HISTÓRIA DO BRASIL: MMXVIII/MMXIX/MMXX/MMXXI/MMXXII, O QUADRIÊNIO DA DESGRAÇA ECONÔMICA - XII
Mais pobres se endividam para comprar comida e pagar contas básicas, diz pesquisa
Já entre os
mais ricos, principal motivo para pegar um empréstimo é empreender
Comprar
comida e pagar as contas do dia a dia
estão entre as principais razões para a população das classes C, D e E tomar
empréstimos ao longo dos últimos meses no país, segundo estudo conduzido pelo
instituto de pesquisas Plano CDE.
Questionados sobre por que
tomaram ou tomariam um empréstimo, entre 45% e 50% dos respondentes das classes
C, D e E indicaram que a alimentação e as contas do mês foram ou seriam a
principal finalidade. Esse percentual cai para 30% entre as classes A e B.
Considerando todas as classes,
42% afirmam ter alguma dívida em atraso, diz a pesquisa.
"Salta aos olhos essa
questão da necessidade dos empréstimos para comprar comida, indicando a
situação grave que uma série de famílias enfrenta atualmente", afirma
Maurício Prado, diretor do Plano CDE.
Nesse cenário, acrescenta, é
preciso ainda mais atenção com a concessão
do empréstimo consignado para os
benefícios do Auxílio Brasil, que, em muitos casos, estão contraindo dívidas
com juros elevados para a subsistência. "O consignado do Auxílio Brasil só
vai fazer com que as famílias se enrolem ainda mais."
Pagamento de outras dívidas e montar ou
investir no próprio negócio também aparecem entre os principais motivos que
justificaram a tomada de empréstimos.
Na divisão por faixa de renda, foram
consideradas para definir as classes D e E domicílios com renda familiar de até
R$ 2.000. Na C2, o intervalo vai de R$ 2.000 até R$ 3.000, e de R$ 3.000 até R$
6.000 na C1. A AB é formada por lares com renda familiar acima de R$ 6.000.
A pesquisa do Plano CDE, de abrangência
nacional, ouviu 2.370 pessoas maiores de 18 anos de todas as classes sociais,
entre 26 de julho e 9 de agosto de 2022.
O levantamento aponta ainda que cerca de 50%
das famílias tomaram algum tipo de empréstimo no último ano, sendo familiares e
amigos a principal fonte para a busca dos recursos entre os mais pobres,
seguidas pelos bancos digitais e tradicionais.
Coordenador do Centro de Estudos em
Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (Fundação Getulio Vargas), Lauro
Gonzalez afirma que a combinação de um cenário de crescimento econômico baixo
desde meados de 2014 com uma inflação alta e um mercado
de trabalho caracterizado pela precarização e a informalidade faz com
que o crédito seja cada vez mais utilizado como um complemento à renda da
população de menor poder aquisitivo.
"E o crédito como complemento de renda é
um caminho quase certo para o superendividamento", afirma o especialista.
Ainda segundo a pesquisa do Plano CDE, 50%
dos participantes nas classes D e E já tiveram de reduzir a compra de comida
para pagar uma dívida.
O aumento na carga de trabalho (horas extras,
bicos, trabalhos temporários) e a venda de bens (carro, móveis,
eletrodomésticos) também costumam ser uma das alternativas mais utilizadas.
POPULAÇÃO RECENTEMENTE BANCARIZADA É CLIENTE
DE BANCOS DIGITAIS
O levantamento aponta ainda que cerca de 20%
dos entrevistados fazem "alto uso" das contas bancárias (mais de uma
vez por mês) há menos de dois anos (público considerado recém-bancarizado),
sendo cerca de 80% da população C, D e E.
O estudo indica que a maior parte dos recém
bancarizados é formada por mulheres (62%), 50% são negros, e quase a metade
desse público (49%) se vale das novas instituições financeiras digitais como o
principal banco para acessar os serviços financeiros.
Sobre em quais bancos têm a conta que mais
utiliza no dia a dia —uma vez que cada cliente bancário possui três contas, em
média—, o Nubank aparece na liderança entre a base da pirâmide, com 28% do
total. A fintech também desponta na liderança entre o público AB, com 21%.
"Sempre apostamos na criação de produtos
inovadores para facilitar a vida dos clientes. Já chegamos a 66,9 milhões de
clientes no Brasil, com distribuição diversificada entre as classes A a E, e
55% têm o Nubank como sua conta principal. Dentro desse universo, estimamos que
5,6 milhões tiveram acesso ao primeiro cartão ou conta através dos nossos
serviços. É uma satisfação cumprir um papel relevante de inclusão financeira",
afirmou Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, em nota enviada à Folha.
"O protagonismo dos bancos digitais é
muito forte e maior do que imaginávamos, acima até da Caixa no público CDE, que
historicamente sempre foi o banco mais usado por essas famílias", diz o
diretor do Plano CDE.
Entre o público que compõe a base da
pirâmide, a usabilidade e facilidade de uso (63%), o acesso a cartão gratuito
(53%) e a gratuidade da conta (33%) são as principais razões apontadas para
justificar a preferência pelos bancos digitais.
O estudo indica ainda que os entrevistados,
em especial de menor renda, afirmam que têm uma experiência melhor ao utilizar
os bancos digitais na comparação com os grandes bancos, afirma Prado.
Gonzalez, da FGV, diz que, por um lado, o surgimento
dos novos bancos digitais é um fator positivo à medida que aumenta a
concorrência em um setor ainda altamente concentrado no país. Mas, por outro,
pode acabar contribuindo para um aumento do endividamento das classes mais
baixas se a oferta de crédito não vier acompanhada de acesso à informação de
qualidade que conscientize as pessoas sobre os riscos dos empréstimos dentro de
um orçamento apertado.
O levantamento aponta ainda que o Pix se
tornou o principal meio de pagamento para cerca de 30% da população, sendo a
alternativa mais citada pelo público da classe C, atrás do cartão de crédito na
AB, e do dinheiro na DE.
CRIPTOMOEDAS ESTÃO ENTRE PRINCIPAIS OBJETIVOS
DE INVESTIMENTO
Entre os brasileiros que conseguiram poupar
algum valor no último ano (acima de 60%, mesmo nas classes C, D e E), a
caderneta de poupança continua sendo a principal alocação de investimento entre
todas as classes sociais, bem como guardar o dinheiro em casa.
Além disso, cerca de 1 em cada 3 brasileiros
disse que pretende fazer alguma aplicação na caderneta de poupança nos próximos
12 meses.
Outros 28% gostariam de investir em fundos de
investimento, e 27%, nas criptomoedas, com as cripto à frente de opções como
ações (23%), títulos públicos e Tesouro Direto (21%) e previdência privada
(17%).
Em relação ao público que demonstrou
interesse pelo universo das moedas digitais cripto, a pesquisa do Plano CDE
indicou que 65% se informa sobre investimentos por meio de influenciadores
digitais e 57% não têm poupança para lidar com um imprevisto no valor
da sua renda mensal.
Segundo Prado, a oferta
de criptomoedas por meio dos mais diversos canais, de fintechs a
aplicativos de empresas de transporte urbano, e o nível elevado de volatilidade
do ativo, torna premente a adoção
de alguma regulação relativa a esse mercado, de modo a aumentar o nível de
transparência para os clientes.
O levantamento evidencia ainda o fato de que
o principal desafio para aumento a formação de uma taxa de poupança na base da
pirâmide é a falta de renda —nos últimos 12 meses, cerca de 50% da população
teve gastos maiores do que a renda, sendo 37% nas classes A e B, 48% e 55% nas
C1 e C2, respectivamente, chegando a 60% nas D e E.
Autor: Lucas
Bombana
Fonte: Folha de São Paulo
