COMO TIRAR DE ALGUÉM QUE JÁ NÃO TEM ?
Empréstimo do Auxílio Brasil custa até 87% a mais em juros do que outros consignados
Crédito é importante para quem não tem acesso a financiamento para emergências, diz setor
Para o Auxílio Brasil, a taxa mensal considerada foi a de 3,45% oferecida pela Caixa Econômica Federal.
A taxa máxima para o consignado do INSS é de 2,14% ao mês.
Na comparação mais desvantajosa para o empréstimo do Auxílio Brasil, que é em relação ao consignado do INSS, o beneficiário do auxílio tem uma taxa anual de juros de 50,23%, enquanto o aposentado ou pensionista paga 25,93%.
Transformando essa diferença em reais, o total debitado do auxílio em dois anos será de R$ 3.840, dos quais R$ 1.257 serão para o pagamento de juros. Esse valor representa um aumento de 87% em relação aos R$ 672 dos juros do consignado do INSS.
Os valores do
custo do consignado do Auxílio Brasil foram calculados sobre parâmetros
oferecidos pela Caixa em suas páginas na internet. Procurado, o banco não
confirmou os cálculos.
O custo
superior ao de outros tipos de consignado não significa que o empréstimo do
Auxílio Brasil é ruim para os beneficiários. Segundo especialistas, esse
empréstimo tem uma função social importante quando utilizado em situações
emergenciais.
"Uma
pessoa pode pegar esse empréstimo para quitar um financiamento mais caro ou
para comprar uma geladeira, caso a dele esteja danificada. Em alguns casos, faz
sentido", diz Andrew Storfer, diretor de economia da Anefac.
"Ninguém
nega o problema do superendividamento das famílias no Brasil, mas é
absolutamente legítima a oferta e a busca por crédito por pessoas que estão
negativadas e sem acesso a outras possibilidades de financiamento", afirma
Luis Eduardo da Costa Carvalho, presidente da Acrefi (associação das empresas
de crédito e investimento).
Carvalho ainda
ressalta que o risco para a instituição que empresta o recurso não é superior
ao de outras modalidades de consignado, pois o órgão pagador do benefício é o
governo federal.
O risco de
calote relativamente baixo, porém, não resultou em um crédito mais barato, além
de não ter despertado o interesse do setor financeiro em oferecer o crédito
autorizado pelo governo. Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander
confirmaram à Folha que não ofertam o empréstimo do Auxílio
Brasil.
Storfer e
Carvalho explicam que a principal dificuldade em operar esse tipo de crédito
neste momento é que o dinheiro está caro devido à elevação mundial das taxas de
juros para o combate à inflação.
Oferecer um
crédito que potencialmente será requisitado por milhões de pessoas requer ter
muito dinheiro em caixa. Para encher seus cofres, bancos disputam investidores
e, em tempos de títulos do governo pagando juros altos, as instituições
precisam entregar retornos elevados para atrair clientes.
Nesse contexto, o crédito consignado, que tem taxa modesta para os parâmetros do mercado brasileiro, pode trazer pouca vantagem em relação ao custo de captação do dinheiro. Além disso, é preciso gastar com a estrutura para fazer o negócio. Tecnologia, segurança contra fraudes e funcionários custam caro para o setor.
Uma forma de
os bancos aumentarem seus lucros é aproveitar a entrada de um novo cliente, que
pode ter chegado à instituição para tomar um empréstimo consignado, para vender
a ele outros produtos financeiros, mais vantajosos para a instituição.
A construção
desse relacionamento entre empresa e cliente, porém, é menos promissora quando
quem toma o crédito o faz para ter acesso a alimentos e outras necessidades
básicas, diz Storfer. "Para quem empresta não é tão atraente."
Autor: Clayton Castelani
Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo
