HISTÓRIA DO BRASIL - V: O QUADRIÊNIO DA DESGRAÇA ECONÔMICA: MMXVIII/MMXIX/MMXX/MMXXI/MMXXII.
O novo voo da galinha
Dado do BC é a confirmação de que estamos em uma recuperação que não se
sustenta
O BC (Banco Central) estima
que a atividade econômica brasileira caiu 1,1% em agosto. O "mercado"
já esperava uma queda, pois o crescimento de julho foi grande e, quando isso
acontece, normalmente há um freio de arrumação no mês seguinte. Ainda assim, a
queda efetiva de agosto de 2022 foi bem maior do que a esperada (1,1% vs 0,5%).
Contrariamente ao discurso de Bolsonaro e Guedes, o resultado anunciado pelo BC é
a confirmação oficial de que estamos em um "voo de galinha", uma recuperação econômica que
não se sustenta.
Todos os sinais da economia demonstram que Bolsonaro e Guedes
rasparam o tacho do orçamento e crédito público para produzir um soluço de
expansão econômica na véspera da eleição, sabendo que isso acabará em nova
estagnação no final de 2022.
Você acha minha opinião viesada? OK, vamos aos números do
mercado, que não é exatamente petista. Segundo o último relatório Focus do BC,
a expectativa média dos analistas financeiros é um crescimento de 2,7% do PIB
neste ano.
Parece alto? Se o Brasil mantivesse o ritmo de recuperação da
primeira metade do ano (em média 1,1% por trimestre), o crescimento de 2022
seria de 3,5%. A expectativa de 2,7% reflete, portanto, uma forte desaceleração
da economia no segundo semestre, ou seja, a partir de agora.
Desaceleração para quanto? Para algo próximo de
"crescimento zero" no restante de 2022. Especificamente, ainda deve
acontecer uma pequena expansão da economia no terceiro trimestre, seguida de
queda no quarto.
Traduzindo do economês: para tentar continuar no poder,
Bolsonaro e Guedes "esvaziaram o tanque" do Brasil antes da eleição,
sabendo que esse tipo de ação tende a deixar a maioria da população "a
pé" no final do ano.
Olhando para frente as coisas pioram. A expectativa mais recente
do mercado para 2023 é de crescimento de apenas 0,6% por ano. Como a população
brasileira cresce a uma velocidade de 0,7% ao ano, a expectativa de mercado
significa queda da renda por habitante.
Parte da estagnação projetada para 2023 vem de fora. Devido
à contração monetária para combater a inflação, os EUA
irão desacelerar no próximo ano. Na Europa, os efeitos do "choque
Putin" também tendem a gerar recessão, com o adicional de paralisação e crise
política em economias importantes como Reino Unido e Itália.
E na China a situação é mais preocupante, pois apesar de a
inflação de lá estar baixa em comparação ao ocidente, o modelo chinês de
crescimento forçado por endividamento para construir infraestrutura sem demanda
garantida parece ter chegado ao seu limite.
A outra parte da estagnação brasileira projetada para 2023 vem
de nós mesmos. Do lado monetário, para controlar a inflação, ainda teremos juro
real elevado por vários meses e isso reduz o crescimento da economia. Do lado
fiscal, a destruição do orçamento público promovida por seis anos de Temer e
Bolsonaro já deixou um legado de grande incerteza econômica.
Há pressões de todos os lados, para reformar tributos,
reconstruir programas e gastos essenciais, recuperar o salário mínimo, negociar
com servidores, quitar precatórios, compensar Estados e municípios e outras
bombas fiscais criadas pelo "dread team" Temer e o "mad
team" Bolsonaro.
Para não desanimar os leitores, com bom senso, tempo e negociação,
é possível desarmar todas as bombas deixadas por Temer e Bolsonaro,
reequilibrando as contas públicas no médio prazo, isto é, até 2026. Porém, o
primeiro passo para recuperar a economia está na política e não na economia. O
primeiro passo é votar Lula para presidente.
Autor: Nelson Barbosa, Professor
da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor
em economia pela New School for Social Research.
Fonte: Jornal Folha de São Paulo
