AS DISFUNÇÕES DO CAPITALISMO - CONCLUSÃO
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na GT, Keynes (1964, p. 372) escreveu que “os principais problemas da sociedade econômica em que nós vivemos são o desemprego e a arbitrária e desigual distribuição da renda e da riqueza”. Tal citação expressa, de certa forma, a ideia central do artigo, qual seja, mostrar que a visão de Keynes sobre a dinâmica operacional de economias monetárias, em uma realidade de organicismo social e de intervenção do Estado na economia, especificamente por meio de suas proposições de política monetária e fiscal, visava, em grande parte, solucionar as crises de demanda efetiva e, por conseguinte, de desemprego, e distribuir a renda entre as diversas classes sociais. Enfim, esse é o conteúdo filosófico e social da política econômica de Keynes. Keynes não queria que o capitalismo sucumbisse; muito pelo contrário, queria reformá-lo e salvá-lo. Para tanto, rejeitando o capitalismo à la laissez-faire, ele propõe um capitalismo regulado em que as disfunções do mercado fossem suprimidas pela intervenção do Estado para, por um lado, garantir e sustentar o pleno emprego e, por outro, atacar o excessivo grau de concentração de renda e de riqueza. É a partir da intervenção do Estado na economia, seja por políticas públicas, seja através de ações de natureza normativa imprescindíveis para a construção de um ambiente institucional favorável às tomadas de decisão dos empresários, que Keynes sinaliza a reforma do sistema capitalista. Nesse particular, segundo O’Donnell (1989, p. 293), Keynes tinha em mente uma reforma do capitalismo em que “o objetivo final era a construção de uma utopia não capitalista, muito mais próxima às sociedades comunistas ou utópicas de “esquerda” do que às sociedades construídas sob a égide do capitalismo [liberal]”. Indo nessa direção, a partir de sua análise sobre a lógica operacional de economias monetárias, Keynes, ao longo de sua vida, apresentou inúmeras propostas de reformas do capitalismo, inclusive aquelas relacionadas com a reestruturação do sistema monetário internacional (CWJMK, XXVII, 1980). Em comum a todas as proposições, a ideia de que o crescimento econômico sustentável e o desenvolvimento social devem consistir no esforço daqueles que não cometem os erros dos pessimistas, conforme escreveu Keynes em Economic Possibilities for Our Grandchildren (CWJMK, IX, 1972a, p. 322):
[Por um lado] existem os pessimistas revolucionários que pensam que a situação é muitíssimo ruim e que nada pode solucioná-la a não ser os atos de violência, e [por outro] há os pessimistas reacionários que consideram que a nossa situação econômica e social é tão precária que não vale a pena arriscarmos mudanças.
Nesse particular, não é demais salientar que nem os erros dos pessimistas e tampouco o conformismo reacionário se constituíram em uma alternativa válida para Keynes. Assim, era válido para Keynes, e por isso sua filosofia da prática posta em ação por suas proposições reformistas e intervencionistas enquanto teórico e agente público do governo britânico, buscar transformar o capitalismo de mercado em capitalismo regulado para que se pudesse construir o tempo em que “o problema econômico não é – se olharmos para o futuro – o problema permanente da raça humana” (CWJMK, IX, 1972a, p. 326). Dessa maneira, para finalizar, conforme Keynes esperava para “nossos netos”, o objeto de desejo humano não mais seria a riqueza material concentrada nas mãos de poucos, mas desfrutada por toda a sociedade. Não por menos, Keynes ousou apontar que no longo prazo:
Nos vejo livre, então, para retornar para alguns dos mais certos princípios da religião e da virtude tradicional – para os quais a avareza é um vício, a extorsão pela usura é uma transgressão, e o amor ao dinheiro é detestável [...] Eu enxergo à frente, para dias não tão remotos, como resultado, a maior mudança que já ocorreu no ambiente material em que vivem o conjunto da humanidade [...] [Nestes dias] permanecerá razoável ser economicamente proativo para os outros uma vez que já cessou ser razoável [ser proativo] para si. (CWJMK, IX, 1972a, p. 330-331)
Autores: Fernando Ferrari Filho & Fábio Terra.
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| Para refletir |
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