA AMBIENTAL - I
Conjunto da obra bolsonarista mais se assemelha a um país-fantasia
A julgar pelos primeiros
relatórios de alguns dos 30 grupos temáticos da transição, a desgraceira é
monumental
Era uma vez um país chamado
Brasil, presidido por um capitão chamado Jair Bolsonaro, que deveria comandar a
nau pátria até o último dia de mandato, 31 de dezembro de 2022. Só que o
capitão sumiu desde que Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito seu sucessor. E o
conjunto da obra bolsonarista, entregue a conta-gotas e de má vontade à equipe
de transição de Lula, mais se assemelha a um país-fantasia. Fantasia por
falido, e falido no sentido múltiplo do termo — financeiro, social, gerencial,
moral. A julgar pelos primeiros relatórios de alguns dos 30 grupos temáticos da
transição, a desgraceira é monumental. Por enquanto, o impacto nacional
decorrente dessa ruína ainda é pouco percebido — nada consegue competir com o
feitiço da sucessão de zebras, surpresas e reviravoltas de uma Copa do Mundo. E
a do Catar só termina no domingo 18 de dezembro, já às vésperas do Natal.
Portanto, na prática, até a posse de Lula no Palácio da Alvorada, o país
continuará navegando à deriva. Algum dia, talvez, será possível computar quanto
do futuro do Brasil foi perversamente esbanjado ou destruído na era Bolsonaro.
É do jogo político que toda
equipe de transição desfie queixas e aponte
falhas quanto ao estado real do país que lhe
é entregue pela administração anterior. Não raro, para justificar futuros
percalços ou não cumprimento de promessas de campanha. Outras vezes, o
descalabro é do tamanho da grita. Na transição americana de 2020, a equipe leal
ao derrotado Donald Trump ficou os primeiros 16 dias pós-eleição sem sequer
atender telefonemas da equipe vencedora de Joe Biden. Muitos funcionários
públicos de carreira, temendo que alguns bancos de dados científicos viessem a
ser manipulados antes da troca de poder, chegaram a armazenar conteúdos em
nuvens fora do alcance trumpista. Jamais na história política dos Estados
Unidos ocorreu uma transferência mais envenenada das ferramentas do Estado. Mas
Estado havia.
E aqui? Aqui há falência. Os
grupos temáticos amontoados pelo vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, no
Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, para a elaboração de uma
radiografia nacional, parecem atordoados. Há os que engatinham, os que já
percorreram meio caminho e os altamente preparados para a tarefa. Todos têm em
comum garimpar nos escombros do que já foi um país com políticas públicas.
O testemunho mais contundente da
semana veio durante a entrevista coletiva do grupo de trabalho de meio
ambiente. Trata-se do grupo dos sonhos de qualquer governo, dada a proficiência
e o conhecimento de seus integrantes. Na quinta-feira, o microfone foi passando
de mão em mão até chegar a vez de Izabella Teixeira fazer seu resumo.
— Não é exagero, não é drama.
Todo mundo sabe que sou muito pragmática, mas levei muitos sustos vendo os
documentos — esclareceu a ex-ministra. — Não é uma questão de ineficiência ou
incompetência [do governo Bolsonaro]. Houve uma decisão política de destruir.
Alegrou-se, porém, com a
solidariedade encontrada junto ao corpo técnico do ministério e de outras 200
instituições que forneceram dados e foram ouvidos pelo grupo. Nunca vira
tamanha força da sociedade civil:
— Vieram de forma colaborativa,
engajada, produtiva. Não vieram reclamando.
Ela acredita que o Brasil dessa
nova envergadura tem força para reconstruir o diálogo — até porque, “sem a
força da sociedade e de vocês [a imprensa] comprometidas com a transparência e
a verdade, o Brasil não fica de pé”. Em resumo:
— Não tem dinheiro para prevenção
alguma. Acabou. Aliás, acabou de sair um ofício do presidente do Ibama
suspendendo todas as atividades por falta de dinheiro. Acabou o licenciamento
... não tem fiscalização. Está por escrito, em ofício enviado ao secretário
executivo do Meio Ambiente explicando as razões do bloqueio de todo o dinheiro
disponível. Então me parece que o Ibama vai trabalhar virtualmente ... Feliz
Natal para os grileiros e para os criminosos neste país do crime ambiental,
porque é isso que está sendo dito.
Se todos os grupos de trabalho da
transição forem tão eficazes e produtivos quanto o do meio ambiente, o governo
Lula pelo menos saberá em que pântano estará pisando. E o que fazer para, mais
adiante no futuro, poder proporcionar um Feliz Natal para o Brasilzão que
merece.
Artigo publicado originalmente no jornal O Globo.
